Observação: o Sr. Marcos Machado (se é este mesmo o seu nome) avisou-me cordialmente que o termo seria "Homo sentimentalis", e não "Homus", e que este termo se aplicaria melhor à pasta de berinjela que degusteio todas as quintas-feiras.
Obs para constar: odeio eruditos, eles curtem com a impotência alheia.
“É preciso definir o homem sentimental não como uma pessoa que experimenta sentimentos (porque todos somos capazes de experimentá-los), mas como uma pessoa que os valorizou. Desde que o sentimento seja considerado como um valor, todo mundo quer experimentá-lo; e como todos nós temos orgulho de nosso valores, é grande a tentação de exibir nossos sentimentos.
Obs para constar: odeio eruditos, eles curtem com a impotência alheia.
“É preciso definir o homem sentimental não como uma pessoa que experimenta sentimentos (porque todos somos capazes de experimentá-los), mas como uma pessoa que os valorizou. Desde que o sentimento seja considerado como um valor, todo mundo quer experimentá-lo; e como todos nós temos orgulho de nosso valores, é grande a tentação de exibir nossos sentimentos.
Essa transformação do sentimento em valor produziu-se na Europa em torno do século XII: quando cantavam sua imensa paixão por uma nobre dama, por uma bem-amada inacessível, os trovadores pareciam tão admiráveis e tão belos que todos, a exemplo deles queriam se vangloriar de ser a presa de algum indomável movimento.
Ninguém penetrou o homo sentimentalis com mais perspicácia do que Cervantes. Dom Quixote decide amar uma certa dama, Dulcinéia, apesar de mal conhecê-la (não existe aí nada que possa nos surpreender: quando se trata do wahre Liebe, do verdadeiro amor, já sabemos que pouco importa a amada). No capítulo vinte e cinco da primeira parte, ele retira-se para as montanhas desertas em companhia de Sancho, lá onde quer mostrar-lhe a grandeza de sua paixão. Mas como provar que em sua alma arde uma chama? [...] Então, no caminho íngreme, Dom Quixote se despe, fica apenas de camisa, e para mostrar a seu escudeiro a extensão de seu sentimento, começa a dar saltos e cambalhotas em frente dele. Cada vez que fica de cabeça para baixo, a camisa escorrega de seus ombros e Sancho enxerga seu sexo que balança. O casto e pequeno membro do cavaleiro oferece um espetáculo tão risivelmente triste, tão pungente, que até Sancho, com sua alma rústica, não agüenta, monta em Rocinante e vai embora em disparada.” (Milan Kundera, "A imortalidade", RJ: Nova Fronteira, 1990, p.191).
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