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quinta-feira, 5 de setembro de 2013


“Prezado Theo,
Tirei algumas radiografias de clientes esta semana – em minha opinião, excelentes. Mostrei-as a Degas, que não gostou. Disse que a composição estava péssima, e que todas as cáries estavam amontoadas no canto inferior esquerdo. Expliquei-lhe que a boca da Sra. Slotkin era assim mesmo, mas não quis nem saber. Criticou também a moldura, muito pesada para aquele estilo. Quando ele saiu, rasguei as radiografias em pedacinhos! Como se não bastasse, tentei trabalhar no canal da Sra. Wilma Zardis, mas, a meio caminho desinteressei-me. Descobri que o tratamento de canal não é o que eu quero fazer. Aquilo me deixou afogueado e zonzo. Saí correndo do consultório para tomar um pouco de ar, mas devo ter desmaiado porque acordei na praia vários dias depois. Quando voltei ao consultório, a Sra. Zardis ainda estava na cadeira, de boca aberta. Completei o tratamento a contragosto, mas não tive vontade de assiná-lo” (Se  os impressionistas tivessem sido dentistas, p.246)
ALLEN, W. Sem plumas. Porto Alegre: L&PM, 1980.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Veneno Antiausteridade

* Minha declaração de amor a Paul Auster e suas "Loucuras do Brooklyn" *

Obs: amor = alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.

Paul Auster, foto n(d)o Globe Times.
Mistério. Para tremer - e ao fundo, uma "Cidade de Vidro" - foto do WGBH News

"I WAS looking for a quiet place to die. Someone recommended Brooklyn, and so the next morning I traveled down there" (p.1) ["Eu procurava por um lugar quieto pra morrer. Alguém recomendou o Brooklyn, e então na manhã seguinte eu viajei lá pra baixo"]. Assim começam "The Brooklyn Follies" (tradução aqui), narrado e protagonizado por Nathan, um corretor de seguros aposentado que rumina a concreta, recente e dura luta contra um câncer de pulmão.
Divorciado, sem amigos próximos, já de início tretado com a única filha, mas com alguma grana para se manter; a viva imagem de um sessentão "fracassado". Para onde ir, quando o mundo parece ter aberto mão de ti - e tu do mundo?
Não ouvirás uma voz consoladora atrás de uma sarça. Não terás otimismo nenhum. A m. em que o anti-herói começa o livro não chega a ser eliminada "na Real", como diria Lacan (devidamente adaptado à língua dos meus alunos). Mas Nathan é a encarnação escrita de um Paul Auster supreendentemente bem-humorado.
Humor negro, é claro, mas qual outro humor é possível em nossos tempos? Esperando uma história deprês de lamúrias sobre a finitude, estouramos de rir já na segunda página. Rachel diz a seu pai que esboce novo projeto de vida -  conselho pra-lá de razoável  - e o que lemos?
"I explained that I was probably going to be dead before the year was out, and I didn´t give a flying fuck about projects." (p.2, grifo meu) ["Eu expliquei que provavelmente estaria morto antes do fim do ano, e eu não dava uma mísera trepada para projetos"]
O.k. Não dá para traduzir. "Flying fuck" (perde-se a aliteração de "F F"). Talvez "tímida trepada".
Quase sem descanso, vem a gargalhada da página seguinte: "To hear Rachel tell it, I wasn´t much in the parent department either" (p.3, grifo meu) ["Pelo que a Rachel dizia, eu não era muita coisa no departamento de pais também"]. Imaginei o antiaustero velhinho atrás da mesa em uma sala com divisórias, num desses sufocantes escritórios terroristas (ops: tayloristas), com uma furada apólice de seguro para filhos, encarando a própria filha desfeita em prantos e reclamando seu passado de volta.

O livro está repleto dessas saborosas expressõezinhas luminosas que devem causar enxaqueca nos tradutores. Dir-se-ia uma espécie de Woody Allen mais profundo (exceto pelo Allen mais próximo de Bergman, como em "Crimes e Pecados", "Interiores", "A outra", "A rosa púrpura do Cairo"), e também mais chulo, com termos que colam na sua memória e das suas sinapses fazem casas, como se sempre tivessem estado lá.

Vejam os "Rascals believe in life" [canalhas crêem na vida], "everyone was subject to black moods", "Dombowski kicked the bucket three years ago. He was ninety-one, and he died of a stroke" (p.55), "intellectuals suck, Nathan. They´re the most boring people in the world" (p.93), "he´d always had the hots for Edith" (114), "every idiot got his turf to defend" (188), "I find it a perfect book for an aging fart like me" (192), "I´m not even sure he gives a rat´s ass about religion" (p.263), "our smart, energetic, wise-cracking child had turned herself into a royal pain in the ass" (283).

Se a voz popular orienta-nos que há sempre um chinelo velho para um pé inchado, Nathan encontrou o seu logo no início da história. Ele tromba Tom, seu amado sobrinho, que não via há anos,  atendendo ao balcão em um sebo. O.k., um ótimo sebo. Mas foi decepcionante para o tio Nat, que tinha grande admiração por aquele ex-jovem estudioso de literatura, com a mente vivaz que o fascinara com a sua ideia de que desejava escrever: "A study of the inner refuge, a map of the place a man goes to when life in the real world is no longer possible" (p.15). Ou, traçando um paralelo entre Edgar Allan Poe e Henry Thoreau: "As a place to read, write, and think. It´s a vault of contemplation, a noiseless sanctuary where the soul can at last find a measure of peace." (p.16)["É um cofre de contemplação, um quieto santuário onde a alma pode, por fim, encontrar uma quota de paz"]. E desse mundo desdobra-se a utopia austeriana, não de uma comuna, mas de uma comunidade.
Tom é um "fracasso escolar" do doutorado. E, sob alguns aspectos, lembrei-me de mim mesma no doutorado, às sextas-feiras, quando rolava a tela do PC com aquele indescritível sentimento de autodesapontamento, após cada semana de trabalho duro. Tom é o fantasma de todos os que decidem - ou são levados a - escrever uma tese, e por cobrir essa zona silente da vida de tantos, já é um personagem inesquecível.
Para encerrar, citação que me encoraja a continuar tentando o mundo da escrita:
"There were no rules when it came to writing, he said. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jube of exceptions. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jumble of exceptions. That was because writing was a disease, Tom continued, what you might call an infection or influenza of the spirit, and therefore it could strike anyone at any time. The young and the old, the strong and the weak, the drunk and the sober, the sane and the insane. Scan the roster of the giants and semi-giants, and you would discover writers who embraced every sexual proclivity, every political bent, and every human attribute - from the loftiest idealism to the most insidious corruption." ["Não havia regras no que se referia à escrita, ele disse. Olhe de perto as vidas de poetas e novelistas, e você se choca com o puro caos, a infinita galeria de exceções. Isso porque escrever é uma doença, continuou Tom, o que você pode chamar uma infecção ou gripe do espírito, e portanto poderia atacar qualquer um a qualquer momento. O jovem e o velho, o forte e o fraco, o bêbado e o sóbrio, o são e o insano. Vasculhe a lista de gigantes e semi-gigantes, e você descobriria escritores que abraçaram toda orientação sexual, toda tendência política, todo atributo humano - do mais elevado idealismo à mais insidiosa corrupção"] (Paul Auster, 'The Brooklin Folllies", London: Faber and Faber, p.148)
Um louvor à aceitação. Ao pegar o que vem, e, no caso de Auster, apanhar uma mosca para sair voando - ou seja, acompanhar Nathan em seu vôo na direção da finitude mais interessante - e mais completa - que já se viu. A fly for flying.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Minha conversa com o Diabo






Acima, veja as várias formas que o Diabo pode assumir, contrastando com o bem absoluto na forma de um cãozinho


“O que é o mal?”, taí uma questão que sempre me intrigou. Resolvi chamá-lo em pessoa, para que me respondesse. Ele, o capeta, o coisa-ruim, o diabo.
A expressão, debochada e cínica. Não era feio, mas repelente e, tal como no Fausto, mancava um pouco. Um tanto quanto mal-educado, entrou em meu quarto na hora de dormir e se sentou em minha cadeira preferida (aliás, a única).
Gi: Boa noite. Creio que já nos conhecemos.
Diabo: Sim, de outros tormentos (examina minha estante). Você tem bom gosto literário, mas seus livros técnicos não combinam entre si.
Gi: Vamos cortar este papo. Explique-me o que é você.
Diabo: Bem, eu diria que esta sua invectiva não foi muito polida. Mas sim, vamos lá (abre meu minidicionário e lê) “Mal. sm. 1. O que é nocivo, prejudicial, mau. 2. O que se opõe ao bem, à virtude e à honra. 3. Enfermidade. 4. Desgraça. 5. Prejuízo.”
Satisfeita? Sei que você já pensava algo assim. Quanto a mim, não passo de um símbolo.
Gi (Em crise): Isto é um pouco superficial, não acha?
Diabo: Compre um melhor dicionário.
Gi: Quero saber o que é o mal para não pensar nele nem praticá-lo. Deve haver algum sinal secreto. Quando eu acreditava em você, bem como em Deus, as coisas eram mais simples. O mal era a desobediência, a agressão e a morte. O desdém, a libertinagem. Era não pagar contas, não ajudar o próximo, beber, ir para a cadeia e decepcionar os pais. Agora não sei.
Diabo: Esse aí é o mal cristão. Família, obediência, propriedade. Você mudou de vida. E veja, policiamentos não adiantam muito. A ocasião faz o ladrão. Be yourself, that´s the question. Mal, bem, tudo acaba em excrementos e vermes... Podridão do túmulo, se você visse, é até legal...
Gi: Isto é para sujeitos sem vontade própria. Gosto de manter em mãos as rédeas da minha vida. Mas já não sei o que é mal imaginário e mal-real.
Diabo: Hum, hum (espia, de longe, gavetas secretas). Você está pensando de modo maniqueísta. Precisaria viver melhor, ser livre dos seus controles internos, é isso. Fica aí, parada um domingo inteiro, pensando no que é o mal, que coisa tonta. Não vai querer ser má, se for feliz. Comprei um pacote de massagens que é miraculoso, menina, vc tem que tentar...
Gi: Ser livre e ser má são coisas diferentes. Talvez sejam mesmo opostas. Prazer e bem também não se igualam. Exemplo: se eu abrir “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, esperar uma mosquinha pousar nele, e matá-la, aí eu estaria fazendo o mal. Sou livre para fazer isto ou não, bem como para deixar de fazer outras coisas más ou boas. Mas, de fato, ser minimamente bom implica em admitir-se que não se é inteiramente livre de viver em sociedade, fazemos o bem não só pelo outro, mas também pela troca... nisso tudo existe um comércio afetivo complicado. É por isso que eu gosto de gente generosa, gente que dá, simplesmente, não pede nada nem quer nada.
Diabo: Livro bom para matar coisas.
Gi: É, mas um pouco solene e pomposo demais. 
Diabo: Olha aí, vc já está falando mal de alguma coisa.
Gi: A idéia de matar moscas foi sua!
Diabo: Que nada, leia sua última fala (Gi volta o texto e percebe que se enganou). Pura maldade.
Gi (suspira): nem tanto... e nem foi criativa.
Diabo: Essa coisa de ser mal é relativa, não existe em si, exceto nos casos mais óbvios. (Enfiando meus velhos óculos na cara) varia por: 1) intensidade/amplitude; 2) sabor; 3) objetos a que se dirige (mente/corpo; amigos, família, desconhecidos de classe/tamanho/forma diferente de você); 4) instrumentos com que é infligido. Quanto maior é o seu poder, mais profunda é a maldade que pratica. Sem contar que o mal só pode ser aplicado a gente, plantas ou animais, nunca a coisas.
Gi: Até às águas-vivas?
Diabo: Esses bichos já têm um sistema nervoso.
Gi: Acho que nós seguimos uma lógica de porcos-espinhos, sei lá. Schopenhauer disse isso. Eles se reúnem para se aquecer, mas caso se aproximem demais, se machucam. Acho que o mal é algo que se faz por medo ou ignorância do outro. Mas é diferente o mal intencional e o involuntário.
Diabo: Não, não. Isso dos porcos só mostra o contrário; as pessoas se arranham justamente porque se conhecem demais, porque são pequenas e precisam repartir espaço, tempo, coisas assim; porque às vezes sentem ódio e precisam aliviá-lo. Dar uns cutucões faz parte da vida. Você pode ser mal e saber demais. Sade era assim. E também a Marquesa de Merteuil. Agora, saber e não saber são coisinhas portáteis, cabem em qualquer parte, cães sem dono. Ser mau é estar falto de algo mais profundo...
Gi: Gostei de “Ligações Perigosas” e da marquesa. Você acaba admirando-a (gosto de gente inteligente). Mas de algum modo comecei a acreditar aí que o mal vem, mesmo, das sensações e dos prazeres, da inteligência feita para alcançar os recantos íntimos do outro, explorá-los e reduzi-los a pó, tão vil e simplificadamente quanto esses recantos eram sublimes e complexos. Emporcalhar e dizer que nada é sagrado é uma característica dos maus. Ontologia negativa, narcisismo sem controle.
Diabo: Oras... Inteligência não é sensação, é mais que isso.
Você gosta de Chianti? Podemos tomar algum, enquanto eu te mostro fotos de maldades. Aí você saberá o que ela é.
Gi: Você é um pervertido.
Diabo: Bem, até que há uma tendência pessoal... Mas o mal como fato ordinário não passa de um cálculo matemático. Você olha para as coisas que te satisfazem, e seu inconsciente escolhe a melhor para você; as outras, você descarta, sem saber o que fez direito, e às vezes, violando algumas coisas boas em si mesmo. Se tudo no mundo fosse decidido com muita ponderação vocês morreriam de fome até decidir se querem almeirão ou cenoura. Uma das coisas que espalham o mal absoluto é não se implicar direito, reduzir as pessoas às curtas medidas do estereótipo, marionetes para o seu querer. É uma excitação perturbada. Não é possível fazer o bem o tempo todo; a satisfação de se fazer o bem não é a única que pode existir na vida, é contra a natureza humana, você acabaria sendo “O Idiota”, ou aquele cara do “Sonho dum homem ridículo”... só sei que os justos sentem prazer em praticar a justiça, mesmo que ela seja, imediatamente, um mal.
Gi: Então, ser mal é trair-se a si próprio.
Diabo: Ser boa foi para você, até agora, fidelizar-se com uma verdade morta, ou seja, uma mentira prática, concebida para um tempo e lugar diferentes. A vida agora pede prazer e não reflexão.
Lembra-se? “There´s something deeply ghostlike. And we are so horribly afraid of the light...”.
Gi: Há momentos em que o velho morreu e o novo ainda não nasceu. Prazer, de novo, eis a sua questão. Pergunto-me, no entanto, se os prazeres são iguais; creio que não, mesmo neles há tons diferentes, talvez regiões cerebrais distintas. O prazer não é mau em si mesmo. Onde estiver sua desvantagem, é onde estará sua fraqueza e os males. Se estiver desempregado, pobre, for feio ou louco, estará frágil para o mal social...
Diabo: Você está embolando as questões. Deveríamos agora discutir se o mal é uma necessidade em si, presente pra todos e, caso seja, porque os mais maus parecem ser os homens, especialmente os inteligentes, jovens, bonitos. Vivem imersos nos preconceitos da cultura, às vezes fingem que os invertem... São-no na aparência; mas eu sei que o Mal não escolhe sexo, idade, condição social. Mas, de todo modo, está na minha hora. Vou a um jantar de caridade (Aproxima-se da janela e olha lá embaixo) Acha que consigo cair suavemente na grama?
Gi: Como foi mesmo que vc entrou aqui?
Diabo: Ho, ho, ho. Tenho truques que vc nem imagina. É que eu estive pensando... beh, será que a Raquel tá afim de me acompanhar?
Gi: Mas... vc não ia pular a janela? Como vai encontrá-la?
Diabo: Aí ela ficaria mais impressionada.
Gi (Pensando numa maldade): Manda.
(Ainda com os velhos óculos, o Diabo esborracha-se no chão. Gi não o socorre, mas procura um psicanalista. A Raquel assiste a Eu, a Patroa e as Crianças comendo goiabada. E eu continuo a pensar em porquê diabos eu não fiz esse maravilhoso óculos com lentes anti-reflexos antes)

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  • Publicado na minha antiga Cidade dos Sonhos em 25/11/2006. 
  • Marquito, foi mal postar sua foto no meio das manifestações demoníacas, mas tava assim no original. 
  • Obs: não percam as produções do Marquito em: http://1contoporsemana.wordpress.com/.



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