sábado, 8 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Um fascista consequente? Sobre "Tropa de Elite II"

Obs1: se você não tiver visto o filme, não leia esse post.
Obs2: é sério.
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Assisti ao Tropa de Elite II (um ano depois de todo mundo, seus novidadeiros escravizados!) e senti um gosto-desgosto parecido com o do Tropa de Elite I. Um aluno me abriu os olhos para o aspecto blockbuster do filme - aquele hip rock da trilha sonora, enquanto Nascimento atravessa os pavilhões de Bangu I, certamente era dispensável. Fora as fotos tétricas, que mais te lembram uma porcaria qualquer do Schwarzenegger. Nada mais tosco; e o Padilha bem que poderia ter tido um pouco mais de cautela com a fácil leitura reacionária do filme. Mas ainda penso que a película é mais arte que indústria cultural, na proporção de 70 para 30%.

Por enquanto, vou morar no meu gosto-desgosto sem esperar resolvê-lo, enquanto tratar do filme como obra de arte. É claro, como tese sociológica, a coisa muda e falarei disso mais adiante. Lembra um pouco o Orwell, só que menos inteligente (ou livre). Cumprimentos ao diretor José Padilha: somente o equivalente cinematográfico de um Baruch de Espinosa ou Antonio Gramsci, para meter a colher em um tema desses.
Minha simpatia pelo Capitão Nascimento - promovido a coronel - não aumentou. Torci por ele, de fato,  pois o enredo te leva a isso, mas encaro com frieza esse mote americanófilo do herói-pistoleiro-solitário, a versão moderna de Kant, o homem que se entrega completamente ao cumprimento de seu dever. Continuo a identificar no Nascimento o que o Lênin, se vivo estivesse, talvez chamasse de "um fascista consequente", se é que dois adjetivos tão incongruentes podem coexistir em uma única frase sem ulcerar as pupilas de quem lê.
Entre atos: a gramática é amoral.

Meu pacifismo se apazigua ao perceber que Nascimento perdeu a mulher para um defensor dos direitos humanos, que deixa o enteado ver programas anti-Nascimento. Workaholic, este protagonista não tem sequer um cãozinho a esperá-lo em casa. Em seu terno preto e expressão fechada, envelhece em uma ostra; e, mesmo parecendo não se lamentar por isso, dá poucos sinais de alegria ao longo do filme. Parece viver em uma espécie de anestesia administrada pelo cumprimento do dever, trazendo um rosto que oscila entre as paixões tristes e a inexpressividade treinada dos que cumprem ordens sem dar opinião. Ao fim e ao cabo, meio desiludido, desesperançado, mas ainda aferrado à doutrina. Efeitos cumulativos de tanta violência? O Tropa de Elite I é sua jornada em busca de um substituto, mas ele não o consegue, por quê? Não temos explicações.

Para Nascimento, o homicídio é secundário. O centro de sua existência é a obsessão com um ideal, o das qualidades militares. Ele acredita na Corporação (o Bope) como todo fascista acreditava no corpo social da Pátria de Mussolini. Acredita no amigo, o André Matias, como homem obediente, que combina força e decência, espelho das qualidades do seu mestre. O ideal não é criativo, mas funciona: um dia depois do outro, protege milhares de zelosos agentes da lei das dúvidas aflitivas, que prejudicariam seu ganha-pão. Nesse meio social, o excesso de palavrões parece encobrir uma certa escassez de criatividade, de idéias, de entendimento mais complexo do mundo em que vivem. Não sei.

Vai ver que ele só me desperta certa compaixão justamente porque, no fundo, acredita naquilo que é tão difícil de fazer meus alunos desconfiarem, porque tem mil e uma utilidades: o mito da ordem e da disciplina, fundador da República brasileira. Se essa Musa dos incautos tiver despida a túnica desse mito, revela-se tão injusta, cínica, excludente, que muitos de nós talvez se revoltassem ou se deprimissem, ou coisa pior. Mas Nascimento não é bobo. Demora, mas ele percebe que não adianta matar e espancar, porque a natureza humana é anarquista, desdenha do Estado, da ordem, acumula tolos desejos de riqueza e vingança, e ele é impotente para generalizar seu modelo espartano de vida. A milícias do Tropa de Elite formam um pseudo-anarquismo parasitário do Estado, feito por homens acima de suspeita que nos fazem sentir saudades dos traficantes do Tropa I. E Nascimento também se pergunta, ao fim: por que matei tanto? Para dar nisso aí?
A morte do amigo e colega de BOPE é realmente um golpe em seu rígido senso de responsabilidade para com os subordinados, em sua ilusão na capacidade de protegê-los, e outras qualidades necessárias para sobrevivência do ofício. Esse herói deve ter agradado menos a média do público que o do Tropa I; agora ele se tornou mais complexo. No fim do filme, percebemos que o sentido psicológico de sua missão, a convicção de que o BOPE "sanitizará" o Rio com a soda cáustica da ordem e da disciplina, arruína-se por completo. Frente ao teste de realidade, Nascimento alcança uma compreensão mais profunda do funcionamento do "sistema".
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E agora, analiso o filme como tese sociológica. Um pouco de Gandhi, Tolstói, Thoreau e da contracultura já apontaria a inefetividade de se recorrer a meios violentos para criar uma sociedade não-violenta. Não somos computadores com botão de deletar - "aí, cidadãos, esqueçam a maldade do BOPE e tenham uma vida feliz!".
No fundo, não é mesmo o apaziguamento que está em causa. O filme consegue criticar bastante bem a tese simplista de que basta aniquilar os traficantes e a favela será um local bacana - e esse recado fica claro mesmo para os espectadores mais ingênuos. Ora, a violência na favela insere-se em um sistema. E no fim, Padilha volta suas lentes para o lugar onde os piores bandidos se concentram, i.e., Brasília.

Que tal, então, extinguir Brasília, já que é o verdadeiro centro da corrupção e da violência? Talvez pense assim o espectador ingênuo. E o filme anda em círculos, não chega a uma análise mais profunda do Estado, do narcotráfico (dificilmente o faria com a rede de patrocinadores que tem); não analisa o potencial impacto da descriminalização das drogas, não analisa o processo pelo qual um menino se torna traficante (o próprio MV Bill foi muito mais longe nesse ponto), traumatizado, violentado e sem alternativas para ganhar o seu pão. Somente um ingênuo poderia acreditar que o Estado brasileiro, com seu imenso poder econômico, não seria capaz de derrotar bandos de homens com armas do Exército, mas sem treinamento militar e comando central. Sim, parceiros, o BOPE tomou os morros, e daí? O abstrato "sistema" é capitalista, e aí entra outro ponto que me incomodou profundamente - ao se manter a guerra no nível do círculo tráfico-milícia-Estado, a fonte primeira de nossa organização social, o Grande Capital, escapou incólume. E é dele que vêm as armas, os vícios, o darwinismo social a que nos acostumamos quase como segunda pele.

Ora, vamos. Ninguém estranhou o patrocínio do filme pela Claro? Meus parabéns por abrir os olhos dos ingênuos, Padilha, mas sua frágil noção de sistema deixou de lado o elo principal da corrente, esse, que os moradores de tantos cortiços do mundo enfrentam todos os dias, a fonte primária da violência do Estado. O BOPE, mais do que resgatar sua população para direitos historicamente negados, é uma máquina de guerra para o grande capital acessar a favela sem ter de pagar propina para um lado ou outro.

E soltar esse filme meses antes da história da ocupação das favelas e instauração das UPPs?! Pode ser coincidência, mas...

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