Não adquiri novos truques de direção, nem mesmo me tornei excepcionalmente capaz de aguentar o volante por um longo tempo de viagem, pois eu e o Edu revezávamos sempre que batia o cansaço. A Bahia é uma gigante, e atravessá-la no tempo das mulas devia ser feito digno das epopeias...
A memória dessa travessia, pelo menos do oeste do Estado até Feira de Santana, foi a de uma interminável pista simples, sinuosa, traçada entre pequenos vales e morros que nos forçavam a manter a atenção, como que para remendar o tédio ao cortar enormes vazios populacionais.
Um enorme vazio de gente repleto de vida de outros tipos.
Na região da Chapada Diamantina, bonitos fragmentos de mata mais ou menos virgem abria um caminho entre plantações meio desencorajadas, um pouco tímidas, com raras cidades, que compõem agora a minha imagem do interiorzão da Bahia.
Vibrando e esperançando com a totalização dos votos para presidente em 2022, eu idealizava a Bahia como o verdadeiro mar de gente que se vê no Carnaval de Salvador. Talvez, grandes grupos de capoeiristas em guerra contra o fascismo.
Mas a Bahia que eu agora vi é mais a de Torto Arado do que de Capitães de Areia. Ou a Baía de Canudos, da Revolta dos Malês. De Tereza Batista. Terra de insurretos, mas que agora apareceu-me apenas como uma sequência de borrões verdes, carros à frente e atrás, postos de gasolina malcheirosos, povoados com pequenos centros históricos mais portugueses do que Portugal talvez se saiba. Paramos em Brumado para o almoço: a atmosfera é idêntica à das cidades históricas mineiras.
Não sei se a ideia de extrema pobreza se aplica aqui. Pelo menos não como me represento esse conceito, seja pelas vidas secas de Graciliano Ramos, seja pelas vidas poluídas dos bolsões de miséria do ABC paulista (meu tio morava em São Bernardo do Campo. O caminho para a casa dele abria-se em meio a Diadema, Heliópolis e as favelas construídas sobre morros gigantes de habitações precárias; os tijolos expostos rivalizavam com o gigantismo dos arranha-céus, parecendo dizer-lhes: "nós sim desafiamos a gravidade. Construímos para vocês com o sólido concreto e o bloco bem assentado, depois voltamos para nossas casas de madeira, zinco e plástico que não é briga nem contra a violência da chuva, nem a do Estado..").
Nesses povoados e habitações na beira de estrada, alguns talvez sejam de pau a pique, mas há os raros barracos abandonados, talvez como um sinal de esperança de que a vida de alguém tenha melhorado o suficiente para ele se tornar desnecessário.
Fomos premiados com um alívio cômico ao final do interminável segundo dia de jornada: em uma das pequenas cadeias montanhosas da zona rural de Itatim, em certa zona de tráfego intenso, vimos uma enorme pedra em formato de pênis. Imagens não faltam na internet: o nome é Pedra do Constrangimento.
A injustiçada formação geológica só pode ter sido batizada por políticos cristãos: o povo baiano tem, certamente, apelidos muito mais criativos e sem censura.
Foi, pois, em estado de "ereção cósmica" - como diria minha professora de antropologia, Salete Alberti - e enervado cansaço que conseguimos descansar os ossos em um hotelzinho bastante decente de Feira de Santana. Sonhando uma Bahia que tenha muita, mas muita gente para 2026...
Pedra do Constrangimento, Itatim, BA
Rio São Francisco, na altura de Bom Jesus da Lapa