segunda-feira, 28 de março de 2011

Homo sentimentalis

Observação: o Sr. Marcos Machado (se é este mesmo o seu nome) avisou-me cordialmente que o termo seria "Homo sentimentalis", e não "Homus", e que este termo se aplicaria melhor à pasta de berinjela que degusteio todas as quintas-feiras. 
Obs para constar: odeio eruditos, eles curtem com a impotência alheia.


“É preciso definir o homem sentimental não como uma pessoa que experimenta sentimentos (porque todos somos capazes de experimentá-los), mas como uma pessoa que os valorizou. Desde que o sentimento seja considerado como um valor, todo mundo quer experimentá-lo; e como todos nós temos orgulho de nosso valores, é grande a tentação de exibir nossos sentimentos.
            Essa transformação do sentimento em valor produziu-se na Europa em torno do século XII: quando cantavam sua imensa paixão por uma nobre dama, por uma bem-amada inacessível, os trovadores pareciam tão admiráveis e tão belos que todos, a exemplo deles queriam se vangloriar de ser a presa de algum indomável movimento.
Ninguém penetrou o homo sentimentalis com mais perspicácia do que Cervantes. Dom Quixote decide amar uma certa dama, Dulcinéia, apesar de mal conhecê-la (não existe aí nada que possa nos surpreender: quando se trata do wahre Liebe, do verdadeiro amor, já sabemos que pouco importa a amada). No capítulo vinte e cinco da primeira parte, ele retira-se para as montanhas desertas em companhia de Sancho, lá onde quer mostrar-lhe a grandeza de sua paixão. Mas como provar que em sua alma arde uma chama? [...] Então, no caminho íngreme, Dom Quixote se despe, fica apenas de camisa, e para mostrar a seu escudeiro a extensão de seu sentimento, começa a dar saltos e cambalhotas em frente dele. Cada vez que fica de cabeça para baixo, a camisa escorrega de seus ombros e Sancho enxerga seu sexo que balança. O casto e pequeno membro do cavaleiro oferece um espetáculo tão risivelmente triste, tão pungente, que até Sancho, com sua alma rústica, não agüenta, monta em Rocinante e vai embora em disparada.” (Milan Kundera, "A imortalidade", RJ: Nova Fronteira, 1990, p.191).
Do site: 



sábado, 19 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Até que o tempo estie

Tenho que fazer algo da minha vida, e precisa ser agora, AGORA, antes que a chuva caia. Ou que o tempo esquente. Vejam, meus senhores, o que importa é me dar um prazo preciso, curto, tão curto quanto alguns minutos ou poucas horas, pois desperdiçar a vida é mais meritório que andar num compasso tímido. A desgraça é saber o que vou fazer para aproveitá-la devidamente. Preciso abortar os argumentos perdidos, chutar as mágoas para trás, inocular a verdade na justiça, ou em qualquer lugar; expulsar essas frases inúteis de criatura versada nos volteios das palavras... que frases? Essas que estou dizendo agora, ou as que disse quando pensava dizer alguma coisa? Mas, o que importa, isso é tão rude! Tão, tão mesquinho e humano! Exigir do tempo uma ação, quando já não existam mãos que nos cheguem, e nem todos os nossos pensamentos sejam honestos, são todas, todas, iniciativas de uma séria presunção. E a minha vontade vira a carpideira de um túmulo que jamais existiu, o túmulo da MINHA VERDADEIRA VIDA. É a vontade mais preguiçosa e sacana que jamais existiu.
É certo que posso ficar aqui, deitado, simplesmente, sem fazer nada até a chuva cair, só para provar que a vida passa e eu não faço nada. Mas disso, disso, percebam meus senhores, eu JÁ SEI. E TODA A GENTE O SABE, PORQUE TODA A GENTE, COM A PERNICIOSA EXCEÇÃO DE UM GALILEU OU OUTRO, NÃO FAZ MAIS. O pior é que resta a esperança de o tempo passar de modo diferente, e difícil não é provar que existe a inércia - até o Ptolomeu já devia saber disso: a inércia é o prato cheio dos poderosos; é a força que mantém a humanidade estúpida, imaginando que o Sol gira em torno da Terra, uma vez que a Terra, essa lesada majestade, está sempre parada - seria muito mais difícil convencê-la do contrário. Mesmo hoje, os homens vêem o Sol em movimento, e acham esse tal de Galileu um energúmeno. Eu o acharia um energúmeno, se não soubesse dessa coisa da inércia e do movimento por tanto ficar aqui, sentado nesse sofá comendo amendoim, enquanto tenho manias de grandeza. Bah, o negócio talvez seja ir dormir e não ver se a chuva caiu ou não, enquanto eu fico aqui, pensando no que faço até que o tempo esquente pro meu lado e venha a chance de uma estiagem com piscina, para eu desperdiçar minha vida como se deve.

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