O fator sobrevivência, em muitos casos, é o que mais pesa. Em áreas de pobre empregabilidade, tornar-se professor universitário é bastante sedutor. Muit@s enfrentam anos de longas viagens, com bolsas ou empregos que @s mantêm nos estritos limites da sobrevivência, chegando a misturar a jornada de chefes de família, trabalhadores e pós-graduandos. E, ainda por cima, são obrigados a inserir os nomes de seus orientadores em pesquisas nas quais eles não contribuem.
Muit@s orientador@s não tomam conhecimento desse cotidiano dos pós-graduandos, sequios@s por multiplicar seu poder de estilo colonial, tão longe da democracia quanto a USP está hoje - a principal universidade brasileira ´está vergonhosamente escorchada pelo seu próprio reitor, forte indício de como nosso Estado, e consequentemente, a produção de conhecimento, organiza-se.
Nesse Congresso, chamou-me a atenção o tom de voz áspero e grosseiro de uma orientadora em particular, sua ansiedade por satisfazer os pesquisadores estrangeiros e demonstrar seu domínio intelectual sobre um pequeno grupo de orientandos que variava da vulnerabilidade a uma silenciosa resignação. No cúmulo da loucura, tem-se uma preocupação obsessiva com a ortofonia e a ortoteoria: como se pronuncia tal nome? O que tal autor realmente quis dizer? E que tem lá seu fundamento, pois se faz em um contexto no qual - cientes do fato de que são poucos os que dominam idiomas herméticos (como russo e alemão) - muitos intérpretes alteram o pensamento dos mestres estrangeiros a seu bel-prazer. Malefícios da Universidade pensada fundamentalmente como local de tradução e interpretação, na qual os recursos para pesquisa são invariavelmente escassos.
Essa coisa toda é meio colonialista e me chama a atenção para o fato de que o tamanho dos grupos varia proporcionalmente à simpatia do orientador, e os indivíduos realmente sociáveis e humanos constituem grupos amplos, plateias que acabam devotando-lhes verdadeira adoração, elemento que ocasionalmente serve a quebrar os muros Universidade-sociedade e servir a boas causas.
Mas, falando no geral, ess@s orientador@s, restritos ao seguro ambiente acadêmico, marcam-se por uma notável falta de realismo. Ressalto o momento no qual estava em pé dentro do ônibus que levaria os congressistas para o centro da cidade, quando entra uma figura importante da psicologia nacional - a qual não me conhecia - entra e diz, com um tom de quem há muito tempo não ouve uma frase negativa: "vão indo!".
Mas não dava. A Universidade brasileira é mesmo um busão lotado, mas com ar condicionado.
---
Intelectualmente, vejo problemas nessa organização. Lembro-me de um Manifesto do Miguel Nicolelis, em que ele critica a hierarquização da universidade brasileira, comentando que no exterior você tem o dever de defender teses originais e criar conceitos. Pensar de modo criativo demanda cooperação e liberdade. O amor às hierarquias acabou gerando certa estagnação na produção intelectual, pois os grupos preocupam-se muito mais em não ofender mutuamente seus orientadores, que por sua vez preocupam-se em ser nutridos por seus contatos internacionais e em não romper (ou não azedar por completo) as alianças com grupos nacionais.
Também eu, é claro, carrego em minha consciência nossa história de colonização. Mas tive a boa sorte de que minha primeira camada 'metropolina' tenha sido feita de Nirvana, gestada nos terríveis subúrbios de Aberdeen e não nas fulgurantes luzes de New York. E quando me lembro daquele pequeno grupo da orientadora de tom áspero, se me evoca esse grande clássico de Kurt Cobain, desejando mais do que nunca ter tido a chance de me acabar em uma plateia grunge, perante o meu verdadeiro ídolo de adolescência tardia. Quiçá possa alcançar a integridade, a verve e o amor pela verdade que muitos nunca lhe reconheceram, confundidos pelos caracteres acidentais da heroína e do suicídio:
Nirvana, Serve the servants, MTV [Live]