domingo, 29 de abril de 2012

CARREGO COMIGO - Carlos Drummond de Andrade (in "A Rosa do Povo")



Carrego comigo

há dezenas de anos

há centenas de anos

o pequeno embrulho.



Serão duas cartas?

será uma flor?

será um retrato?

um lenço talvez?



Já não me recordo

onde o encontrei.

Se foi um presente

ou se foi furtado.



Se os anjos desceram

trazendo-o nas mãos,

se boiava no rio,

se pairava no ar.



Não ouso entreabri-lo.

Que coisa contém,

ou se algo contém,

nunca saberei.



Como poderia

tentar esse gesto?

O embrulho é tão frio

e também tão quente.



Ele arde nas mãos,

é doce ao meu tato,

Pronto me fascina

e me deixa triste.



Guardar em segredo

em si e consigo,

não querer sabê-lo

ou querer demais.



Guardar um segredo

de seus próprios olhos,

por baixo do sono,

atrás da lembrança.



A boca experiente

saúda os amigos.

Mão aperta mão,

peito se dilata.



Vem do mar o apelo,

vêm das coisas gritos.

O mundo chama!

Carlos! Não respondes?



Quero responder.

A rua infinita

vai além do mar.

Quero caminhar.



Mas o embrulho pesa.

Vem a tentação

de jogá-lo ao fundo

da primeira vala.



Ou talvez queimá-lo:

cinzas se dispersam

e não fica sombra

sequer, nem remorso.



Ai, fardo sutil

que antes me carregas

do que és carregado,

para onde me levas?



Por que não dizes

a palavra dura

oculta em teu seio,

carga intolerável?



Seguir-te submisso

por tanto caminho

sem saber de ti

senão que sigo.



Se agora te abrisses

e te revelasses

mesmo em formas de erro,

que alívio seria!



Mas ficas fechado.

Carrego-te à noite

se vou para o baile,

De manhã te levo



Para a escura fábrica

De negro subúrbio.

És, de fato, amigo

Secreto e evidente.



perder-te seria

perder-me a mim próprio.

Sou um homem livre

mas levo uma coisa.



Não sei o que seja.

Eu não a escolhi.

Jamais a fitei.

Mas levo uma coisa.



Não estou vazio

não estou sozinho,

pois anda comigo algo indescritível.


domingo, 22 de abril de 2012

Noutro século

(Pequena homenagem a certo senador eleito pelo povo)
---
Espantosos Cachoeiras
vertem carreiras 
em planas ladeiras.
Ovino, vê se te emenda!
Os tempos mudaram,
e foi para tua sorte.

Arrogante, ignoras:
nas cartas marcadas,
na emoção do vinte-e-um,
os olhares, que, baixos
com a fome no corpo,
servem, aos poucos,
a cólera em copos.

Séculos atrás,
em cidade das Luzes,
pós vil acrobacia
em trágica ironia
tua calva rolaria
- sem defesa ou porfia -
esmagado feito ovo,
para omelete do povo,
na guilhotina jacobina.


O "Fora Marconi" e o Prêmio Jabuti

Estive ontem no ato "Fora, Marconi" e gostaria de assinalar algumas coisas. Primeiro, que são absurdas as versões do "Diário da Manhã" e de "O Popular": não se tratava de um ato contra a corrupção eleitoral, insosso, abstrato, e sem alvos identificados, como se noticiou. "O Popular" chegou a fazer referência a que os manifestantes protestavam contra o Mensalão (!!!!). Diante de tamanha criatividade, indico a imprensa goiana para o Prêmio Jabuti na categoria ficção, em acirrada concorrência com minha revista favorita nesta modalidade, a "Veja". 
E, convenhamos: um ato que atrai às ruas cerca de 8 mil pessoas, em meio a tamanha crise institucional, só mereceria 200 palavras no jornal?! A imprensa goiana precisa rever suas prioridades. Os brados populares foram, sim, pela derrubada do governador. 
Uma coalizão de movimentos sociais e cidadãos comuns, como eu, compos o ato, que recebeu apoio surpreendente dos motoristas encalhados no tráfego (muitos deles buzinaram com nossa passagem, não parecendo se importar em chegar mais tarde a seus destinos). A atmosfera foi bastante festiva e repleta de jovens, provando que o Facebook é, sim, instrumento de efetiva articulação política das massas em nossa cidade.
Só me preocupou que alguns dirigentes sindicais, falando ao microfone, tivessem destacado repetidamente que "todos ali eram trabalhadores, não vagabundos, ou bandidos, como a imprensa noticiou". Deveriam ter é questionado o preconceito que pesa sobre a população prisional - aceitar sua culpabilização é deixar margem para retóricas de extrema-direita, sem abrir um debate (ainda que breve) sobre a composição de classes e a criminalização da pobreza em nosso país.
*No próximo sábado, ato no Setor Campinas, pessoal!

Acompanhem o movimento: "Fora, Marconi", na página no Facebook: http://www.facebook.com/MovimentoforaMarconi
Essa é só para minha gratificação narcísica. Obs: senti falta de um nariz de palhaço.

sábado, 7 de abril de 2012

Novo texto no Grupo de Estudos de Vigotski!

Na próxima reunião, dia 11/04, às 9h30, na sala 244 da Faculdade de Educação, terminaremos a discussão do capítulo "A psicologia e o professor", da "Psicologia Pedagógica", de Vigotski.
Nossa nova empreitada será a discussão de um dos maiores trabalhos do bielorrusso, o "Historia del Desarrollo de las Funciones Psíquicas Superiores" (1931), texto que encontra-se presente na pasta do grupo de estudos, xerox do curso de Psicologia. Venha acompanhar-nos nesse novo ciclo de estudo e pesquisa!
Maiores informações em http://vigotskiufg.blogspot.com.br/

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