***Este texto contém spoilers ***
Tenho um fraco pelas malditas séries. Pior que sardinha, quando adolescente entrava em qualquer enlatado, desde as "Sessões de Sábado" na Globo, até o "Chaves". Mas quanto ao Chaves, tudo bem, eu acho.
Viúva de X-Files e Seinfeld, virei addicta em "Breaking Bad" (criada justamente por Vince Gilligan, um dos roteiristas eXcers), a série da AMC que gira em torno de Walter White. Walt é um professor de química com câncer, que começa a fabricar metanfetamina para deixar alguma herança à família. Walt não tem nada a perder, e no entanto, vê destruir-se a vida que ele julgava ser o tesouro pelo qual vivervale a pena. No pequeno laboratório do deserto em que Walt abre a série, correndo de cuecas pela primeira vez, ele é apenas um cook sem eira nem beira, acompanhado pelo fiel escudeiro, o tolo e junkie pobretão Jesse Pinkman, o vendedor que trabalha nas esquinas erradas. Essa oposição entre o 'gênio' e o 'tolo' é base da primeira temporada, mas vai se modificando de modo muito interessante nas seguintes. Humor, drama e ação se mesclam enquanto Walt "Breaks bad", ou seja, vira um sujeito do crime. E Jesse, solitário e infeliz, palmilha todos e mais alguns dos infernos éticos de um grupo social para o qual dor e drogas (legais, ilegais) se balanceiam como água e álcool.
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Do link: http://www.esquire.com/features/esquire-100/cranston1007 |
É difícil não nos identificarmos com Walt, que do estreito e repetitivo mundo intraescolar consegue se sair muito bem tanto entre traficantes violentos e brainless - como Tuco Salamanca - e o manager Gus Fring, sujeito tranquilo, bem-educado, rico e cheio dos 'discurso corporativo', mano. É fato: quase todos nós poderíamos percorrer o Walt Way of Life, caminho que vai de um desejo legítimo por saúde para si e segurança para a família a uma disputa de poder orgulhosa na qual o fundamental é ser mais esperto que o oponente; um verdadeiro "Velho Oeste" no qual a violência continua sendo protagonista (a escolha de Albuquerque, Novo México, como a cidade-sede da série é bem significativa). Nesse caminho, já disse Vince Gilligan, a ideia é mostrar o estranhamento entre a ação e suas consequências - o modo como cada 'legítimo' ato de sobrevivência de Walt acaba desencadeando horrores nunca antes imaginados.
À parte Jesse, figuras assustadoras de dependentes químicos com o rosto escarificado transitam pela série, mas Walt não lhes dedica nenhum frase, nenhum pensamento: "worthless junkies", é o que todos dizem, inteiramente à mercê do "produto" White e outros. Não são as substâncias de alto poder aditivo a garantia de uma freguesia cativa? White fabrica a morte, mas ela lhe garante a vida. Walt pratica regularmente o autoengano, no qual aparece sempre como vítima das circunstâncias; Jesse, elétron que circula no orbital White, e ele próprio, gênio cujo trabalho gira um capital gigantesco. Na interpretação magistral de Bryan Cranston, Walt começa a série inseguro. Olhos baixos, voz trêmula, recorrentes cenas correndo de cuecas sem rumo certo (Walt de cuecas - cuecas mesmo, brancas e sem graça, nem sungas nem boxers - é símbolo que remete à sua desorientação e fragilidade), e vai aplicando sua esperta careca química a bolar uma enorme diversidade de astuciosas armadilhas para seus inimigos. No grande trabalho vocal do ator, Walt começa a falar forte e grosso - olhar reto, postura desafiadora. Com direito a cenas engraçadíssimas como essa foto ao lado do trailer, no 1º Episódio. Como diz Hank no mesmo episódio, Walt segura uma arma como Keith Richards segura um copo de leite.
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Algo que me incomoda desde o início da série é a representação dos hispânicos - em particular, os do cartel com que Walt guerreia. Hoje, vimos um episódio da 4a temporada na qual Gus leva Jesse para fabricar speed para o cartel. Esse junkie americano que encarna a estupidez no seriado tromba os químicos titulados do cartel e os vence. Também Walt leva a melhor sobre todos os latinos que encontra. Gus representa o bem-sucedido 'empresário' - estrangeiro, mas totalmente integrado ao mundo do Tio Sam - conseguindo sobrepujar o cartel mesmo com golpes toscos. Entre personagens absurdos brandindo machados e químicos tontos que escutam as ofensas de Jesse sem reação, os latinos são de uma estupidez absurda, estereotipada, de uma maldade e de uma violência sempre grotescas. Espanta que, nos nossos tempos, ainda se consinta com essa Doutrina Monroe via enlatados, que, como eu já disse, desde cedo me acostumaram ao seu ritmo. A moral da história é que os latinos sempre levam.Sobre isso, agora um pouco triste, só consigo me lembrar da frase de Emiliano Zapata (que falou em espanhol, mas aqui vai): "Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". Infelizmente, aqui estão as séries que nos aproximam do Tio Sam. E eu talvez precise deixar de ser uma sardinha (mas acho que só depois do fim de Breaking Bad, falow?).