sábado, 30 de novembro de 2013

Costurinhas do Canadá

AGORA parece mais fácil entender a inércia agradável em que alguns - digo 'alguns' porque nunca cheguei a esse 'paraíso' do auto-esquecimento - vivem sua vida cotidiana, e o que significa mudá-la quando se tem uma vida já estruturada. Essa é a terceira vez que (como diria a mãe do Zé, ex-namorado da minha irmã) faço as galinhas juntarem as pernas (ou seja, me mudo) e penso que o nomadismo acabou se instilando no meu modo de ser, como algo natural. Mas, lá no fundo, não gosto de mudar. Vai entender.

Talvez seja um resíduo da época em que meus bisavós chegaram ao Brasil, com uma mão na frente e outra atrás. Talvez, nas minhas entranhas resida o gosto do novo - o desejo de deslocar-me; fazer outra vida por meio de uma nova forma de reconhecimento, negando o desejo parental de, simplesmente, postar-me quieta, comungando das mesmas ideias com as mesmas pessoas. Talvez, a percepção de que, ao ter sido forçada a deixar minha terra natal, é inviável supor que qualquer terra será, de fato, minha. E como poderia, sendo tão óbvio que - para repetir Chris McCandless - as coisas que vc possui acabam te possuindo?

É claro que outros tempos virão - em que eu não tenha que procurar moradia ou roupas - nos quais terei mais do que contatos comerciais e busca de preços para fazer. Mas, no todo, a principal impressão dessa semana é de que o modo-de-vida torontonita é como o brasileiro (se posso colocar nessa conta Bauru/Goiânia/São Paulo): centrado no carro (a extensão territorial da GTA, Zona Metropolitana de Toronto, é imensa, e as linhas de metrô são restritas), na família e nas compras - particularmente, nos eletrônicos. É claro que vemos, nos metrôs e ônibus, pessoas humildes com suas cargas (sempre tive conexão com elas: os pobres e suas sacolinhas misteriosas, já dizia à Eiko anos atrás!), roupas descombinadas, a aparência cansada. Ainda não conhecemos quais são as dores predominantes na cidade, mas as diferenças de origem dos transeuntes são - junto do frio, é claro - o principal contraste para com as demais cidades em que morei. 50% da população residente em Toronto não nasceu aqui - disse-me  um canadense que Toronto é tão similar a New York que muitos filmes ambientados em Manhattan, são, de fato, filmados aqui. Um globo terrestre em miniatura.

Suponho que seja essa a realidade das regiões metropolitanas de todos os países ricos - e é fácil de entender: não parece difícil encontrar um emprego qualquer, mesmo se você não fala inglês. Exceto pelo sujeito da agência de empregos (certamente, descendente de imigrantes que não vieram há muito tempo) que foi xenófobo com o Edu, e de uns 3 anúncios malandros no site de aluguéis, o clima geral é de receptividade, honestidade, cordialidade, e até solidariedade (tanto quanto parece ser possível em um país capitalista e bastante caro). Há também muitos negros na cidade, embora, até onde eu saiba, não tenha havido escravidão no Canadá. Subsumidas ao capital, as culturas parecem conviver sem maiores atritos, pelo menos, à primeira vista.

Meu happening de hoje é o da senhora vietnamita, emigrada há 33 anos, vendedora em um outlet no qual comprei algumas coisas. Ela viu que meu casaco estava com a manga descosturada e me disse que já tinha trabalhado numa fábrica no Canadá (saiu porque pagavam muito pouco: depois, foi também camareira), então, me ensinaria a dar uns pontos na manga. A loja estava quase vazia.

O processo era meio complexo. Então, eu disse: "Vc costuraria para mim?". Ela e a gerente deram uma risadinha e foram procurar uma linha da mesma cor (não tinha, foi com preto mesmo). Eu disse que lhe daria uma gorjeta, mas ela pareceu ofendida e logo percebi o furo. Comecei a perguntar sobre a vida dela (ela não sabia dizer quanta gente morreu na Guerra do Vietnã, e, sim, ela gostaria de deixar Toronto no inverno, mas afirmou que a vida lá no Vietnã continua braba; ela já conseguiu comprou uma fazenda por lá e volta de vez em quando; e não, as pessoas lá não mais trabalham na fazendas, e sim em fábricas). Agradeci e deixei meu cartão com a gerentes, pois minha nova amiga vietnamita, em passo ligeiro, já tinha ido atender a outra pessoa. Cuidar das roupas de frio é algo que te toma um extra em tempo e atenção - vc tem de vestir e tirar roupas o tempo todo, para não congelar na rua e não fritar dentro dos ambientes, que são todos aquecidos. Bem, "Dressing and undressing is kind of distressing", refrão da nossa recém-batizada 'dança do esquimó'.

Também o frio é uma experiência nova e meio-que subjetiva - impossível, car@s amig@s, descrever o que é sentir algo como -11  graus e um bocado de vento. O Edu sempre se queixa de frio nas orelhas, e eu, nas mãos - se fico sem luvas, parece que meus dedos vão cair. Como cheguei com luvas de verão, tive que sair correndo pra comprar umas novas, super grossas, e mesmo assim sinto frio. Fiquei com uma zona arroxeada no dedo indicador que se parece com uma pequena queimadura. No dia em que chegamos, meus dedos assumiram uma cor púrpura meio cadavérica, me assustei um pouco, mas agora estão ok.

Destaque para os passes do TTC (o transporte público de Toronto), diabolicamente pequenos. Perdemos um punhado nos bolsos até eu me resolver a comprar o Daily Pass (um cartão-passe diário). Começamos a tentar imaginar um sistema alternativo em que um Tolstói valeria por uns 100 Tolk[i]ens, e 50 Rushdies. Quem sabe, em futuro efetivamente multicultural?



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