domingo, 16 de março de 2025

Loucura derretida. Episódio 2: Odisseia baiana

 
Não adquiri novos truques de direção, nem mesmo me tornei excepcionalmente capaz de aguentar o volante por um longo tempo de viagem, pois eu e o Edu revezávamos sempre que batia o cansaço. A Bahia é uma gigante, e atravessá-la no tempo das mulas devia ser feito digno das epopeias...
 A memória dessa travessia, pelo menos do oeste do Estado até Feira de Santana, foi a de uma interminável pista simples, sinuosa, traçada entre pequenos vales e morros que nos forçavam a manter a atenção, como que para remendar o tédio ao cortar enormes vazios populacionais. 
Um enorme vazio de gente repleto de vida de outros tipos. 
Na região da Chapada Diamantina, bonitos fragmentos de mata mais ou menos virgem abria um caminho entre plantações meio desencorajadas, um pouco tímidas, com raras cidades, que compõem agora a minha imagem do interiorzão da Bahia. 
Vibrando e esperançando com a totalização dos votos para presidente em 2022, eu idealizava a Bahia como o verdadeiro mar de gente que se vê no Carnaval de Salvador. Talvez, grandes grupos de capoeiristas em guerra contra o fascismo. 
Mas a Bahia que eu agora vi é mais a de Torto Arado do que de Capitães de Areia. Ou a Baía de Canudos, da Revolta dos Malês. De Tereza Batista. Terra de insurretos, mas que agora apareceu-me apenas como uma sequência de borrões verdes, carros à frente e atrás, postos de gasolina malcheirosos, povoados com pequenos centros históricos mais portugueses do que Portugal talvez se saiba. Paramos em Brumado para o almoço: a atmosfera é idêntica à das cidades históricas mineiras.
Não sei se a ideia de extrema pobreza se aplica aqui. Pelo menos não como me represento esse conceito, seja pelas vidas secas de Graciliano Ramos, seja pelas vidas poluídas dos bolsões de miséria do ABC paulista (meu tio morava em São Bernardo do Campo. O caminho para a casa dele abria-se em meio a Diadema, Heliópolis e as favelas construídas sobre morros gigantes de habitações precárias; os tijolos expostos rivalizavam com o gigantismo dos arranha-céus, parecendo dizer-lhes: "nós sim desafiamos a gravidade. Construímos para vocês com o sólido concreto e o bloco bem assentado, depois voltamos para nossas casas de madeira, zinco e plástico que não é briga nem contra a violência da chuva, nem a do Estado.."). 
Nesses povoados e habitações na beira de estrada, alguns talvez sejam de pau a pique, mas há os raros barracos abandonados, talvez como um sinal de esperança de que a vida de alguém tenha melhorado o suficiente para ele se tornar desnecessário. 
Fomos premiados com um alívio cômico ao final do interminável segundo dia de jornada: em uma das pequenas cadeias montanhosas da zona rural de Itatim, em certa zona de tráfego intenso, vimos uma enorme pedra em formato de pênis. Imagens não faltam na internet: o nome é Pedra do Constrangimento. 
A injustiçada formação geológica só pode ter sido batizada por políticos cristãos: o povo baiano tem, certamente, apelidos muito mais criativos e sem censura.
Foi, pois, em estado de "ereção cósmica" - como diria minha professora de antropologia, Salete Alberti - e enervado cansaço que conseguimos descansar os ossos em um hotelzinho bastante decente de Feira de Santana. Sonhando uma Bahia que tenha muita, mas muita gente para 2026...
Pedra do Constrangimento, Itatim, BA
Pedra do Constrangimento, Itatim, BA


Rio São Francisco, na altura de Bom Jesus da Lapa




sábado, 8 de março de 2025

Loucura derretida. Episódio 1: o amigo do Raul

Minha autoimagem é de uma pessoa quadrada, monótona, que não faz nada de errado nem sabe dar jeitinho em coisa alguma. Mas certamente tenho minhas pequenas loucuras: vir para Natal desde Goiânia de carro, tendo por objetivo principal servir-me da cachorrinha e do carro para este pós-doc, foi a mais recente. E também a primeira experiência do gênero, já que não curto dirigir e tenho medo de estradas desconhecidas. Medo e curiosidade, na minha psicologia particular, são um par sempre às turras um com o outro - e a curiosidade venceu, junto com a avaliação da razoabilidade desta pequena loucura. Em mim, a razão sempre vence...
Meio que enlouqueço o pobre Edu, com microataques de pânico até a partida, que perduram até o segundo dia de viagem. Dividimos os 2638 km em 4 parcelas: dia 1: até o oeste da Bahia; 2: até Feira de Santana; 3: até Maceió; 4: até a almejada Natal.
As surpresas foram diversas das que me atemorizavam: pneus exemplarmente cheios, nenhuma multa, acidente; um único erro no Google Maps. O mapa físico que comprei para alguma contingência inesperada agora é peça do museu doméstico, junto com o aparelho de DVD e o gravador de fitas K-7. Bem está o que bem acaba, ou o que começa deixando memórias tão fortes, embora, no fundo, nada loucas.
Reavalio minha classificação de loucuras. Classe média não faz loucuras: loucura seria cruzar o Brasil no pau-de-arara, com crianças, a pé ou de bicicleta; migrar sem local ou objetivo definido, como meu bisavô Frederico (que caiu no mundo até, ao que parece, chegar à mendicância), não esta minha, a de fazer centenas de km em uma SUV seminova, com bolsa térmica forrada de gelo falso que refresca água verdadeira.
Fico tentada a dizer que as loucuras ficaram do lado de fora, nos lugares por onde passamos: nos sinais de eras passadas, nos cavalos que são meio de transporte DE VERDADE (especialmente na Bahia e no Sergipe); nos sinais de pobreza sem esperança de melhora, dos vilarejos cercados por centenas de quilômetros de terras sem intervenção humana (e também, sem empregos visíveis), feitos de ruas tão destruídas que fica difícil saber se, para atrapalhar o trânsito, alguém abandonou pedras na rua de areia, ou se simplesmente a rua era calçada com pedras que foram desaparecendo, até que o buraco predominasse; nos vilarejos com uma praça central onde jovens e velhos fazem footing desviando da bosta de cachorro, ao longo do principal rio da região (um triste, fedorento esgoto), e onde se vê, ao fundo, um tanto quanto deslocada, uma bela ponte que deve datar dos governos Lula I ou II.
Rumo à bela cidade que seria nosso destino final, passamos por lugares onde poucos vão voluntariamente, como esta cidadezinha baiana que se preparava para um alegre carnaval. O Google Maps continuava nos mandando para a rua principal, toda ela interditada para os foliões, e pela qual só passamos após explicar aos servidores que éramos viajantes e não havia outro meio de chegar ao hotel.
Uma pessoa que eu quis conhecer, mas não pude, era um artista hippie expunha seu artesanato em uma kombi aberta, tocando Raul Seixas em volume muito alto. Ele sorria. Nem parecia querer outra vida. Ouro de verdade também é Ouro de tolo, o velho Raul poderia dizer. Entre a SUV e a velha kombi, quem seria o insano?
Repensando as cenas daquele dia, penso qu não há loucura alguma em viver nas ruas indecisas entre a pedra e o buraco. Viver um romance na orla do esgotão pode ser tão lindo quanto no Hudson River Park; e a humanidade andou a cavalo por muitos milênios mais do que em carros seminovos.
Viajar foi sempre um meio de me conhecer, e (re)descubro, conformada, que isso jamais vai se concluir. Enquanto eu não descobrir, como os amigos do Raul, qual o sentido da vida, partes de mim espalhadas em todos esse mundo desconhecido, prossigo, dividida entre o Corcel 73 e a pipoca dos macacos.










Foto: Eduardo Carli

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