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Psicologia, educação, política, literatura, cinema e outras idéias e opiniões que podem não ter conexão entre si. Tipo a Gisela.
sábado, 8 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Um fascista consequente? Sobre "Tropa de Elite II"
Obs1: se você não tiver visto o filme, não leia esse post.
Obs2: é sério.
---
Assisti ao Tropa de Elite II (um ano depois de todo mundo, seus novidadeiros escravizados!) e senti um gosto-desgosto parecido com o do Tropa de Elite I. Um aluno me abriu os olhos para o aspecto blockbuster do filme - aquele hip rock da trilha sonora, enquanto Nascimento atravessa os pavilhões de Bangu I, certamente era dispensável. Fora as fotos tétricas, que mais te lembram uma porcaria qualquer do Schwarzenegger. Nada mais tosco; e o Padilha bem que poderia ter tido um pouco mais de cautela com a fácil leitura reacionária do filme. Mas ainda penso que a película é mais arte que indústria cultural, na proporção de 70 para 30%.
Por enquanto, vou morar no meu gosto-desgosto sem esperar resolvê-lo, enquanto tratar do filme como obra de arte. É claro, como tese sociológica, a coisa muda e falarei disso mais adiante. Lembra um pouco o Orwell, só que menos inteligente (ou livre). Cumprimentos ao diretor José Padilha: somente o equivalente cinematográfico de um Baruch de Espinosa ou Antonio Gramsci, para meter a colher em um tema desses.
Minha simpatia pelo Capitão Nascimento - promovido a coronel - não aumentou. Torci por ele, de fato, pois o enredo te leva a isso, mas encaro com frieza esse mote americanófilo do herói-pistoleiro-solitário, a versão moderna de Kant, o homem que se entrega completamente ao cumprimento de seu dever. Continuo a identificar no Nascimento o que o Lênin, se vivo estivesse, talvez chamasse de "um fascista consequente", se é que dois adjetivos tão incongruentes podem coexistir em uma única frase sem ulcerar as pupilas de quem lê.
Entre atos: a gramática é amoral.
Meu pacifismo se apazigua ao perceber que Nascimento perdeu a mulher para um defensor dos direitos humanos, que deixa o enteado ver programas anti-Nascimento. Workaholic, este protagonista não tem sequer um cãozinho a esperá-lo em casa. Em seu terno preto e expressão fechada, envelhece em uma ostra; e, mesmo parecendo não se lamentar por isso, dá poucos sinais de alegria ao longo do filme. Parece viver em uma espécie de anestesia administrada pelo cumprimento do dever, trazendo um rosto que oscila entre as paixões tristes e a inexpressividade treinada dos que cumprem ordens sem dar opinião. Ao fim e ao cabo, meio desiludido, desesperançado, mas ainda aferrado à doutrina. Efeitos cumulativos de tanta violência? O Tropa de Elite I é sua jornada em busca de um substituto, mas ele não o consegue, por quê? Não temos explicações.
Para Nascimento, o homicídio é secundário. O centro de sua existência é a obsessão com um ideal, o das qualidades militares. Ele acredita na Corporação (o Bope) como todo fascista acreditava no corpo social da Pátria de Mussolini. Acredita no amigo, o André Matias, como homem obediente, que combina força e decência, espelho das qualidades do seu mestre. O ideal não é criativo, mas funciona: um dia depois do outro, protege milhares de zelosos agentes da lei das dúvidas aflitivas, que prejudicariam seu ganha-pão. Nesse meio social, o excesso de palavrões parece encobrir uma certa escassez de criatividade, de idéias, de entendimento mais complexo do mundo em que vivem. Não sei.
Vai ver que ele só me desperta certa compaixão justamente porque, no fundo, acredita naquilo que é tão difícil de fazer meus alunos desconfiarem, porque tem mil e uma utilidades: o mito da ordem e da disciplina, fundador da República brasileira. Se essa Musa dos incautos tiver despida a túnica desse mito, revela-se tão injusta, cínica, excludente, que muitos de nós talvez se revoltassem ou se deprimissem, ou coisa pior. Mas Nascimento não é bobo. Demora, mas ele percebe que não adianta matar e espancar, porque a natureza humana é anarquista, desdenha do Estado, da ordem, acumula tolos desejos de riqueza e vingança, e ele é impotente para generalizar seu modelo espartano de vida. A milícias do Tropa de Elite formam um pseudo-anarquismo parasitário do Estado, feito por homens acima de suspeita que nos fazem sentir saudades dos traficantes do Tropa I. E Nascimento também se pergunta, ao fim: por que matei tanto? Para dar nisso aí?
A morte do amigo e colega de BOPE é realmente um golpe em seu rígido senso de responsabilidade para com os subordinados, em sua ilusão na capacidade de protegê-los, e outras qualidades necessárias para sobrevivência do ofício. Esse herói deve ter agradado menos a média do público que o do Tropa I; agora ele se tornou mais complexo. No fim do filme, percebemos que o sentido psicológico de sua missão, a convicção de que o BOPE "sanitizará" o Rio com a soda cáustica da ordem e da disciplina, arruína-se por completo. Frente ao teste de realidade, Nascimento alcança uma compreensão mais profunda do funcionamento do "sistema".
---
E agora, analiso o filme como tese sociológica. Um pouco de Gandhi, Tolstói, Thoreau e da contracultura já apontaria a inefetividade de se recorrer a meios violentos para criar uma sociedade não-violenta. Não somos computadores com botão de deletar - "aí, cidadãos, esqueçam a maldade do BOPE e tenham uma vida feliz!".
No fundo, não é mesmo o apaziguamento que está em causa. O filme consegue criticar bastante bem a tese simplista de que basta aniquilar os traficantes e a favela será um local bacana - e esse recado fica claro mesmo para os espectadores mais ingênuos. Ora, a violência na favela insere-se em um sistema. E no fim, Padilha volta suas lentes para o lugar onde os piores bandidos se concentram, i.e., Brasília.
Que tal, então, extinguir Brasília, já que é o verdadeiro centro da corrupção e da violência? Talvez pense assim o espectador ingênuo. E o filme anda em círculos, não chega a uma análise mais profunda do Estado, do narcotráfico (dificilmente o faria com a rede de patrocinadores que tem); não analisa o potencial impacto da descriminalização das drogas, não analisa o processo pelo qual um menino se torna traficante (o próprio MV Bill foi muito mais longe nesse ponto), traumatizado, violentado e sem alternativas para ganhar o seu pão. Somente um ingênuo poderia acreditar que o Estado brasileiro, com seu imenso poder econômico, não seria capaz de derrotar bandos de homens com armas do Exército, mas sem treinamento militar e comando central. Sim, parceiros, o BOPE tomou os morros, e daí? O abstrato "sistema" é capitalista, e aí entra outro ponto que me incomodou profundamente - ao se manter a guerra no nível do círculo tráfico-milícia-Estado, a fonte primeira de nossa organização social, o Grande Capital, escapou incólume. E é dele que vêm as armas, os vícios, o darwinismo social a que nos acostumamos quase como segunda pele.
Ora, vamos. Ninguém estranhou o patrocínio do filme pela Claro? Meus parabéns por abrir os olhos dos ingênuos, Padilha, mas sua frágil noção de sistema deixou de lado o elo principal da corrente, esse, que os moradores de tantos cortiços do mundo enfrentam todos os dias, a fonte primária da violência do Estado. O BOPE, mais do que resgatar sua população para direitos historicamente negados, é uma máquina de guerra para o grande capital acessar a favela sem ter de pagar propina para um lado ou outro.
E soltar esse filme meses antes da história da ocupação das favelas e instauração das UPPs?! Pode ser coincidência, mas...
Obs2: é sério.
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Assisti ao Tropa de Elite II (um ano depois de todo mundo, seus novidadeiros escravizados!) e senti um gosto-desgosto parecido com o do Tropa de Elite I. Um aluno me abriu os olhos para o aspecto blockbuster do filme - aquele hip rock da trilha sonora, enquanto Nascimento atravessa os pavilhões de Bangu I, certamente era dispensável. Fora as fotos tétricas, que mais te lembram uma porcaria qualquer do Schwarzenegger. Nada mais tosco; e o Padilha bem que poderia ter tido um pouco mais de cautela com a fácil leitura reacionária do filme. Mas ainda penso que a película é mais arte que indústria cultural, na proporção de 70 para 30%.
Por enquanto, vou morar no meu gosto-desgosto sem esperar resolvê-lo, enquanto tratar do filme como obra de arte. É claro, como tese sociológica, a coisa muda e falarei disso mais adiante. Lembra um pouco o Orwell, só que menos inteligente (ou livre). Cumprimentos ao diretor José Padilha: somente o equivalente cinematográfico de um Baruch de Espinosa ou Antonio Gramsci, para meter a colher em um tema desses.
Minha simpatia pelo Capitão Nascimento - promovido a coronel - não aumentou. Torci por ele, de fato, pois o enredo te leva a isso, mas encaro com frieza esse mote americanófilo do herói-pistoleiro-solitário, a versão moderna de Kant, o homem que se entrega completamente ao cumprimento de seu dever. Continuo a identificar no Nascimento o que o Lênin, se vivo estivesse, talvez chamasse de "um fascista consequente", se é que dois adjetivos tão incongruentes podem coexistir em uma única frase sem ulcerar as pupilas de quem lê.
Entre atos: a gramática é amoral.
Meu pacifismo se apazigua ao perceber que Nascimento perdeu a mulher para um defensor dos direitos humanos, que deixa o enteado ver programas anti-Nascimento. Workaholic, este protagonista não tem sequer um cãozinho a esperá-lo em casa. Em seu terno preto e expressão fechada, envelhece em uma ostra; e, mesmo parecendo não se lamentar por isso, dá poucos sinais de alegria ao longo do filme. Parece viver em uma espécie de anestesia administrada pelo cumprimento do dever, trazendo um rosto que oscila entre as paixões tristes e a inexpressividade treinada dos que cumprem ordens sem dar opinião. Ao fim e ao cabo, meio desiludido, desesperançado, mas ainda aferrado à doutrina. Efeitos cumulativos de tanta violência? O Tropa de Elite I é sua jornada em busca de um substituto, mas ele não o consegue, por quê? Não temos explicações.
Para Nascimento, o homicídio é secundário. O centro de sua existência é a obsessão com um ideal, o das qualidades militares. Ele acredita na Corporação (o Bope) como todo fascista acreditava no corpo social da Pátria de Mussolini. Acredita no amigo, o André Matias, como homem obediente, que combina força e decência, espelho das qualidades do seu mestre. O ideal não é criativo, mas funciona: um dia depois do outro, protege milhares de zelosos agentes da lei das dúvidas aflitivas, que prejudicariam seu ganha-pão. Nesse meio social, o excesso de palavrões parece encobrir uma certa escassez de criatividade, de idéias, de entendimento mais complexo do mundo em que vivem. Não sei.
Vai ver que ele só me desperta certa compaixão justamente porque, no fundo, acredita naquilo que é tão difícil de fazer meus alunos desconfiarem, porque tem mil e uma utilidades: o mito da ordem e da disciplina, fundador da República brasileira. Se essa Musa dos incautos tiver despida a túnica desse mito, revela-se tão injusta, cínica, excludente, que muitos de nós talvez se revoltassem ou se deprimissem, ou coisa pior. Mas Nascimento não é bobo. Demora, mas ele percebe que não adianta matar e espancar, porque a natureza humana é anarquista, desdenha do Estado, da ordem, acumula tolos desejos de riqueza e vingança, e ele é impotente para generalizar seu modelo espartano de vida. A milícias do Tropa de Elite formam um pseudo-anarquismo parasitário do Estado, feito por homens acima de suspeita que nos fazem sentir saudades dos traficantes do Tropa I. E Nascimento também se pergunta, ao fim: por que matei tanto? Para dar nisso aí?
A morte do amigo e colega de BOPE é realmente um golpe em seu rígido senso de responsabilidade para com os subordinados, em sua ilusão na capacidade de protegê-los, e outras qualidades necessárias para sobrevivência do ofício. Esse herói deve ter agradado menos a média do público que o do Tropa I; agora ele se tornou mais complexo. No fim do filme, percebemos que o sentido psicológico de sua missão, a convicção de que o BOPE "sanitizará" o Rio com a soda cáustica da ordem e da disciplina, arruína-se por completo. Frente ao teste de realidade, Nascimento alcança uma compreensão mais profunda do funcionamento do "sistema".
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E agora, analiso o filme como tese sociológica. Um pouco de Gandhi, Tolstói, Thoreau e da contracultura já apontaria a inefetividade de se recorrer a meios violentos para criar uma sociedade não-violenta. Não somos computadores com botão de deletar - "aí, cidadãos, esqueçam a maldade do BOPE e tenham uma vida feliz!".
No fundo, não é mesmo o apaziguamento que está em causa. O filme consegue criticar bastante bem a tese simplista de que basta aniquilar os traficantes e a favela será um local bacana - e esse recado fica claro mesmo para os espectadores mais ingênuos. Ora, a violência na favela insere-se em um sistema. E no fim, Padilha volta suas lentes para o lugar onde os piores bandidos se concentram, i.e., Brasília.
Que tal, então, extinguir Brasília, já que é o verdadeiro centro da corrupção e da violência? Talvez pense assim o espectador ingênuo. E o filme anda em círculos, não chega a uma análise mais profunda do Estado, do narcotráfico (dificilmente o faria com a rede de patrocinadores que tem); não analisa o potencial impacto da descriminalização das drogas, não analisa o processo pelo qual um menino se torna traficante (o próprio MV Bill foi muito mais longe nesse ponto), traumatizado, violentado e sem alternativas para ganhar o seu pão. Somente um ingênuo poderia acreditar que o Estado brasileiro, com seu imenso poder econômico, não seria capaz de derrotar bandos de homens com armas do Exército, mas sem treinamento militar e comando central. Sim, parceiros, o BOPE tomou os morros, e daí? O abstrato "sistema" é capitalista, e aí entra outro ponto que me incomodou profundamente - ao se manter a guerra no nível do círculo tráfico-milícia-Estado, a fonte primeira de nossa organização social, o Grande Capital, escapou incólume. E é dele que vêm as armas, os vícios, o darwinismo social a que nos acostumamos quase como segunda pele.
Ora, vamos. Ninguém estranhou o patrocínio do filme pela Claro? Meus parabéns por abrir os olhos dos ingênuos, Padilha, mas sua frágil noção de sistema deixou de lado o elo principal da corrente, esse, que os moradores de tantos cortiços do mundo enfrentam todos os dias, a fonte primária da violência do Estado. O BOPE, mais do que resgatar sua população para direitos historicamente negados, é uma máquina de guerra para o grande capital acessar a favela sem ter de pagar propina para um lado ou outro.
E soltar esse filme meses antes da história da ocupação das favelas e instauração das UPPs?! Pode ser coincidência, mas...
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Sonhos padronizados

Descobri o cinema de Darren Aronofsky e não consigo mais parar. Tomemos “Requiem for a dream” ["A vida não é um sonho"] (2000). Sara Goldfarb, mulher solitária, simpática, prendada, imagina-se na TV, vestida com seu vestido favorito - o que usara na formatura do filho, Harry. Em sua fantasia, ela está penteada, maquiada e magra, falando animadamente sobre sua amada família para um alegre apresentador de programa de auditório; nela vemos nossas mães e as mães de toda a gente. Seu sonho, tão popular, é alimentado por uma cartinha da emissora de televisão que a convida a participar do programa.
Sara captura nossa estima tão rapidamente como a frágil personagem de Mia Farrow em a “Rosa Púrpura do Cairo”. A montagem de Aronofsky é intensa como a de Eisenstein. O resultado induz um pânico difícil de sanar; como diria Vigotski: ao invés do simples contágio, produz uma ferida.
Faz sentido. Harry é usuário de heroína. Em suas enormes pupilas, sonhamos com ele, repetidamente. O que sonha? Sonha caminhar em um lindo píer na direção de sua amada Marion. Marion, seminua, olha-se no espelho, embriagada por alguma sensação de poder sem contradições, uma ilusão que é ela própria, em certa medida. Tyrone, o terceiro amigo, sonha ser importante. E todos ignoram que a Fortuna encaminhava-os muito mal. Marca-se tal sucessão de cenas kafkianas que só fazem nos mergulhar no lado B de um mundo semidesconhecido, cujo muro entre psicotrópicos legais e ilegais é fundamentalmente a hipocrisia.
Sara fantasia o sonho americano: casa asseada, com cada coisa em seu lugar. A dona, em seu centro, pode exibir à platéia a sua feliz e comportada família, em que drogas e álcool não têm voz nem vez. Mas, que azar! Pela porta dos fundos entram medicamentos. A fim de parecer mais magra na TV, Sara torna-se dependente de anfetaminas. O filme está para nossa cultura medicalizada tal qual os dramas de Ibsen estavam para os tempos revolucionários da burguesia: a verdade sobre uma sociedade em crise, na qual nenhuma ilusão parece se sustentar sem o apelo a poderosos narcóticos ou técnicas médicas, infiltra-se por nossos olhos como as agulhas através do putrefato braço de Harry. Essa verdade genial do filme é a demonstração de que não o desvio, mas sim a forçada normalidade dos personagens - todos, alimentados por este ou aquele sonho americano - é a fonte inexorável de seu horror e destruição, da obsessão sancionada que muitos chamariam de padronização.
Já dizia Espinosa: mais vale multiplicar os desejos para que nosso corpo/mente não se torne refém de uma só paixão. Mais valem os bons encontros que as idéias imaginativas. E um mundo em que as categorias mais desejadas são também as mais vazias de espírito público - dinheiro, riqueza, beleza - essas personagens não podem se gabar de seus bons encontros, nem da atividade de seu corpo, nem de participar da difícil invenção do bem comum, que alguns larápios oportunistas chamaram de política. Os personagens de Aronofsky vagam em um mundo que fabricou a relação entre crime e castigo, a noção de que o vício induz seu próprio fim, e se não induzir, manicômios ou prisões farão o serviço. Penso que essa "higienização" é feita no filme ao alcançar a visibilidade da vida pública, antes de que as velhinhas, amigas de Sara, fiéis companheiras de cadeiras de jardim e torta de maçã, desconfiem do estofo cruel e violento oculto em seus inofensivos programas de auditório - ou, tal como ela, tentem tornar mais real o sonho narcótico que eles veiculam.
sábado, 3 de setembro de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Velhinhas e motoristas
Estava metida em minha vida.
Foi quando dei aquela olhadinha nas notícias do Yahoo:
Bem, então: motoristas temem mais as multas do que abalroar as velhinhas. Estas, lentas e trôpegas, já não correm como os jovens de um homicídio aleatório. O resultado é mera poça de sangue, e lava-se; mas não os rombos na carteira.
Os outros 36% arriscam a carteira.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O juiz, o ladrão e o vira-latas
"Lear: Como, estás louco? Mesmo sem olhos um homem pode ver como anda o mundo. Olha com as orelhas. Vê como aquele juiz ofende aquele humilde ladrão. Escuta com o ouvido, troca os dois de lugar, como pedras nas mãos; qual o juiz, qual o ladrão? Já viste um cão da roça ladrar prum miserável?
Gloucester: Já, meu senhor.
Lear: E o pobre-diabo correr do vira-latas? Pois tens aí a imponente imagem da autoridade; até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo. Oficial velhaco, suspende tua mão ensangüentada! Por que chicoteias essas prostitutas? Desnuda tuas próprias costas. Pois ardes de desejo de cometer com ela o ato pelo qual a chicoteias. O usurário enforca o devedor. Os buracos de uma roupa esfarrapada não conseguem esconder o menor vício; mas as togas e os mantos de púrpura escondem tudo. Cobre o crime com placas de ouro e, por mais forte que seja a lança da justiça, se quebra inofensiva. Um crime coberto de trapos a palha de um pigmeu o atravessa. Não há ninguém culpado, ninguém – digo, ninguém! Eu me responsabilizo. Podes acreditar em mim, amigo, tenho o poder para lacrar os lábios do acusador. Arranja olhos de vidro e, como um político rasteiro, finge ver aquilo que não vês." SHAKESPEARE, William. O Rei Lear. L&PM Editora. p. 172
Sei que as palavras do Bardo compõem Beleza a partir da Verdade. Conheço poucos juízes, e muitos vira-latas, e a tentação de virar eu própria as latas da vida emerge, neste mundo em que ter um cargo qualquer é confundir-se com possuir a Verdade, essa musa caprichosa que é mais difícil de expor que de elaborar. Se a temos, sem coragem, corremos o risco de levá-la conosco para o túmulo. Se a calamos, não seremos mais que vira-latas, sofrendo o mal do Juiz - esse simbólico vira-latas travestido de toga como outros travestem-se de beca, graus, títulos e etc. Raras são as ocasiões em que, talvez cansado por submeter-se, talvez revoltado por ter sido sempre fiel guarda-costas de um amo despótico; raras vezes, nesses ciclos kafkianos da vida moderna, a Verdade aparece, mas não para martelar a cabeça do juiz (esta, protegida por sua própria obtusidade, seu caráter vão, seus procedimentos cuidadosamente escolhidos), e sim a do ladrão - o bode expiatório que não é nem juiz, nem vira-latas. E aí, exposta e oculta detrás do manto dos Príncipes, a Verdade já terá sido completamente corroída de seu valor: ela é só opressão e nada mais.
O juiz é o burocrata da vida, como o médico é o burocrata da morte, parece ter dito Tolstói em seu magnífico "A morte de Ivan Ilitch". Ambos, administradores de processos incontroláveis de estupidificação dos subordinados. A fala nervosa de Lear é a do rei destronado, sem-teto, que abandonou, por amor e vaidade, suas pilhas de ouro em prol dos falsos afagos das filhas. Estas, abarrotadas de dinheiro e opressão, voltaram-lhe as costas assim como a um vira-latas sem cargo, ou ex-juiz despido de suas fragorosas vestes, nu e pobre sem finos mantos que escondessem sua fragilidade e sua demência. Shakespeare protesta: os homens de togas e mantos de púrpura esquivam-se do julgamento, escondendo tudo, escondendo mesmo sua pena pelo ladrão, sua simpatia pelo vira-latas, esse felizardo que não tem de se importar com as pompas do Juizado e pode correr por aí, ao relento que seja, sem olhar o dia, a hora, ou o ponto a bater. Pena que Lear tenha se dilacerado pela traição de suas filhas! Pena que o remorso por sua própria injustiça com Cordélia impediu-o de usufruir da irresponsabilidade própria da loucura, lançando-o nas garras das estrelas. Essas não tem tempo, demência nem angústia. Dispostas num espaço no qual não há remorso nem culpa, contemplam, com seus complacentes olhos brilhantes, a infinita pequenez humana. Eu ainda me destrono.
O juiz é o burocrata da vida, como o médico é o burocrata da morte, parece ter dito Tolstói em seu magnífico "A morte de Ivan Ilitch". Ambos, administradores de processos incontroláveis de estupidificação dos subordinados. A fala nervosa de Lear é a do rei destronado, sem-teto, que abandonou, por amor e vaidade, suas pilhas de ouro em prol dos falsos afagos das filhas. Estas, abarrotadas de dinheiro e opressão, voltaram-lhe as costas assim como a um vira-latas sem cargo, ou ex-juiz despido de suas fragorosas vestes, nu e pobre sem finos mantos que escondessem sua fragilidade e sua demência. Shakespeare protesta: os homens de togas e mantos de púrpura esquivam-se do julgamento, escondendo tudo, escondendo mesmo sua pena pelo ladrão, sua simpatia pelo vira-latas, esse felizardo que não tem de se importar com as pompas do Juizado e pode correr por aí, ao relento que seja, sem olhar o dia, a hora, ou o ponto a bater. Pena que Lear tenha se dilacerado pela traição de suas filhas! Pena que o remorso por sua própria injustiça com Cordélia impediu-o de usufruir da irresponsabilidade própria da loucura, lançando-o nas garras das estrelas. Essas não tem tempo, demência nem angústia. Dispostas num espaço no qual não há remorso nem culpa, contemplam, com seus complacentes olhos brilhantes, a infinita pequenez humana. Eu ainda me destrono.
"King Lear and a Fool in the Storm". Artista: Sir John Gilbert.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
O círculo perfeito
Anos atrás, fui atraída para um comentário de Deleuze, citando fala de Scott Fitzgerald sobre o casamento dele com Zelda: "Eu amei a loucura em seus olhos. Ela amou a bebida em meus lábios".
Essa frase me desorganizou o sistema. O amor não são só as cantigas de ninar das mães, as valsas repletas de pudores angelicais, o eufemismo para as passagens de sedução que tanto amamos em Kundera?
Mas eram assim os votos matrimoniais dos jovens Fitzgerald. Os defeitos-virtudes sociais do escritor e de sua mulher formavam um círculo perfeito; diferente, talvez, do amor convencional que contém certa dose de recolhimento, o deles era um amor público a virtudes, na sua maioria, vazias (inteligência, talento, beleza, impetuosidade). O "justo meio", procuraria Aristóteles! Esse preceito pode ser difícil de atingir onde a vida pública gira em torno de seu próprio eixo, como uma enceradeira rangente e monótona, pronta a ser descartada quando um taco velho começa a se descolar. E descolou.
Scott e Zelda amaram bebida e loucura também quando espelhadas nos olhos dos seus admiradores. Scott, mais autocrítico, sofreu da vergonha de adivinhar a futilidade - mas, incapaz de conter a fúria exibicionista de Zelda, fiel escudeiro dessa poetisa prática, usufruiu de suas virtudes-defeitos como prisões sociais de estadia temporária, estações na direção do esquecimento.
Juntos, transcendiam qualquer espírito pragmático (como quem não precisasse da vida prática, vida comezinha e pobretona à qual Zelda jamais se ajustou), o horror ou a vergonha, a beleza de ambos potencializando os seus atos bizarros, eles vingaram-se do convencionalismo criando excessos impossíveis de superar, mas também, vazios de sentido, de devir ou de beleza própria. E acabaram, bem, como sinônimos de um tempo de vazio e abundância, não sei se devia ser assim.
Zelda queria era superar a própria beleza com um valor novo: ela mesma. Mas ela não duraria, e dessa aposta malograda em sua própria grandeza, vai tentando encontrar novos sentidos para a Vida, até estancar os horrores suicidas com - pasmem! - o mais convencional de todos, a religião. Scott era o humilde tradutor do projeto insano da mulher, de sua aventura impossível.
Scott e Zelda amaram bebida e loucura também quando espelhadas nos olhos dos seus admiradores. Scott, mais autocrítico, sofreu da vergonha de adivinhar a futilidade - mas, incapaz de conter a fúria exibicionista de Zelda, fiel escudeiro dessa poetisa prática, usufruiu de suas virtudes-defeitos como prisões sociais de estadia temporária, estações na direção do esquecimento.
Juntos, transcendiam qualquer espírito pragmático (como quem não precisasse da vida prática, vida comezinha e pobretona à qual Zelda jamais se ajustou), o horror ou a vergonha, a beleza de ambos potencializando os seus atos bizarros, eles vingaram-se do convencionalismo criando excessos impossíveis de superar, mas também, vazios de sentido, de devir ou de beleza própria. E acabaram, bem, como sinônimos de um tempo de vazio e abundância, não sei se devia ser assim.
Zelda queria era superar a própria beleza com um valor novo: ela mesma. Mas ela não duraria, e dessa aposta malograda em sua própria grandeza, vai tentando encontrar novos sentidos para a Vida, até estancar os horrores suicidas com - pasmem! - o mais convencional de todos, a religião. Scott era o humilde tradutor do projeto insano da mulher, de sua aventura impossível.
Não era um pacto de amor sadomasoquista. Talvez fosse uma simbiose, uma fusão completa, uma paixão absolutamente infantil por poderes mais ou menos inofensivos aos outros, Scott e Zelda, princesa encerrada na torre da loucura; marido em luta inútil para mantê-la a salvo de si mesma. E Scott lamentou-se por deixá-la seguir em seu curso sem volta, participando dos bizarros happenings de Zelda, mulher-bruxa, força natural em seu paganismo meio cômico e meio trágico. Junto dela até o fim, Fitzgerald foi, sem dúvida, um romântico. Recebeu de presente sucesso e fracasso com o mesmo olhar de pavor e culpa; no seu rosto meio irlandês, sempre o sorriso angelical e infantil. Hemingway, o"amigo"(mais propenso ao julgamento que à compreensão) que tão pouco o ajudou, viu o mundo de Scott dissolver-se em garrafas de uísque, melancolia e dívidas. Faz-nos pensar se apontar a nudez do rei - hábito de todo psicólogo - de fato ajuda-o a se cobrir, ou a tomar partido dessa nudez sem culpa.
E, diz Jeffrey Meyers (in "Scott Fitzgerald: uma biografia"), a rica jovem só queria ser ela própria. Admirando sua intrigante imagem, entendemos o porquê. Perder esse rosto segundo a segundo é necessariamente trágico, pateticamente banal: desperdício e crueldade do tempo combinados com um progressivo encolhimento do espaço social. Talvez eles coubessem mais como antigos ícones da melancolia contemporânea. Um epitáfio cabe-lhes: they had fun!
E, diz Jeffrey Meyers (in "Scott Fitzgerald: uma biografia"), a rica jovem só queria ser ela própria. Admirando sua intrigante imagem, entendemos o porquê. Perder esse rosto segundo a segundo é necessariamente trágico, pateticamente banal: desperdício e crueldade do tempo combinados com um progressivo encolhimento do espaço social. Talvez eles coubessem mais como antigos ícones da melancolia contemporânea. Um epitáfio cabe-lhes: they had fun!
terça-feira, 24 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
A tevê e o meu coraçãozinho (crônica baurulina)
Em Bauru, acabo assistindo televisão enquanto faço companhia aos meus velhos. Costuma doer, mas, até essa Páscoa, as pontadas nunca haviam se aproximado tanto daquela famosa dor no braço direito, seguida de um túnel de luz com o vulto da sua avó sorrindo para você.
Era dia de Fantástico. Matéria de abertura: mortes nas rodovias, cuja principal causa (somos informados antes de podermos pensar) é a impunidade. Nada a ver com buracos, congestionamentos e afins.
Cenas de certo caminhão batido numa quilométrica fila de carros. Pessoas sangrando (de verdade! Não era molho de tomate!), enquanto um caminhoneiro fugia das câmeras. Não por muito tempo: sua CNH foi habilmente obtida pela reportagem da Globo (corta para um close frontal na foto desse inimigo público).
Era dia de Fantástico. Matéria de abertura: mortes nas rodovias, cuja principal causa (somos informados antes de podermos pensar) é a impunidade. Nada a ver com buracos, congestionamentos e afins.
Cenas de certo caminhão batido numa quilométrica fila de carros. Pessoas sangrando (de verdade! Não era molho de tomate!), enquanto um caminhoneiro fugia das câmeras. Não por muito tempo: sua CNH foi habilmente obtida pela reportagem da Globo (corta para um close frontal na foto desse inimigo público).
Gigi, olha o túnel! Você já não tem 25 anos. Mudei de canal.
Na Record, um programa sobre cachorros. Promessa de alienação inofensiva! Mas eis que começa narrativa sobre a relação entre um homem sem-teto, que há 20 anos teve a mão decepada num acidente de trabalho, e seu fiel cãozinho, juntos durante a coleta de recicláveis. Imaginei a vida desses dois e umas pontadas (imaginárias) voltaram ao meu peito. Voltei para o Fantástico, na esperança de que a reportagem sobre os acidentes tivesse acabado.
Na Record, um programa sobre cachorros. Promessa de alienação inofensiva! Mas eis que começa narrativa sobre a relação entre um homem sem-teto, que há 20 anos teve a mão decepada num acidente de trabalho, e seu fiel cãozinho, juntos durante a coleta de recicláveis. Imaginei a vida desses dois e umas pontadas (imaginárias) voltaram ao meu peito. Voltei para o Fantástico, na esperança de que a reportagem sobre os acidentes tivesse acabado.
E acabara. Exibiam-se cenas de uma câmera de segurança: um bebê recém-nascido era posto numa caçamba de entulho. Em seguida, aparecia um catador de latinhas que, ao se deparar com a criança enjeitada, quase morreu de susto (parecia-se comigo, assistindo à reportagem dos acidentes).
Corta: entrevistas protocolares com o professor e o policial coadjuvantes. Foto da fachada do hospital católico (e chique) no qual a criança se recuperava bem. O policial é a voz da razão: "foi deus!", pois o médico bem-apessoado garantiu que mais uns minutinhos seriam fatais para a menina, já apelidada de "Vitória".
Se deus apresentou-se, o diabo não fez por menos. A mãe foi devidamente aferrolhada e exibida para as câmeras, com um corpo surpreendentemente magro para o puerpério (Adriane Galisteu e outras ex-grávidas morreriam de inveja). Trazia na cara uma expressão da mais total frieza. Sua desculpa?! Já tinha 6 filhos e trabalhava como cozinheira! Agora, imagino, já não tem filhos, liberdade ou emprego. Após uns 10 anos de cana, poderá rivalizar com o pobre senhor da mão decepada no processo de catação de latinhas, pois o salvador do bebê está nas graças da opinião pública. Talvez ele vá obter trabalho, mas como a memória televisiva é curta - além do que há alta concorrência de bebês enjeitados em locais pitorescos - também pode ser que continue procurando latinhas e encontrando latinhas.
Perdoem-me a cáustica amargura, mas me surpreende perceber como histórias assim deixem entrever tragédias tão claras, repletas de desigualdade social, omissão do poder público, má fé da imprensa, e o telespectador talvez nada observe. O sentimentalismo é complemento necessário da inanição intelectual. Vilão, mocinho, mocinho mais mocinho, mocinho menos bandido, e acreditamos que o Bolsa Família realmente tornou o Brasil um país justo. Vivemos é numa nação cruel com os pobres, estupidificada e kitsch. E ainda dizem que nossos afetos são naturalmente bons! Que erro! Eles podem ser é cúmplices da nossa subserviência compassiva e virtuosa.
Ainda bem que só volto a assistir televisão em julho. Nesse ritmo, meu coraçãozinho não aguentaria.
Perdoem-me a cáustica amargura, mas me surpreende perceber como histórias assim deixem entrever tragédias tão claras, repletas de desigualdade social, omissão do poder público, má fé da imprensa, e o telespectador talvez nada observe. O sentimentalismo é complemento necessário da inanição intelectual. Vilão, mocinho, mocinho mais mocinho, mocinho menos bandido, e acreditamos que o Bolsa Família realmente tornou o Brasil um país justo. Vivemos é numa nação cruel com os pobres, estupidificada e kitsch. E ainda dizem que nossos afetos são naturalmente bons! Que erro! Eles podem ser é cúmplices da nossa subserviência compassiva e virtuosa.
Ainda bem que só volto a assistir televisão em julho. Nesse ritmo, meu coraçãozinho não aguentaria.
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