quinta-feira, 23 de maio de 2013

Veneno Antiausteridade

* Minha declaração de amor a Paul Auster e suas "Loucuras do Brooklyn" *

Obs: amor = alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.

Paul Auster, foto n(d)o Globe Times.
Mistério. Para tremer - e ao fundo, uma "Cidade de Vidro" - foto do WGBH News

"I WAS looking for a quiet place to die. Someone recommended Brooklyn, and so the next morning I traveled down there" (p.1) ["Eu procurava por um lugar quieto pra morrer. Alguém recomendou o Brooklyn, e então na manhã seguinte eu viajei lá pra baixo"]. Assim começam "The Brooklyn Follies" (tradução aqui), narrado e protagonizado por Nathan, um corretor de seguros aposentado que rumina a concreta, recente e dura luta contra um câncer de pulmão.
Divorciado, sem amigos próximos, já de início tretado com a única filha, mas com alguma grana para se manter; a viva imagem de um sessentão "fracassado". Para onde ir, quando o mundo parece ter aberto mão de ti - e tu do mundo?
Não ouvirás uma voz consoladora atrás de uma sarça. Não terás otimismo nenhum. A m. em que o anti-herói começa o livro não chega a ser eliminada "na Real", como diria Lacan (devidamente adaptado à língua dos meus alunos). Mas Nathan é a encarnação escrita de um Paul Auster supreendentemente bem-humorado.
Humor negro, é claro, mas qual outro humor é possível em nossos tempos? Esperando uma história deprês de lamúrias sobre a finitude, estouramos de rir já na segunda página. Rachel diz a seu pai que esboce novo projeto de vida -  conselho pra-lá de razoável  - e o que lemos?
"I explained that I was probably going to be dead before the year was out, and I didn´t give a flying fuck about projects." (p.2, grifo meu) ["Eu expliquei que provavelmente estaria morto antes do fim do ano, e eu não dava uma mísera trepada para projetos"]
O.k. Não dá para traduzir. "Flying fuck" (perde-se a aliteração de "F F"). Talvez "tímida trepada".
Quase sem descanso, vem a gargalhada da página seguinte: "To hear Rachel tell it, I wasn´t much in the parent department either" (p.3, grifo meu) ["Pelo que a Rachel dizia, eu não era muita coisa no departamento de pais também"]. Imaginei o antiaustero velhinho atrás da mesa em uma sala com divisórias, num desses sufocantes escritórios terroristas (ops: tayloristas), com uma furada apólice de seguro para filhos, encarando a própria filha desfeita em prantos e reclamando seu passado de volta.

O livro está repleto dessas saborosas expressõezinhas luminosas que devem causar enxaqueca nos tradutores. Dir-se-ia uma espécie de Woody Allen mais profundo (exceto pelo Allen mais próximo de Bergman, como em "Crimes e Pecados", "Interiores", "A outra", "A rosa púrpura do Cairo"), e também mais chulo, com termos que colam na sua memória e das suas sinapses fazem casas, como se sempre tivessem estado lá.

Vejam os "Rascals believe in life" [canalhas crêem na vida], "everyone was subject to black moods", "Dombowski kicked the bucket three years ago. He was ninety-one, and he died of a stroke" (p.55), "intellectuals suck, Nathan. They´re the most boring people in the world" (p.93), "he´d always had the hots for Edith" (114), "every idiot got his turf to defend" (188), "I find it a perfect book for an aging fart like me" (192), "I´m not even sure he gives a rat´s ass about religion" (p.263), "our smart, energetic, wise-cracking child had turned herself into a royal pain in the ass" (283).

Se a voz popular orienta-nos que há sempre um chinelo velho para um pé inchado, Nathan encontrou o seu logo no início da história. Ele tromba Tom, seu amado sobrinho, que não via há anos,  atendendo ao balcão em um sebo. O.k., um ótimo sebo. Mas foi decepcionante para o tio Nat, que tinha grande admiração por aquele ex-jovem estudioso de literatura, com a mente vivaz que o fascinara com a sua ideia de que desejava escrever: "A study of the inner refuge, a map of the place a man goes to when life in the real world is no longer possible" (p.15). Ou, traçando um paralelo entre Edgar Allan Poe e Henry Thoreau: "As a place to read, write, and think. It´s a vault of contemplation, a noiseless sanctuary where the soul can at last find a measure of peace." (p.16)["É um cofre de contemplação, um quieto santuário onde a alma pode, por fim, encontrar uma quota de paz"]. E desse mundo desdobra-se a utopia austeriana, não de uma comuna, mas de uma comunidade.
Tom é um "fracasso escolar" do doutorado. E, sob alguns aspectos, lembrei-me de mim mesma no doutorado, às sextas-feiras, quando rolava a tela do PC com aquele indescritível sentimento de autodesapontamento, após cada semana de trabalho duro. Tom é o fantasma de todos os que decidem - ou são levados a - escrever uma tese, e por cobrir essa zona silente da vida de tantos, já é um personagem inesquecível.
Para encerrar, citação que me encoraja a continuar tentando o mundo da escrita:
"There were no rules when it came to writing, he said. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jube of exceptions. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jumble of exceptions. That was because writing was a disease, Tom continued, what you might call an infection or influenza of the spirit, and therefore it could strike anyone at any time. The young and the old, the strong and the weak, the drunk and the sober, the sane and the insane. Scan the roster of the giants and semi-giants, and you would discover writers who embraced every sexual proclivity, every political bent, and every human attribute - from the loftiest idealism to the most insidious corruption." ["Não havia regras no que se referia à escrita, ele disse. Olhe de perto as vidas de poetas e novelistas, e você se choca com o puro caos, a infinita galeria de exceções. Isso porque escrever é uma doença, continuou Tom, o que você pode chamar uma infecção ou gripe do espírito, e portanto poderia atacar qualquer um a qualquer momento. O jovem e o velho, o forte e o fraco, o bêbado e o sóbrio, o são e o insano. Vasculhe a lista de gigantes e semi-gigantes, e você descobriria escritores que abraçaram toda orientação sexual, toda tendência política, todo atributo humano - do mais elevado idealismo à mais insidiosa corrupção"] (Paul Auster, 'The Brooklin Folllies", London: Faber and Faber, p.148)
Um louvor à aceitação. Ao pegar o que vem, e, no caso de Auster, apanhar uma mosca para sair voando - ou seja, acompanhar Nathan em seu vôo na direção da finitude mais interessante - e mais completa - que já se viu. A fly for flying.

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