sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Velhinhas e motoristas

Estava metida em minha vida.
Foi quando dei aquela olhadinha nas notícias do Yahoo:


Bem, então: motoristas temem mais as multas do que abalroar as velhinhas. Estas, lentas e trôpegas, já não correm como os jovens de um homicídio aleatório. O resultado é mera poça de sangue, e lava-se; mas não os rombos na carteira.

Os outros 36% arriscam a carteira.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O juiz, o ladrão e o vira-latas

"Lear: Como, estás louco? Mesmo sem olhos um homem pode ver como anda o mundo. Olha com as orelhas. Vê  como aquele juiz ofende aquele humilde ladrão. Escuta com o ouvido, troca os dois de lugar, como pedras nas mãos; qual o juiz, qual o ladrão? Já viste um cão da roça ladrar prum miserável?
Gloucester: Já, meu senhor.
Lear: E o pobre-diabo correr do vira-latas? Pois tens aí a imponente imagem da autoridade; até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo. Oficial velhaco, suspende tua mão ensangüentada! Por que chicoteias essas prostitutas? Desnuda tuas próprias costas. Pois ardes de desejo de cometer com ela o ato pelo qual a chicoteias. O usurário enforca o devedor. Os buracos de uma roupa esfarrapada não conseguem esconder o menor vício; mas as togas e os mantos de púrpura escondem tudo. Cobre o crime com placas de ouro e, por mais forte que seja a lança da justiça, se quebra inofensiva. Um crime coberto de trapos a palha de um pigmeu o atravessa. Não há ninguém culpado, ninguém – digo, ninguém! Eu me responsabilizo. Podes acreditar em mim, amigo, tenho o poder para lacrar os lábios do acusador. Arranja olhos de vidro e, como um político rasteiro, finge ver aquilo que não vês."  SHAKESPEARE, William. O Rei Lear. L&PM Editora. p. 172

Sei que as palavras do Bardo compõem Beleza a partir da Verdade. Conheço poucos juízes, e muitos vira-latas, e a tentação de virar eu própria as latas da vida emerge, neste mundo em que ter um cargo qualquer é confundir-se com possuir a Verdade, essa musa caprichosa que é mais difícil de expor que de  elaborar. Se a temos, sem coragem, corremos o risco de levá-la conosco para o túmulo. Se a calamos, não seremos mais que vira-latas, sofrendo o mal do Juiz - esse simbólico vira-latas travestido de toga como outros travestem-se de beca, graus, títulos e etc. Raras são as ocasiões em que, talvez cansado por submeter-se, talvez revoltado por ter sido sempre fiel guarda-costas de um amo despótico; raras vezes, nesses ciclos kafkianos da vida moderna, a Verdade aparece, mas não para martelar a cabeça do juiz (esta, protegida por sua própria obtusidade, seu caráter vão, seus procedimentos cuidadosamente escolhidos), e sim a do ladrão - o bode expiatório que não é nem juiz, nem vira-latas. E aí, exposta e oculta detrás do manto dos Príncipes, a Verdade já terá sido completamente corroída de seu valor: ela é só opressão e nada mais. 
    O juiz é o burocrata da vida, como o médico é o burocrata da morte, parece ter dito Tolstói em seu magnífico "A morte de Ivan Ilitch". Ambos, administradores de processos incontroláveis de estupidificação dos subordinados. A fala nervosa de Lear é a do rei destronado, sem-teto, que abandonou, por amor e vaidade, suas pilhas de ouro em prol dos falsos afagos das filhas. Estas, abarrotadas de dinheiro e opressão, voltaram-lhe as costas assim como a um vira-latas sem cargo, ou ex-juiz despido de suas fragorosas vestes, nu e pobre sem finos mantos que escondessem sua fragilidade e sua demência. Shakespeare protesta: os homens de togas e mantos de púrpura esquivam-se do julgamento, escondendo tudo, escondendo mesmo sua pena pelo ladrão, sua simpatia pelo vira-latas, esse felizardo que não tem de se importar com as pompas do Juizado e pode correr por aí, ao relento que seja, sem olhar o dia, a hora, ou o ponto a bater. Pena que Lear tenha se dilacerado pela traição de suas filhas! Pena que o remorso por sua própria injustiça com Cordélia impediu-o de usufruir da irresponsabilidade própria da loucura, lançando-o nas garras das estrelas. Essas não tem tempo, demência nem angústia. Dispostas num espaço no qual não há remorso nem culpa, contemplam, com seus complacentes olhos brilhantes, a infinita pequenez humana. Eu ainda me destrono. 

"King Lear and a Fool in the Storm". Artista: Sir John Gilbert



segunda-feira, 30 de maio de 2011

O círculo perfeito

Anos atrás, fui atraída para um comentário de Deleuze, citando fala de Scott Fitzgerald sobre o casamento dele com Zelda: "Eu amei a loucura em seus olhos. Ela amou a bebida em meus lábios".

Essa frase me desorganizou o sistema. O amor não são só as cantigas de ninar das mães, as valsas repletas de pudores angelicais, o eufemismo para as passagens de sedução que tanto amamos em Kundera?

Mas eram assim os votos matrimoniais dos jovens Fitzgerald. Os defeitos-virtudes sociais do escritor e de sua mulher formavam um círculo perfeito; diferente, talvez, do amor convencional que contém certa dose de recolhimento, o deles era um amor público a virtudes, na sua maioria, vazias (inteligência, talento, beleza, impetuosidade). O "justo meio", procuraria Aristóteles! Esse preceito pode ser difícil de atingir onde a vida pública gira em torno de seu próprio eixo, como uma enceradeira rangente e monótona, pronta a ser descartada quando um taco velho começa a se descolar. E descolou.

Scott e Zelda amaram bebida e loucura também quando espelhadas nos olhos dos seus admiradores. Scott, mais autocrítico, sofreu da vergonha de adivinhar a futilidade - mas, incapaz de conter a fúria exibicionista de Zelda, fiel escudeiro dessa poetisa prática, usufruiu de suas virtudes-defeitos como prisões sociais de estadia temporária, estações na direção do esquecimento.

Juntos, transcendiam qualquer espírito pragmático (como quem não precisasse da vida prática, vida comezinha e pobretona à qual Zelda jamais se ajustou), o horror ou a vergonha, a beleza de ambos potencializando os seus atos bizarros, eles vingaram-se do convencionalismo criando excessos impossíveis de superar, mas também, vazios de sentido, de devir ou de beleza própria. E acabaram, bem, como sinônimos de um tempo de vazio e abundância, não sei se devia ser assim.

Zelda queria era superar a própria beleza com um valor novo: ela mesma. Mas ela não duraria, e dessa aposta malograda em sua própria grandeza, vai tentando encontrar novos sentidos para a Vida, até estancar os horrores suicidas com - pasmem! - o mais convencional de todos, a religião. Scott era o humilde tradutor do projeto insano da mulher, de sua aventura impossível. 

Não era um pacto de amor sadomasoquista. Talvez fosse uma simbiose, uma fusão completa, uma paixão absolutamente infantil por poderes mais ou menos inofensivos aos outros, Scott e Zelda,  princesa encerrada na torre da loucura; marido em luta inútil para mantê-la a salvo de si mesma. E Scott lamentou-se por deixá-la seguir em seu curso sem volta, participando dos bizarros happenings de Zelda, mulher-bruxa, força natural em seu paganismo meio cômico e meio trágico.  Junto dela até o fim, Fitzgerald foi, sem dúvida, um romântico. Recebeu de presente sucesso e fracasso com o mesmo olhar de pavor e culpa; no seu rosto meio irlandês, sempre o sorriso angelical e infantil. Hemingway, o"amigo"(mais propenso ao julgamento que à compreensão) que tão pouco o ajudou, viu o mundo de Scott dissolver-se em garrafas de uísque, melancolia e dívidas. Faz-nos pensar se apontar a nudez do rei - hábito de todo psicólogo - de fato ajuda-o a se cobrir, ou a tomar partido dessa nudez sem culpa.

E, diz Jeffrey Meyers (in "Scott Fitzgerald: uma biografia"), a rica jovem só queria ser ela própria. Admirando sua intrigante imagem, entendemos o porquê. Perder esse rosto segundo a segundo é necessariamente trágico, pateticamente banal: desperdício e crueldade do tempo combinados com um progressivo encolhimento do espaço social. Talvez eles coubessem mais como antigos ícones da melancolia contemporânea. Um epitáfio cabe-lhes: they had fun!

 
  

domingo, 15 de maio de 2011

A tevê e o meu coraçãozinho (crônica baurulina)

Em Bauru, acabo assistindo televisão enquanto faço companhia aos meus velhos. Costuma doer, mas, até essa Páscoa,  as pontadas nunca haviam se aproximado tanto daquela famosa dor no braço direito, seguida de um túnel de luz com o vulto da sua avó sorrindo para você.
Era dia de Fantástico. Matéria de abertura: mortes nas rodovias, cuja principal causa (somos informados antes de podermos pensar) é a impunidade. Nada a ver com buracos, congestionamentos e afins.
Cenas de certo caminhão batido numa quilométrica fila de carros. Pessoas sangrando (de verdade! Não era molho de tomate!), enquanto um caminhoneiro fugia das câmeras. Não por muito tempo: sua CNH foi habilmente obtida pela reportagem da Globo (corta para um close frontal na foto desse inimigo público). 
Gigi, olha o túnel! Você já não tem 25 anos. Mudei de canal.
Na Record, um programa sobre cachorros. Promessa de alienação inofensiva! Mas eis que começa narrativa sobre a relação entre um homem sem-teto, que há 20 anos teve a mão decepada num acidente de trabalho, e seu fiel cãozinho, juntos durante a coleta de recicláveis. Imaginei a vida desses dois e umas pontadas (imaginárias) voltaram ao meu peito. Voltei para o Fantástico, na esperança de que a reportagem sobre os acidentes tivesse acabado.
E acabara. Exibiam-se cenas de uma câmera de segurança: um bebê recém-nascido era posto numa caçamba de entulho. Em seguida, aparecia um catador de latinhas que, ao se deparar com a criança enjeitada, quase morreu de susto (parecia-se comigo, assistindo à reportagem dos acidentes).
Corta: entrevistas protocolares com o professor e o policial coadjuvantes. Foto da fachada do hospital católico (e chique) no qual a criança se recuperava bem. O policial é a voz da razão: "foi deus!", pois o médico bem-apessoado garantiu que mais uns minutinhos seriam fatais para a menina, já apelidada de "Vitória". 
Se deus apresentou-se, o diabo não fez por menos. A mãe foi devidamente aferrolhada e exibida para as câmeras, com um corpo surpreendentemente magro para o puerpério (Adriane Galisteu e outras ex-grávidas morreriam de inveja). Trazia na cara uma expressão da mais total frieza. Sua desculpa?! Já tinha 6 filhos e trabalhava como cozinheira! Agora, imagino, já não tem filhos, liberdade ou emprego. Após uns 10 anos de cana, poderá rivalizar com o pobre senhor da mão decepada no processo de catação de latinhas, pois o salvador do bebê  está nas graças da opinião pública. Talvez ele vá obter trabalho, mas como a memória televisiva é curta - além do que há alta concorrência de bebês enjeitados em locais pitorescos - também pode ser que continue procurando latinhas e encontrando latinhas.
Perdoem-me a cáustica amargura, mas me surpreende perceber como histórias assim deixem entrever tragédias tão claras, repletas de desigualdade social, omissão do poder público, má fé da imprensa, e o telespectador talvez nada observe. O sentimentalismo é complemento necessário da inanição intelectual. Vilão, mocinho, mocinho mais mocinho, mocinho menos bandido, e acreditamos que o Bolsa Família realmente tornou o Brasil um país justo. Vivemos é numa nação cruel com os pobres, estupidificada e kitsch. E ainda dizem que nossos afetos são naturalmente bons! Que erro! Eles podem ser é cúmplices da nossa subserviência compassiva e virtuosa.
Ainda bem que só volto a assistir televisão em julho. Nesse ritmo, meu coraçãozinho não aguentaria.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Inscrição para uma lareira

A vida é um incêndio: nela 
dançamos, salamandras mágicas 
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida…


Mário Quintana


      Ainda fascinada pelo "The U.S. against John Lennon". Recomendo. E, como toda imaginação (escravizada pelos afetos), associo o poeminha do Quintana à vida intensa do ex-Beatle - que eu sempre creditei como ex-Beatle, e não como um ser singular, dotado de idéias e vontade que pudessem subsistir à sua (meramente relativa) decadência musical. Confesso também que sempre fui adepta do ódio cego a Yoko Ono, a pistoleira, a sem-vergonha-sem-talento-e-caça-níqueis que causou o fim da maior banda de todos os tempos. 
    Mas sou velha o suficiente para reconhecer (alguns de) meus erros. O filme - cuja perspectiva é a da Yoko - e o EduKótchki - meu músico favorito - acabaram me convencendo de que John já estava noutras quando a garota e suas performances malucas (algumas interessantes, outras de gosto duvidoso, mas, enfim, nem toda experimentação dá certo, dá?) conquistaram-lhe o coraçãozinho. 
     John após Beatles cresceu politicamente: uma inspiração para nossos jovens, que jamais viram um  artista pop corajoso o suficiente para abraçar um pacifismo radical. O máximo que vêem é o Bono Vox pagando de filantropo, bem fiel à ordem estabelecida, narcisista a ponto de te dar vontade de cutucar os próprios dentes com uma faca, contar pontos em provas de títulos, ou pior, ler Kant sem anestesia. John não foi um militante de cartilhas: aí é que está a graça. Converteu seu triste destino de menino abandonado pelos pais numa permanente reinvenção de si mesmo, mostrando uma coerência e uma coragem admiráveis (além de usar mui sabiamente os montões de dinheiro que ganhou). Abdicou dessas bobagens fatalistas que há tantos anos oprimem as alternativas da esquerda política, abdicou das mulheres com pinta-de-estrela-de-cinema, abdicou da maior banda do mundo (ou antes, reconheceu seu fim) e, por fim, abdicou de recuar quando perseguido por Nixon e a CIA, e outros caras menos poderosos, mas igualmente infelizes nos seus destinos carimbados e sombrios de promoções e carreiras escusas. 
     Sua chama foi bela e alta, como diria Quintana, também por ter conhecido a alegria e o amor (sem ser brega ou tolo), elevando sua chama johnisíaca até uma gloriosa extinção: 

And in the end
The love you take
Is equal to the love you make (Paul MacCartney, "Abbey Road". The Beatles)



segunda-feira, 25 de abril de 2011

O conselho de Joyce

"A compreensão crítica que expresso em relação a algumas das correntes fundamentais das correntes teóricas pós-modernistas se dá, por um lado, a partir da leitura de várias obras de autores referenciais como: Jean François Lyotard (1924-1998), na sua "A condição pósmoderna" (LYOTARD, 2000); BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, em "Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade." (SANTOS, 1999); Jacques Derrida (1930-2004), Pensar a desconstrução (DERRIDA, 2005); Gilles Deleuze (1925-1995) e Felix Guattari em Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. (DELEUZE; GUATTARI, 2007). Por outro lado, a compreensão acima expressa acerca das principais vertentes do pensamento pósmodernista também se construiu, por exemplo, a partir da leitura e reflexão das obras de: (DOSSE, 1993), (WOOD;FOSTER, ORGS. 1999); HARVEY (2004); (EAGLETON ,2005), (SOKAL; BRICMONT, 2006). Aliás, estes últimos mostraram, de maneira insofismável no livro em questão, mais uma característica marcante de vários teóricos matriciais do pensamento pós-modernista: o charlatanismo intelectual empolado com falso conhecimento sobre questões científicas a respeito das quais não tinham o menor domínio. Sokal e Bricmont apresentaram de maneira cristalina os termos absurdos e, por vezes, bizarros que esses autores se apropriam e “abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos científicos: tanto utilizando-se de idéias científicas totalmente fora de contexto, sem dar a menor justificativa [...] quanto atirando jargões científicos na cara de seus leitores não-cientistas, sem nenhum respeito pela sua relevância ou mesmo pelo seu sentido.” (2006, p. 10). Essas “imposturas intelectuais”, afirmam Sokal e Bricmont, estão no âmago da compreensão teórica que esses autores entendem por ciência. Segundo seus termos precisos: “vastos setores das ciências sociais e das humanidades parecem ter adotado uma filosofia que chamaremos, à falta de melhor termo, de ‘pós-modernismo’: uma corrente intelectual caracterizada pela rejeição mais ou menos explícita da tradição racionalista do Iluminismo, por discursos teóricos desconectados de qualquer teste empírico, e por um relativismo cognitivo e cultural que encara a ciência como nada mais que uma ‘narração’, um ‘mito’ ou uma construção social entre outras”. (ibid, p. 15, grifos meus). Em oposição frontal às imposturas que trazem à tona, os autores querem fundamentalmente mostrar que: “Nossa meta é precisamente dizer que o rei está nu (e a rainha também). Porém queremos deixar claro: não investimos contra a filosofia, as humanidades ou as ciências sociais em geral; pelo contrário, consideramos que estes campos do conhecimento são da máxima importância e queremos prevenir aqueles que trabalham nessas áreas (especialmente estudantes) contra alguns casos manifestos de charlatanismo. Em especial queremos ‘desconstruir’ a reputação que certos textos têm de ser difíceis em virtude de as idéias ali contidas serem muito profundas. Iremos demonstrar, em muitos casos, que, se os textos parecem incompreensíveis, isso se deve à excelente razão que não querem dizer absolutamente nada.” (ibid, p. 19, itálicos do autor e grifos meus). Os teóricos analisados pormenorizadamente por Sokal e Jean Bricmont foram: o médico, psicanalista e filósofo francês, Jacques Lacan (1901-1981), a filósofa búlgara Julia Kristeva (1941-), a filósofa e feminista belga Luce Irigaray (1932-), o filósofo e professor francês da Universidade da Escola Superior de Paris Bruno Latour (1947-), o sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), o filósofo e historiador de filosofia Gilles Deleuze, Félix Guattari e o filósofo e urbanista francês Paul Virilio (1932-)."LAZARINI, A.Q. A RELAÇÃO ENTRE CAPITAL E EDUCAÇÃO ESCOLAR NA OBRA DE DERMEVAL SAVIANI: Apontamentos Críticos. Tese de doutorado, 2010, UFSC. 
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Não sei se concordo com tudo, pois não tenho leituras mais profundas desses autores, mas não deixo de sentir cheiro de enxofre diante de outros... Já leram "O homem de areia", de Hoffmann? Tal como nesse bárbaro conto, parece haver alguns alquimistas por aí, misturando seus compostos com a eficiente cola proporcionada pela imaginação dos jovens, dos esnobes e dos incautos em geral. Mais ou menos como disse o Zé Paulo Netto: se um matemático diz que 2 + 2 = 5, ele é sumariamente rechaçado. Se um cientista social diz que as classes sociais vivem em harmonia, ganha alguma medalha. 
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Já disse James Joyce: "manter os doutores ocupados é o único modo de alcançar a imortalidade". Mas ele, ao contrário de alguns desses teóricos aí em cima, nunca pretendeu nada além da ficção. 
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Quando um cidadão erudito do século XVII começava a transitar entre três ou quatro campos de conhecimento, chamava-se sábio. Hoje, chamamo-lo charlatão. Quem aguenta até com o seu próprio campo? Mas, assim, as coisas são bem menos divertidas.

Joyce (aqui fotografado num momento dândi) zoou gerações de acadêmicos e seus óculos menos míopes, obrigando-os não a criticá-lo, mas sim a se fustigarem mutuamente com suas varas de marmelo. O troféu: quem parece menos burro ao ler Finnegan´s Wake? Enquanto isso, o povo morre de fome, ali mesmo no vão da porta (ah, mas por que eu disse isso, se eu também fico em casa lendo textos?). Close na Chapeuzinho caindo na conversa do Lobo Mau, meio toscamente desenhado.

domingo, 17 de abril de 2011

Examined Life (2008)

Este documentário contém uma série de entrevistas com figuras cabulosas do pensamento contemporâneo, como Slavo Zizek, Judith Butler, Peter Singer, entre outros. 
Você encontrará o material em torrent - infelizmente, sem legendas - aqui. Vale a pena conferir - particularmente, o inglês macarrônico de Zizek, que concedeu sua entrevista sobre ecologia em meio a um (presumivelmente, fedorento) lixão.




domingo, 10 de abril de 2011

Sobre educar

Expor idéias é uma tarefa inglória: mesmo quando se domina o assunto, e não passamos pelo vexame de interromper nossos passos para vasculhar alguma noção perdida nas confusão do cotidiano - gaguejando, esquecendo - precisamos pensar nos interlocutores. Onde estará aquela citação preciosa? Entre a pasta de dentes que preciso comprar e a multa a ser paga? Heller e sua leitura simples da vida cotidiana sempre me orientaram com uma saída nessa temática, na qual quem lê demais parece saber muito menos, justamente, por se confundir com aquilo que lê.

Um bom orador deve, além de domínio do assunto, conhecer os interlocutores e adaptar, na velocidade de uma sinapse, as idéias mais complexas num horizonte que eles possam vislumbrar, dominando as fontes de sua inquietação - sobretudo, as suas dúvidas sobre a verdade de seu discurso: em alguns momentos, é necessário ocupar o lugar de um mero expositor - até que seus interlocutores dêem um passo na direção daquela verdade não tão certa. Mas, então, sua incerteza não tem mais necessidade de adormecer numa máscara de sabedoria pronta a arruinar-se: pode aparecer como a insuspeita Razão que, sem desdenhar dos afetos, sem diminuir a frágil capacidade humana de compreender seu Universo, descobre apenas sua morada na transitoriedade de cada autor que já se empenhou em tentar aproximar-se dessa deusa caprichosa - a Razão - cujo assento numa ínfima parte de nosso corpo não bastou, ao longo dos séculos, para que as demais buscassem sua loucura, sua perdição, seu viver alegre e despreocupado de que a verdade exista ou não exista. Razão não é, afinal, certeza, mas sim uma espécie de inquieto amor pela verdade instrumentalizado pela arma da lógica, cujos produtos são para nós e estão tão destinados a perecer quanto nós próprios. Deve ser por isso que Goya compôs essa gravura aí:




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