ENTÃO, eu sempre sinto esse desamparo frente aos
homeless guys. Artistas ou cientistas; brancos ou pretos; brasileiros ou estrangeiros; amigáveis ou detestáveis; jovens ou velhos, são categorias que, em seus pares contrastivos, são infinitamente mais estranhas pra mim do que a dos sem-teto
. Esses sim são meus
chaps, já que, por motivos biográficos bastante sem-graça, eu tenho uma média de quatro pesadelos semanais com o mesmo tema: de repente, não tenho mais onde morar.
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Num sábado, andávamos na Yonge Street e os sem-teto distribuiam-se regularmente, um a cada esquina, com seus bonés, chapéus ou outro objeto estendido sobre a calçada almejando os trocados de quem passasse. Penso que eles dormem no albergue Yonge Street Mission, na rua homônima - a concentração da rapaziada ali é acima da média de Toronto. Quase todos esses sem-teto eram homens, com idade variável, todos com mais de 30 anos - não se vê crianças mendigando ou fazendo bicos no semáforo; as instituições dão mais proteção a elas que no Brasil. Mas eu não sei o que sinto sobre isso - penso que esperava não encontrar gente em situação de rua por aqui. Como diz o Kótchki: são muitos os apelos para redução das
taxes (impostos): o neoliberalismo está chegando; lenta, pervasiva e viciosamente, como no Brasil.
Meus
chaps traziam pequenas placas pedindo esmolas. Garoava, e nenhum tinha guarda-chuva. A maioria deles mostrava pele branca e olhos azuis, em um contraste racial tão forte com a minha memória dos sem-teto no Brasil que só posso admitir o fato de que venho, sim, de um país racista (o Canadá sem dúvida vive algo mais próximo de uma democracia racial). Por sorte, aqui há mais abrigos e imagino que eles só fiquem a descoberto durante o dia - o outro lado da moeda é terem de enfrentar pelo menos umas 12 horas de frio pesado, sem marquises ou bancos (aqui também a municipalidade tem feito um ótimo trabalho com os assentos curvos em que é impossível se deitar decentemente; a neve cobre os que existem, completando a sua parte nessa tragédia mais social que física). Só as imaginações perversas da Inquisição devem ter conseguido superar, em violência, esse sofrimento de se ver a si mesmo em um dia inteiro de frio, trocados, sujeira, fome; e o pior, falta de perspectiva de sair disso tudo.
Há tantos pontos de doação de agasalhos na cidade, como é possível que se trema de frio e se viva na rua? Os torontonitas são malvados? Evidente que não; são gente amigável e pacífica nos contatos cotidianos, confirmando que a política é o embate de forças no seio do capitalismo e não do caráter dos políticos ou de seus 'representados'. Eu não queria vê-los, mas lá estavam eles, impondo-se ao meu
wishful thinking de senso comum como um tapa quente numa cara gelada. Uma cara com expressão de privilegiada que não compreende porque o mundo não foi feito à semelhança de sua mediana imaginação. É ela mesma quem compra imagens da existência de um paraíso em algum lugar distante; geralmente, mais pro Norte.
Quem imagina não fica desamparado, afinal de contas. Consideremos a vantagem significativa de que o Papai Noel mora a um paralelo de Toronto. Na noite de Natal, atolou o saco de presentes com logo do Wal Mart na chaminé da vizinha, e os simpáticos bombeiros torontonitas vieram dar uma força, antes de cantar "It´s raining men" no
gay club do Saigong Bankok, bem ali na esquina. É sério, tem mesmo um Saigon Bankon na St. Clair West, depois eu posto uma foto com o Kótchki dando tchauzinho.
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Pela loirice, eles me lembraram o Kurt Cobain antes do Nirvana, nos seus tempos de
tramp (vadio, andarilho). Ou os fantasmas-vivos saídos da Cidade de Vidro, o primeiro conto da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster. Seriam drogadictos, alcoólatras? Por qual história filha-da-puta abandonaram suas cidades pra jazer ali? Senti quase hostilidade por estarem na rua quando eu, sim, vadiava a gosto; e logo atingi certo estado indefinido de angústia aniquiladora de qualquer reflexão, pela pura e simples inutilidade do processo reflexivo. Para lembrar o fatalismo latino-americano, vem a dar na mesma: angustiada ou não, eu compro o meu tablet; o rapaz da Yonge Street treme de frio.
Mas nesta noite, eu não terei pesadelos, pois não hei de dormir.
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Um deles, o mais parecido com o Kurt, tremia convulsivamente, como certo senhor que eu vira no parque semanas atrás. Caro leitor, peço-lhe que imagine a chuva molhando seu corpo (se cai chuva e não neve, é porque a temperatura tá positiva, obviamente), e depois, com a queda de temperatura no início a noite (às 5 da tarde), imagine a água congelando sobre o seu corpo.
Passou pela minha cabeça perguntar-lhe porque ele não saía dali, embora me desse conta da idiotice embutida na coisa. Não há saída de um céu tão opaco, sob o qual eles precisam ficar da manhã à noite, como o Orwell do "Down and out in Paris and London", esse grande clássico da trampagem, que te coloca junto com o autor-sem-teto em um tempo vazio, cheio de dores intensas o suficiente para aniquilar sua vontade, seu amor-próprio, seu sentido de futuro e sua serena avaliação do passado. E uma pessoa sem vontade, amor-próprio, futuro ou passado já está deixando de ser uma pessoa para se tornar um cadáver.
Lembrei-me do Orwell também por causa dos avisos nos metrôs daqui: algo como "loitering is forbidden" ("proibido vadiagem"). O bonequinho que representa a ação tem os braços cruzados sobre o peito enquanto olha para mim - mas, inocente, ainda não sei quanto tempo de braços cruzados no metrô conta como crime de vadiagem. Por via das dúvidas, ninguém vadia no metrô; você só pode fazê-lo na rua, provavelmente porque o frio já é castigo suficiente - logo, a força policial não se faz necessária. Eu não sei se o
flâneur Baudelaire vadiava no inverno, mas acho que em Paris era possível vadiar em qualquer lugar, pois o Orwell sentiu falta de lá quando caiu na severidade do anti-loitering londrino. Ele nunca podia dormir duas noites seguidas no mesmo abrigo - ou seja, não podia parar (como o bonequinho do
loitering); tinha que rodar (
tramp) na direção do próximo ponto.
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O jovem da Yonge tem a angústia estampada no rosto. Dentro das livrarias, centenas de consumidores circulam; gente entrando, saindo, passando, e ele treme enquanto escrevo todos esses verbos. Vejo também outro homem, mais velho e pobremente vestido, lendo revistas sentado no chão da livraria Indigo. Para quem gosta de Pollyana e quer fazer o jogo do contente, dois pontos: 1) ele sabia ler; 2) ninguém o mandou sair da loja. Mas acho que não há livrarias suficientes em Toronto - mesmo as 50 bibliotecas públicas não vão dar pra receber todos eles. Por sorte, todas as casas têm chaminé, e aí o Papai Noel pode continuar atolando-se à vontade.
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Essa sou eu, dando tchauzinho dentro do meu abrigo (imaginário?) |