domingo, 15 de maio de 2011

A tevê e o meu coraçãozinho (crônica baurulina)

Em Bauru, acabo assistindo televisão enquanto faço companhia aos meus velhos. Costuma doer, mas, até essa Páscoa,  as pontadas nunca haviam se aproximado tanto daquela famosa dor no braço direito, seguida de um túnel de luz com o vulto da sua avó sorrindo para você.
Era dia de Fantástico. Matéria de abertura: mortes nas rodovias, cuja principal causa (somos informados antes de podermos pensar) é a impunidade. Nada a ver com buracos, congestionamentos e afins.
Cenas de certo caminhão batido numa quilométrica fila de carros. Pessoas sangrando (de verdade! Não era molho de tomate!), enquanto um caminhoneiro fugia das câmeras. Não por muito tempo: sua CNH foi habilmente obtida pela reportagem da Globo (corta para um close frontal na foto desse inimigo público). 
Gigi, olha o túnel! Você já não tem 25 anos. Mudei de canal.
Na Record, um programa sobre cachorros. Promessa de alienação inofensiva! Mas eis que começa narrativa sobre a relação entre um homem sem-teto, que há 20 anos teve a mão decepada num acidente de trabalho, e seu fiel cãozinho, juntos durante a coleta de recicláveis. Imaginei a vida desses dois e umas pontadas (imaginárias) voltaram ao meu peito. Voltei para o Fantástico, na esperança de que a reportagem sobre os acidentes tivesse acabado.
E acabara. Exibiam-se cenas de uma câmera de segurança: um bebê recém-nascido era posto numa caçamba de entulho. Em seguida, aparecia um catador de latinhas que, ao se deparar com a criança enjeitada, quase morreu de susto (parecia-se comigo, assistindo à reportagem dos acidentes).
Corta: entrevistas protocolares com o professor e o policial coadjuvantes. Foto da fachada do hospital católico (e chique) no qual a criança se recuperava bem. O policial é a voz da razão: "foi deus!", pois o médico bem-apessoado garantiu que mais uns minutinhos seriam fatais para a menina, já apelidada de "Vitória". 
Se deus apresentou-se, o diabo não fez por menos. A mãe foi devidamente aferrolhada e exibida para as câmeras, com um corpo surpreendentemente magro para o puerpério (Adriane Galisteu e outras ex-grávidas morreriam de inveja). Trazia na cara uma expressão da mais total frieza. Sua desculpa?! Já tinha 6 filhos e trabalhava como cozinheira! Agora, imagino, já não tem filhos, liberdade ou emprego. Após uns 10 anos de cana, poderá rivalizar com o pobre senhor da mão decepada no processo de catação de latinhas, pois o salvador do bebê  está nas graças da opinião pública. Talvez ele vá obter trabalho, mas como a memória televisiva é curta - além do que há alta concorrência de bebês enjeitados em locais pitorescos - também pode ser que continue procurando latinhas e encontrando latinhas.
Perdoem-me a cáustica amargura, mas me surpreende perceber como histórias assim deixem entrever tragédias tão claras, repletas de desigualdade social, omissão do poder público, má fé da imprensa, e o telespectador talvez nada observe. O sentimentalismo é complemento necessário da inanição intelectual. Vilão, mocinho, mocinho mais mocinho, mocinho menos bandido, e acreditamos que o Bolsa Família realmente tornou o Brasil um país justo. Vivemos é numa nação cruel com os pobres, estupidificada e kitsch. E ainda dizem que nossos afetos são naturalmente bons! Que erro! Eles podem ser é cúmplices da nossa subserviência compassiva e virtuosa.
Ainda bem que só volto a assistir televisão em julho. Nesse ritmo, meu coraçãozinho não aguentaria.

Um comentário:

  1. Michelly Cristiny25 de maio de 2011 19:14

    A forma despreocupadamente irônica que vc escreve é muito boa. Será que tem como você me passar seu email, preciso falar com vc antes da aula de sexta ok?! Michelly Cristiny - Aluna da Biologia (michelly_cristinny@hotmail.com)

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