domingo, 16 de março de 2025

Loucura derretida. Episódio 2: Odisseia baiana

 
Não adquiri novos truques de direção, nem mesmo me tornei excepcionalmente capaz de aguentar o volante por um longo tempo de viagem, pois eu e o Edu revezávamos sempre que batia o cansaço. A Bahia é uma gigante, e atravessá-la no tempo das mulas devia ser feito digno das epopeias...
 A memória dessa travessia, pelo menos do oeste do Estado até Feira de Santana, foi a de uma interminável pista simples, sinuosa, traçada entre pequenos vales e morros que nos forçavam a manter a atenção, como que para remendar o tédio ao cortar enormes vazios populacionais. 
Um enorme vazio de gente repleto de vida de outros tipos. 
Na região da Chapada Diamantina, bonitos fragmentos de mata mais ou menos virgem abria um caminho entre plantações meio desencorajadas, um pouco tímidas, com raras cidades, que compõem agora a minha imagem do interiorzão da Bahia. 
Vibrando e esperançando com a totalização dos votos para presidente em 2022, eu idealizava a Bahia como o verdadeiro mar de gente que se vê no Carnaval de Salvador. Talvez, grandes grupos de capoeiristas em guerra contra o fascismo. 
Mas a Bahia que eu agora vi é mais a de Torto Arado do que de Capitães de Areia. Ou a Baía de Canudos, da Revolta dos Malês. De Tereza Batista. Terra de insurretos, mas que agora apareceu-me apenas como uma sequência de borrões verdes, carros à frente e atrás, postos de gasolina malcheirosos, povoados com pequenos centros históricos mais portugueses do que Portugal talvez se saiba. Paramos em Brumado para o almoço: a atmosfera é idêntica à das cidades históricas mineiras.
Não sei se a ideia de extrema pobreza se aplica aqui. Pelo menos não como me represento esse conceito, seja pelas vidas secas de Graciliano Ramos, seja pelas vidas poluídas dos bolsões de miséria do ABC paulista (meu tio morava em São Bernardo do Campo. O caminho para a casa dele abria-se em meio a Diadema, Heliópolis e as favelas construídas sobre morros gigantes de habitações precárias; os tijolos expostos rivalizavam com o gigantismo dos arranha-céus, parecendo dizer-lhes: "nós sim desafiamos a gravidade. Construímos para vocês com o sólido concreto e o bloco bem assentado, depois voltamos para nossas casas de madeira, zinco e plástico que não é briga nem contra a violência da chuva, nem a do Estado.."). 
Nesses povoados e habitações na beira de estrada, alguns talvez sejam de pau a pique, mas há os raros barracos abandonados, talvez como um sinal de esperança de que a vida de alguém tenha melhorado o suficiente para ele se tornar desnecessário. 
Fomos premiados com um alívio cômico ao final do interminável segundo dia de jornada: em uma das pequenas cadeias montanhosas da zona rural de Itatim, em certa zona de tráfego intenso, vimos uma enorme pedra em formato de pênis. Imagens não faltam na internet: o nome é Pedra do Constrangimento. 
A injustiçada formação geológica só pode ter sido batizada por políticos cristãos: o povo baiano tem, certamente, apelidos muito mais criativos e sem censura.
Foi, pois, em estado de "ereção cósmica" - como diria minha professora de antropologia, Salete Alberti - e enervado cansaço que conseguimos descansar os ossos em um hotelzinho bastante decente de Feira de Santana. Sonhando uma Bahia que tenha muita, mas muita gente para 2026...
Pedra do Constrangimento, Itatim, BA
Pedra do Constrangimento, Itatim, BA


Rio São Francisco, na altura de Bom Jesus da Lapa




sábado, 8 de março de 2025

Loucura derretida. Episódio 1: o amigo do Raul

Minha autoimagem é de uma pessoa quadrada, monótona, que não faz nada de errado nem sabe dar jeitinho em coisa alguma. Mas certamente tenho minhas pequenas loucuras: vir para Natal desde Goiânia de carro, tendo por objetivo principal servir-me da cachorrinha e do carro para este pós-doc, foi a mais recente. E também a primeira experiência do gênero, já que não curto dirigir e tenho medo de estradas desconhecidas. Medo e curiosidade, na minha psicologia particular, são um par sempre às turras um com o outro - e a curiosidade venceu, junto com a avaliação da razoabilidade desta pequena loucura. Em mim, a razão sempre vence...
Meio que enlouqueço o pobre Edu, com microataques de pânico até a partida, que perduram até o segundo dia de viagem. Dividimos os 2638 km em 4 parcelas: dia 1: até o oeste da Bahia; 2: até Feira de Santana; 3: até Maceió; 4: até a almejada Natal.
As surpresas foram diversas das que me atemorizavam: pneus exemplarmente cheios, nenhuma multa, acidente, ou erro no Google Maps. O mapa físico que comprei para alguma contingência inesperada agora é peça do museu doméstico, junto com o aparelho de DVD e o gravador de fitas K-7. Bem está o que bem acaba, ou o que começa deixando memórias tão fortes, embora, no fundo, nada loucas.
Reavalio minha classificação de loucuras. Classe média não faz loucuras: loucura seria cruzar o Brasil no pau-de-arara, com crianças, a pé ou de bicicleta; migrar sem local ou objetivo definido, como meu bisavô Frederico (que caiu no mundo até, ao que parece, chegar à mendicância), não esta minha, a de fazer centenas de km em uma SUV seminova, com bolsa térmica forrada de gelo falso que refresca água verdadeira.
Fico tentada a dizer que as loucuras ficaram do lado de fora, nos lugares por onde passamos: nos sinais de eras passadas, nos cavalos que são meio de transporte DE VERDADE (especialmente na Bahia e no Sergipe); nos sinais de pobreza sem esperança de melhora, dos vilarejos cercados por centenas de quilômetros de terras sem intervenção humana (e também, sem empregos visíveis), feitos de ruas tão destruídas que fica difícil saber se, para atrapalhar o trânsito, alguém abandonou pedras na rua de areia, ou se simplesmente a rua era calçada com pedras que foram desaparecendo, até que o buraco predominasse; nos vilarejos com uma praça central onde jovens e velhos fazem footing desviando da bosta de cachorro, ao longo do principal rio da região (um triste, fedorento esgoto), e onde se vê, ao fundo, um tanto quanto deslocada, uma bela ponte que deve datar dos governos Lula I ou II.
Rumo à bela cidade que seria nosso destino final, passamos por lugares onde poucos vão voluntariamente, como esta cidadezinha baiana que se preparava para um alegre carnaval. O Google Maps continuava nos mandando para a rua principal, toda ela interditada para os foliões, e pela qual só passamos após explicar aos servidores que éramos viajantes e não havia outro meio de chegar ao hotel.
Uma pessoa que eu quis conhecer, mas não pude, era um artista hippie expunha seu artesanato em uma kombi aberta, tocando Raul Seixas em volume muito alto. Ele sorria. Nem parecia querer outra vida. Ouro de verdade também é Ouro de tolo, o velho Raul poderia dizer. Entre a SUV e a velha kombi, quem seria o insano?
Repensando as cenas daquele dia, penso qu não há loucura alguma em viver nas ruas indecisas entre a pedra e o buraco. Viver um romance na orla do esgotão pode ser tão lindo quanto no Hudson River Park; e a humanidade andou a cavalo por muitos milênios mais do que em carros seminovos.
Viajar foi sempre um meio de me conhecer, e (re)descubro, conformada, que isso jamais vai se concluir. Enquanto eu não descobrir, como os amigos do Raul, qual o sentido da vida, partes de mim espalhadas em todos esse mundo desconhecido, prossigo, dividida entre o Corcel 73 e a pipoca dos macacos.










Foto: Eduardo Carli

terça-feira, 16 de junho de 2015

Meu miniconto publicado: "Paralisia"


Leiam-no na Revista Literária Benfazeja



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Minha espera chega ao fim. Somos presa e predador. Fora isso, o túnel escuro da noite infinita.

Ruído de tranca se abrindo, o predador saía. Minutos depois, voltava. Teria encontrado outra vítima em seu perambular? Se me encolhesse no mais absoluto silêncio e escuridão, talvez ele se contentasse com um golpe, ou um cagalhão pelo caminho (apenas para registrar passagem, depositar sua merda no seu território). Mas se ele já estiver faminto, pequenas alegrias não lhe servem. Presa, eu já não discernia a segunda do sábado, reclusa na cela, de cujo exterior conhecia tão pouco; trilhas nas quais minha imaginação teimava em caminhar, percebendo que os pés já não costumavam ir longe, próximos da cerca imaginária tão impossível de pular como uma ordem de execução do Juízo Final. Eu nunca o vi matar, mas sei que morrerei – e, a primeira de suas presas, vejo sua falta de habilidade: lentidão, excesso de golpes, mordidas e arranhões a esmo, qual filhote de leão ainda brincando com filhote de zebra. Também sou inexperiente em morrer, penso eu. Tenho tentado fazer minha parte, mas é difícil esquecer o pânico, me mexer um pouco que seja. Eu estou nele, ele está em mim. Logo, só eu estarei nele, e um pouco mais tarde, não existirei mesmo dentro dessa forma tão abjeta.

Em outros casos, uma blasfêmia poderia acelerar a execução: grito que Deus não existe, que a Bíblia é um livro de maldades, e ele acabaria com isso – mas ele já não consegue fingir que se importe com essas coisas. Vive por meio da crença em sua força e direito; eu, da fé na sua ferocidade. Quase morta, eu não existia por mim mesma, mas só por meio dele, como seu destino e presa. Grande como é, ele exercerá sua vez na cadeia alimentar ainda muitas vezes; eu não tinha tempo para conjeturas, verdades, explicações, pois estava prestes a cumprir o nosso acordo darwiniano; pacto de sangue, inscrito em minha genética como objetivo da genética dele; acordo mais sagrado que todas as leis criadas por todos os homens. Tão natural quanto racional, esse pacto adivinha-se nos seus vis olhos triunfantes, que eu vejo embaçados pelas muitas lágrimas que trocamos. Quem sabe, a piedade não lhe entrou no coração? Quem sabe, ele não cai morto por um raio ou pela lepra? Quem sabe, o Exército Vermelho não entra triunfante, como se esse lugar fosse Berlim, 1945? Quem sabe, o Papa não telegrafa para Ele, pedindo Paz na linguagem dos lobos? Quem sabe, eu receba clemência do governador do Arkansas, que nem vive a tantos zeros longe de nós? Nas peças antigas, eu poderia dizer minha última fala ou fazer o meu último gesto, e o Deus Ex Machina sairia de seu andaime com asinhas de papel, antes que o pano descesse e o suave sono voltasse às minhas pálpebras alarmadas pelo ir-e-vir do predador nesta noite (in)comum.

Mas predador que se preza não gosta de filmes ou peças: na sua ignorância animal, elas são representadas apenas pessoas da espécie inimiga, seres estranhos fingindo ser o que não eram. Ele pensava ser o que era, mas às vezes eu sentia que ele também representava, mostrando os dentes como quem imitasse os cavalos ariscos familiares à sua infância. Como prezar um mundo de fantasia à margem da densa crueldade? Ou mesmo dos monstros diabólicos, da negação do prazer suave pela utilidade bruta; do trânsito incessante de um quarto para o outro em busca de saciar o estômago antes de um sono pesado e sem imagens? Não foi frequente, mas cheguei a intuir uma vaga esperança: a de conversão de presa em parceira de suas peregrinações – e aí, nos associaríamos em cooperação ou simbiose (um cúmplice, um lambe-botas, um assecla, um filhote de predador, talvez). Mas seria tão impossível quanto pedir à jararaca que se amigasse ao rato. Somos de espécies inimigas, e nossa mistura seria uma aberração.

Prezamos a ordem das coisas mais do que nossas individualidades em particular. Arrepiam-lhe os pelos, que parecem intensificar o cheiro de meu temor, que, por sua vez, eriçam-no ainda mais. Esta é a minha hora (e nem um lambari frente a um cardume de tubarões temeria tanto); sei quando ele dá outros dois passos em minha direção. Lá fora, a noite escura apita forte, no ultrassom mais agudo que todos os agudos perceptíveis pela minha espécie: era o Nada (o túnel escuro da noite infinita? O deus da Morte nos subúrbios do meu coração? Meu pensamento continua apalpando as paredes dessa cela, à cata do tijolo podre pelo qual sairá, liberto dessa carne condenada. Tendo à grandiloquência, talvez apenas porque Ele, o Predador, tenha a mente selvagem demais para compreendê-la, satisfeito com a efêmera orgia do sangue ainda circulante em minhas veias.

Se Ele não se saciar... a fome voltará, e são três as opções: A) morto o apetite dele, eu estarei por aqui, cadáver exposto aos urubus que terminarão o serviço começado; B) apenas um de meus braços ou pernas servirão por hoje. Mas, amanhã, voltaremos à opção A; C) hoje ele me devora completamente.

Não imaginem que desisto: gritarei, mas será inútil; não há Salvador: só as doze crianças e o atirador de Realengo; Marion Crane e Norman Bates, Jesus e os centuriões; 6 milhões de judeus e Hitler. No ínfimo instante desse relato, ali sempre estará Ele. E ali também os seus ossos, que são da cor dos meus; os seus dentes de fera falsamente ultrajada, como se fosse eu o cordeiro que lhe suja o córrego das veias profundas e não ele que me contaminará com sua mordida. Eu lutarei, mas não conseguirei rompê-las, e, prazeroso, ele lamberá as feridas dessa batalha quase cômica na sua pequenez e banalidade.

Não sei se somos macho ou fêmea, mas isso não importa, pois se trata de carne. Seu andar pesa como o seu porte e vejo até cabelos entre os seus artelhos onde caem gotas de baba. Mas só vejo o túnel escuro da noite infinita, com mais vácuo do que planetas onde morar e presas para se comer. Ele está a dois míseros passos de mim.

Minha última esperança lança um olhar para a porta; e, custando a desarmar-se, convida-o timidamente para brincar. Seus olhos não me sorriem – antes, debocham. Não me atrevo a proferir palavra diante dos dentes que há tanto tempo roeram o osso da misericórdia. Vejo suas pupilas se dilatarem – desprezo, asco, “Venha, ser imundo, para que eu dê o bote final”.

Inútil espera, pois eu não vou até ele.

Nem volto para mim. 

Gisele Toassa
Nasceu em Bauru, coração de São Paulo. Literatura é sua paixão, mas ainda não publicou nada. Fez psicologia, fono e segue carreira acadêmica na UFG (talvez por amor à leitura ou falta de imaginação). Passou por São Paulo e Toronto, mas atracou em Goiânia. 
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

CICLISTAS, OS MUÇULMANOS DO TRÂNSITO: reflexões sobre bikes e a carrolatria




Mobilizada pelas más notícias sobre o clima, comprei a bike há mais ou menos um mês.

Não tardou que começasse a perceber a cidade de uma forma bem diferente, com novos medos, satisfações e indignações. Hoje percebo os danos da carrolatria na vida das pessoas e no espaço público. Vou explicar um pouco pra vocês.

Primeiro, as indignações. Se você, ciclista, se mantiver à esquerda, por não conseguir atravessar a rua congestionada, ou precisar virar (os motoristas mais irritáveis nunca relevam os seus motivos), muito provavelmente tomará buzinadas. Mas se andar pela direita em avenidas, em horários de pico, também tende a tomar buzinadas. Como todo signo, elas veiculam uma mensagem: "sai da frente! Foda-se! A rua é minha!". Sem escudo, você sente a buzina no seu cérebro. Em muitos casos, não tem onde se espremer, o que dá um pânico - e o pânico é totalmente contraindicado, pois o estado afetivo interfere diretamente com sua atenção e autodomínio, processos mentais fundamentais para um ciclista. Esse egocentrismo de muitos motoristas, em minha opinião, tem a ver com duas coisas:

1) o fetiche do carro: não somos nós que dominamos o carro, o carro é que nos domina. O carro te dá um acelerador fominha, feito para queimar o máximo de combustível possível. Um Celta velho dá fácil 120 km/h, mas você é obrigado a andar numa média de 40 km/h. Atrás de um ciclista, você faz 20 km/h, com sorte. Por isso, não importa tanto onde ou como o ciclista ande, mas sim que ele (in)exista - o ciclista é o muçulmano, o indesejável do trânsito, pois é a lembrança de uma era lenta que a carrolatria abomina. Embora, em muitos casos, o motorista fique muito mais tempo parado do que um ciclista - frustração contínua que também convida à braveza e à selvageria contra todos os outros seres humanos que ocupam a tua mesma avenida minúscula.

2) efeito "zip lock": dentro de um carro, sua percepção se reduz drasticamente (quando o motorista te taca a buzina, ele pode mesmo não perceber que você não tem área de escape). Fechado na sua bolha climatizada; ouvindo sua música ou falando ao celular; sentindo a ilusão do controle, o motorista-consumidor é um rei a caminho de seu palácio, para quem a feia cidade passa (deve passar) rápido. A bolha traz distrações nela mesma, o que talvez explique nossos muitos acidentes de trânsito. Mas todos sabem que distração significa colisão e o motorista não pode se dar ao luxo de olhar, parar e processar o que olha - uma vantagem inestimável de caminhar ou andar de bicicleta.

Um motorista mapeia a cidade pelos locais de estacionamento - daí que a era dos carros seja a mesma dos shoppings. Um ciclista constrói um novo mapa cognitivo da cidade. Torna-se sensível às mínimas oscilações do terreno, ao comércio local e mesmo à generosidade humana - ou à falta dela. Enquanto alguns quase batem pra te deixar passar, outros tiram fina da tua bike pela mais pura maldade. Ou por não perceberem que, ali, vai uma pessoa com tanto direito à cidade quanto eles.

Em nossa cultura, carro virou poder. Sinto um tédio imenso ao ver quanto tempo um ser humano (em particular, do sexo masculino) é capaz de falar de carros. Se você fica sem assunto com alguém, é só falar do tempo ou de carros, esses equivalentes universais. O carro atrofia a imaginação e fomenta a inveja. Quanta gente não vende as calças só para ter um? Até tua vida sexual depende dele. Como diria o Mundo Livre: sem carro, seus testículos viram um saco. Embora, com ele, você tenda à hipertensão, diabetes e obesidade pela falta de exercício - fora a preguiça, que é bem mais difícil de mensurar. E aí você vai ter que ir de carro à academia ou ao clube, pra não ganhar em gordura o que perder em saúde. Esse é um exercício socialmente aceitável, pois é pago, classe média/alta e devidamente autista - andar de bicicleta em dias da semana, na rua, é coisa de pobre.

O elemento parasítico do carro está em que, usando-o, nós consumimos a energia do planeta e não a nossa própria. Enquanto o ciclista se pergunta se tem fôlego e segurança pra ir a tal ou qual lugar, o motorista pára ao lado da bomba de gasolina e saca seu cartão mágico - ou sua arma ecocida.

Não me levem a mal. Eu tenho um carro. Ele sai da garagem umas poucas vezes por semana, quando não dá pra ser de outro jeito. Mas estou gostando um bocado de viver de bike. A bike te faz lutar incessantemente pela tua vida, já que a três por quatro você pode ir engraxar a rua ou as poderosas rodas de alguém. Faz suar muito e te expõe ao mundo - leia-se: à temperatura - real, mas, ao mesmo tempo, tem um valor ético que essas máquinas estúpidas às quais nos apegamos é incapaz de nos dar. Ainda vai chegar a hora em que os psicólogos vão usar as bikes em terapias contra o medo. Se você tiver um pouco dele, ou quiser tentar um novo modo de vida, vale a pena....

sábado, 21 de junho de 2014

Prefácio ao deus dançarino

(Ao K.)
Eu não sei dançar
Mas nalgumas noites
Tento meus passos
Alinhando a ginga
Dessas juntas quadradas

Eu não sei sorrir
Mas todos os dias
Junto meus cacos
E crispo meus dentes
Na mímica física
Dos que já pouco sentem

Eu não sei pensar
Mas todos os dias
Aperto a testa
E ponho os óculos
dando grau à loucura

Eu não sei amar
Mas todas as noites
Dôo meu corpo
Doído de estresses
Ao teu confiante sono

Eu não sei dançar
Mas todos os dias
Minhas orelhas vibram
No compasso da tua voz
De menino-homem, semideus-dançarino

Viúvo de Deus, mas amante dos sonhos
Teatro de Dioniso (Atenas, Grécia. Eu acho.)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

MIA COUTO E O SER-LEOA

IMAGINE uma ínfima aldeia de um país muito pobre, chamada Kulumani.
IMAGINE uma mulher que passou sua vida toda nessa aldeia, Mariamar.
IMAGINE que ataques de leões estão matando apenas - e tão-somente - as mulheres nessa aldeia, fazendo da irmã de Mariamar, Silência, uma das suas vítimas.

e você terá o cenário da "A confissão da leoa", do moçambicano Mia Couto, nosso compadre nos infortúnios da colonização portuguesa - autor único na fragrância animista do seu português. Para quem nunca teve o hábito de ler folclore, mas ama a mistura popular-erudito, esse livro é uma sólida introdução para o modo-de-vida, o modo-de-fala - e, mais do que tudo - para o cruzamento (fascinante, perigoso?), entre religião e costumes de uma nação escravizada até muito pouco tempo. Somos irmãos na opressão. Também somos irmãos na desigualdade e na linhagem da nossa América Latina, que, como a África, soa para mim mais feminina do que a Europa.

"Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.Ao inverso,quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar." (p.15)

das mulheres nascidas e finadas em Kulumani sobra pouco rastro, habituadas que eram ao silêncio e às sombras. "Pobre Kulumani que nunca desejou ser aldeia. Pobre de mim que nunca desejei ser nada" (p.50). Nascida em uma aldeia do interior de São Paulo que, por acaso, hoje tem 300,000 habitantes, senti em Mariamar uma verdadeira irmã espiritual. Como eu sonhava com o Príncipe Encantando, ela sonha com o caçador que, trouxera, com um olhar, a vida ao seu corpo de sombras (dei de cismar que a opressão não é preta nem branca - é apenas uma sombra que inunda nosso espírito com uma antecipação do irremovível Nada). Seu silêncio é uma percepção do feminino como infantilidade adiada, feita de esperas: espera por um homem, pelo Salvador ou por um outro ser vivo que lhe agitará o ventre, vindo por certo tempo se abrigar na sua (inviolável) sombra; três esperas tão silenciosas quanto necessárias para que a renovação dos capítulos dessa nossa trágica Comédia Humana.

Eu só faço admirar a destreza na escolha dos personagens (parece a mecânica perfeita de Ibsen); os seus nomes que rompem a fronteira do hábito para nos transportar a esse universo onde não veremos a pobreza (como falta), a doença (como atraso) ou a violência (como mal do caráter). A África de Couto é a África vivida e padecida como dores universais. Quando Arcanjo Baleiro, o caçador, junta-se ao escritor e ao administrador para matar leões em Kulumani, entra em cena também Naftalinda [!], a gorda mulher do administrador, a única que faz ouvir sua voz - tal como a Lua no céu, oprimida por astros mais significativos, mas ainda viva. Agora que aprendi a necessidade do feminismo como luta contra as pequenas e grandes guerras (desde a depilação até a ocupação da Ucrânia), posso admirar essa mulher que tenta falar pelas suas companheiras. Mia Couto é um grande feminista, por se ocupar da história dos vencidos, sejam as mulheres ou os leões: "Até que os leões inventem as suas próprias histórias,os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça." Provérbio africano - MIA COUTO, A confissão da leoa (epígrafe) – p.11.

Paralisia, mudez completa, são alguns dos sofrimentos com que a pequena Mariamar defronta-se. É um jeito de amurar-se a si mesma; sem andar ou sem falar, ela deixa de realizar atos que pouco importavam a alguém. Debaixo de sua imobilidade, há lembranças de um avô amoroso e de uma guerra sangrenta, onde os africanos foram as presas. "- Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fazem-me lembrar os soldados do exército português.
Esses portugueses tanto foram imaginados por nós que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso,fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos." (p.120)

Esse é um livro sobre morte-em-vida, vida Severina, mas também sobre um encarceramento sem paredes, o de ser-Colônia e não se governar. Os majestosos leões vão ficando à mercê dos homens, e os homens, presa dos outros homens, ficando as mulheres na última ponta da cadeia alimentar, onde viram comida - literal e metaforicamente - recebendo na cabeça e no corpo uma dominação multiplicada. Seus mortos nunca foram realmente enterrados. Sua revolta não tem espaço para crescer, pois se acostumou ao silêncio e à força: se não dão, lhes tomam. Mas os livros são aventura certa para além desse mundo restrito onde a tarefa vital é abrir as pernas e fechar os olhos, ou apenas levar água no balde, do poço à casa: 

"Kulumani e eu estávamos enfermos. E quando, dezasseis anos, me encantei pelo caçador, essa paixão não era mais que uma súplica. Eu apenas pedia socorro, em silêncio rogava que ele me salvasse dessa doença. Como antes a escrita me tinha salvado da loucura. Os livros entregavam-me vozes como se fossem sombras em pleno deserto." (p.95) 

tal como nós e os moçambicanos, Mariamar mostra que silêncio e loucura não são estranhos, mas parentes próximos. É por isso que vou colocando Mia Couto na minha prateleira de autores queridos, desdes que são curativo para a alma, e instrumento para a luta. 



quarta-feira, 5 de março de 2014

MANOEL BONFIM - Elite, parasitismo e colonização

Do livro (disponível online): "América Latina: males de origem"

[Vejam se não temos aqui o vivo retrato da elite brasileira!]

[Introduzindo a problemática do parasitismo português e espanhol, afirma Bonfim]


"Vivendo parasitariamente, uma sociedade passa a viver às custas de iniqüidades e extorsões; em vez de apurar os sentimentos de moralidade, que apertam os laços de sociabilidade, ela passa a praticar uma cultura intensiva dos sentimentos egoísticos e perversos. Os interesses coletivos, o perigo ou receio de ver escapar-se a presa podem levar os membros desses grupos parasitas a defender-se em comum, a proceder de forma a aparentar uma socialização adiantada; mas não há nisto verdadeiro progresso moral – qual consiste no horror da injustiça, independente de qualquer vantagem pessoal. Que juízo se pode fazer da beleza moral dessas almas, que passavam a existência a cortar de açoites as carnes de míseros escravos e que aceitavam como legítimo o viver do trabalho destes desgraçados, cuja vida será um martírio contínuo?!... Se as sociedades atuais se consideram como mais adiantadas e moralizadas que essas de dois ou três mil anos atrás, é certamente porque, hoje, nós nos interessamos pela sorte do ser humano, qualquer que ele seja, independente de qualquer restrição – de classe ou de nacionalidade. Hoje, existem verdadeiros sentimentos de humanidade, desconhecidos, quase, nessas épocas remotas."

"Quando começou a colonização da América, já as nações peninsulares estavam viciadas no parasitismo, e o regime estabelecido é, desde o começo, um regime preposto exclusivamente à exploração parasitária. Desde o início da colonização, o Estado só tem um objetivo: garantir o máximo de tributos e extorsões."

"Quanto a Portugal, a passagem ao sedentarismo foi mais complexa. Ele era pequeno demais para a presa que se lhe deparou; esta lhe caiu dos dentes antes que se houvesse normalizado o parasitismo sedentário. A transformação ia se fazendo, mas foi perturbada, justamente, pela desproporção entre o parasita e a vítima."

"Foi mister transcrever longamente; transcrever e repetir. Repetições propositais para deixar bem evidente o caráter da conquista portuguesa: saquear, sem nenhum outro objetivo – a rapina, a pirataria, o parasitismo
depredador."

“Para obter alguns quilogramas de ouro, os conquistadores espanhóis massacravam às vezes uma população inteira de uma cidade. Estas gentes não conheciam a piedade. Em algumas décadas despovoaram um continente. O governo estabelecido por esses homens foi conforme a sua natureza feroz de selvagens. Será preciso longos anos para que os americanos do Sul se possam erguer desse regime espantoso”. J. Novicow, La Revue, Paris, 1º junho de 1902, p.510.

A história, comenta um outro historiador, não oferece nenhum exemplo de soldados tão subitamente enriquecidos. “Assim, é natural que todas as famílias quisessem mandar representantes seus ao Novo Mundo, a recolher a sua porção do precioso metal... e as chusmas emigravam para a América. Emigravam não é o termo apropriado: corriam pressurosos à procura de tesouros, para gozá-los depois em sossego na terra pátria”.

"Despovoado e inculto o reino, miseráveis as populações, nem riqueza, nem trabalho, as minas do Brasil deram ao rei e ao povo uma fortuna que o reino lhes negava.(...) Foi sobre o ouro do Brasil que se levantou o novo trono de D. Pedro II; foi com ele que D. João V e todo o reino puderam entregar-se ao entusiasmo dessa ópera ao divino, em que se desperdiçaram os tesouros americanos (...) O quinto do ouro começou a render cerca de 12 arrobas por mês. Para que se possa avaliar a sua importância, para que ninguém se iluda
supondo que os desperdícios faustosos de D. João V traduzem um renascimento de riqueza natural do reino, poremos aqui uma nota das massas de metais e pedras preciosas que D. João V recebeu do Brasil: 130 milhões de cruzados; 100 mil moedas de ouro; 315 marcos de prata; 34 mil de ouro em barra; 700 arrobas de ouro em pó; 392 oitavas de peso e mais 40 milhões de cruzados, de valor, em diamantes. Além de tudo isto, o imposto dos quintos e o monopólio do pau-brasil rendiam anualmente para o tesouro cerca de milhão e meio de cruzados (...)"

[depois da independência do Brasil] "Agora, queriam todos parasitar diretamente do Estado"

"O importante era recolher a riqueza e digeri-la. Todo o mundo correu à obra, todas as classes se
incorporaram ao parasitismo. O Estado era parasita das colônias; a Igreja parasita direta das colônias, e parasita do Estado. Com a nobreza sucedia a mesma coisa: ou parasitava sobre o trabalho escravo, nas colônias, ou parasitava nas sinecuras e pensões. A burguesia parasitava nos monopólios, no tráfico dos negros, no comércio privilegiado. A plebe parasitava nos adros das igrejas ou nos pátios dos fidalgos"

"Traduzir é o ideal: inventar considera-se um perigo e uma inferioridade: uma obra poética é tanto mais perfeita, quanto maior número de versos contiver traduzidos de Horácio, de Ovídio."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Individualismo brasileiro e canadense: um contraponto

ANTES de vir para o Canadá, minha ideia era a de jamais aceitar sem argumentar qualquer tipo de declaração preconceituosa sobre o Brasil e os brasileiros. Também jamais cederia à perspectiva, tão comum no Brasil, de que tudo no "primeiro mundo" é melhor do que em nossa terrinha.

Quanto ao primeiro ponto, tive a boa sorte de estar em um país no qual o multicuturalismo e o respeito à diferença estão  enraizados na vida cotidiana. O local do seu nascimento importa muito pouco (com frequência, na imprensa e fora dela, você escuta a expressão "canadian" aplicada aos nascidos no Canadá ou aos que o adotam). É de estranhar que o Canadá tenha milhares de quilômetros de fronteira com o país mais xenófobo do mundo; e mais: que as origens históricas de ambos sejam tão semelhantes. Meu palpite é de que os ingleses adeptos das seitas fanáticas expulsas da Inglaterra foram os que deram origem aos EUA, no qual infelizmente temos nos espelhado, ao invés de aprender um pouco com os vizinhos mais ao norte.

Um exemplo dessa diferença vem desde a época em que Billie Holiday, a diva negra estadounidense, esteve  no Canadá e se espantou com a possibilidade de ser servida igualitariamente em um espaço frequentado por negros e brancos. O país recebeu muita população negra dos EUA que veio em busca de uma vida melhor, impossível no vizinho sulista. Confesso ter sentido espanto e vergonha ao constatar que, na York University, bastante elitista (pública, mas paga), haja  mais pessoas de pele escura do que na UFG ou na USP (embora no Brasil a população afrodescendente seja bem maior), bem como perceber a quantidade significativa de jovens muçulmanas que circula com os véus de sua religião, sem causar celeuma nos corredores (bem, certamente há tensões religiosas, mas elas são bem mais pontuais do que no EUA e Europa. Cito o caso de um jovem muçulmano que requisitou não fazer trabalhos em grupo com garotas. A permissão foi negada pelo professor, mas a York - pautando-se nas leis de Ontário - recomendou a ele o acolhimento dessa demanda, o que gerou uma chuva de manifestações indignadas de pais de garotas, dizendo que jamais mandariam suas filhas para a York).

Passado o primeiro tópico, vem o segundo, bem mais doloroso. Lentamente, ao longo desses dois meses, admiti: quase tudo aqui é  melhor do que no Brasil. Mas essa verdade precisa deixar de ser tratada como jargão - que se ouve tanto da elite que nos governa - pois isso só aprofunda nosso fatalismo e senso de inferioridade. Não nos auxilia a crescer como nação. Se há diferenças qualitativas, é preciso explicá-las com cuidado. Passo a alguns pensamentos aleatórios, pautados nas minhas vivências, sobre um tema crítico: o Canadá é um país do centro do capitalismo - burguês, individualista, laissez faire, correto?

Sim, é uma sociedade individualista e laissez-faire. Por exemplo: as universidades incentivam bastante a competição entre os alunos por meio dos mais diversos prêmios, em todas as áreas do conhecimento. Então, qual é a diferença com relação ao Brasil - individualista, também?

A diferença abissal está em que o individualismo canadense está mergulhado em um senso de comunidade ampliada, e o brasileiro, não. É esse senso de comunidade (de pertencimento a um todo maior, a um país marcado pelo respeito à diferença e pela justiça social), fomentado tanto pela educação básica quanto pela socialização cotidiana, o segredo da tão sonhada 'civilização'. Esse senso faz a alteridade emergir detrás das barreiras da classe social ou origem étnica e impede as pessoas de perturbarem os vizinhos com música alta, discriminar gente mais pobre ou escura, cortar filas, jogar lixo no chão, arrancar até o último centavo do turista que veio conhecer a natureza e a cultura do país. Esse senso de comunidade é em grande medida responsável pelo que, abstratamente, a Veja chama de 'civilização' - como diria Espinosa, um país é forte por ter uma sociedade forte, não pela violência de seu Estado (de fato, o conceito hobesiano de Estado parece se aplicar ao estado brasileiro - a presença do Estado aqui não é ostensiva, mas discreta). O individualismo é arrefecido - e de certa forma, orientado - por um senso de comunidade que as elites e a mídia tupiniquim (tão viajadas, mas tão seletivas nas suas pautas) fingem que não percebem.

Esse senso de comunidade é o contraponto do laissez-faire, contraponto tão indesejável para quem nos governa. A imitação das ideias liberais gestadas no centro do capitalismo pelas elites do Brasil pegou apenas o 'individualismo empreendedor' como referência. E o adaptou ao contexto de uma sociedade que sempre acreditou na inferioridade biológica da sua população mestiça, qualquer que fosse a ideia importada que estivesse na moda. Essa crença organiza as nossas relações sociais e institucionais, fazendo com que muitas pessoas neguem sua própria mestiçagem como modo de se afirmar mais próximas da 'civilização' - civilização essa que (ao menos aqui no Canadá) é mais mestiça do que nunca, e não sofre de uma gota sequer da baixa autoestima do brasileiro.

O nosso Estado é corrupto, predatório? Mas fomos nós o construímos,  isso é culpa nossa? E dou uma resposta sartreana: seja a nossa herança igualitária ou não, agora somos responsáveis pelo que fazemos com ela. Nem que, para isso, tenhamos que criar uma revolução e pôr esse Estado abaixo, reconstruindo nossa identidade e o nosso senso de pertencer a um todo maior; em outras palavras: criando um real senso de comunidade. Precisamos fazer isso sem nos refugiarmos na religião como forma de defesa contra o individualismo oportunista, selvagem, agressivo, antissocial - justamente porque desenfreado - que nossas elites criaram e o povo imita. Nada contra as religiões em geral (o Canadá é prova de que é possível a várias delas coexistirem em relativa paz), mas ela se aplica a uma comunidade restrita de pessoas. Para criar outra sociedade, precisamos de algo mais universal.

A reação contra esse individualismo desenfreado (e até sua afirmação; tudo anda tão confuso no Brasil!) talvez esteja na origem da indignação contra o Estado (e na violência) exercida por uma população que não sabe o que ela é, nem para onde pode ir - mas já tem consciência de que as coisas poderiam ser melhores. Está, finalmente, nascendo no Brasil um senso de comunidade e justiça social que as elites nunca trouxeram em suas grandes malas, nas quais só há espaço para uísque, jóias e eletrônicos?

PS: falaciosa a noção de Contardo Calligaris, de que 'o indivíduo burguês transmite aos seus descendentes apenas o compromisso de continuar a busca pelo dinheiro e sucesso'. O autor fala apenas das elites que ele atende (ou talvez sobre a estadounidense), mas não da noção de indivíduo que está arraigada aqui no Canadá, por exemplo. Há que se fazer mais comparação de culturas.



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Black Venus: a ferida exposta do racismo 'civilizado'

Muitos filmes já me incomodaram. A maioria na juventude, quando a novidade nos apanha facilmente - seja por meio de um final inusitado, do desafio às nossas crenças fundamentais, a sexualidade exposta nos seus aspectos menos compreensíveis e tantos outros mistérios deste mundo opaco que constitui a vida cotidiana. Foi assim com "A lista de Schindler", "Ken Park" e "Os Outros". E talvez, com alguns filmes violentos que não me ocorrem agora. Mas a verdade do cinema certamente transcende o abuso dos artifícios que encantam James Cameron e Mel Gibson, vivendo em paralelo com o velho conceito de Kafka: a verdadeira arte é a que incomoda e faz sofrer. Um sofrimento que não se destina aos adeptos das práticas sexuais de Leopold von Sacher-Masoch; não é para masoquistas que gozam de sua controlada [e portanto, mais ou menos previsível] dor celebrada na alcova. É o sofrimento de uma obra de Kafka, repleta de abusos políticos que exemplificam o sofrimento de um coletivo por meio de certo indivíduo que, espremido entre as muralhas de sua própria identidade, percebe seu futuro comprometido por um nascimento deslocado de tempo e lugar.

Isso talvez torne ainda mais significativo o meu desconforto com "Black Venus" (2010) de Abdellatif Kechiche, o mesmo diretor de "Blue is the Warmest Colour" (2013), vencedor da Palma de Ouro deste ano. Linda história de amor entre duas meninas, este tremendo filme já tinha me posto em desassossego com sua estética realista - queridos leitores, eu sou analfabeta no que se refere à análise técnica do cinema, mas consigo perceber que ali tem alguma coisa estranha, distinta das convenções cinematográficas mais recentes, um catalisador de reações mais extremas do que a média da sétima arte. As cenas de sexo 'de verdade' entre as atrizes são passionais e longas 'demais'. Assim é com as cenas de humilhação 'de verdade' infligidas a Sarah Baartman, personagem de uma história real que se tornou essa história inventada. O que aprofunda a nossa dor é, provavelmente, imaginar que tamanha série de indignidades foram infligidas publicamente a um ser humano no coração de uma civilização - Londres, Paris - tão arrogante na defesa de seus valores e sua supremacia, tão eficiente na arte de nos fazer crer na nossa própria inferioridade e na superioridade do que ela chama de 'cultura erudita' e 'ciência'.

Mais do que um debate pontual sobre direitos humanos, o filme vira de trás-para-diante qualquer debate tradicional sobre cultura, barbárie, civilização, selvageria, ou todas essas categorias falidas da sociologia na qual temos atrelado as desculpas pela nossa incapacidade de imaginar uma melhor sociedade. Afinal, somos e sempre seremos 'atrasados' em um contexto global, mimetizando esse ouro de tolo que é a deferência ao mundo 'branco', 'cultivado' e feliz da metrópole capitalista - psiquicamente herdado pela burguesia que nos parasita há 500 anos, e no qual aprendemos a nos conhecer e nos (des)conhecer. A incapacidade de lidar com o estranho não é, certamente, exclusividade do século XIX.

Sarah é uma jovem negra sul-africana que, aos 25 anos, foi levada pelo seu patrão para Londres, onde (contra a promessa inicial de que ela iria cantar, dançar etc) é exibida em uma jaula, fustigada com um chicote, beliscada na bunda pela plateia puritana do período vitoriano. O espetáculo consiste em tratá-la como um animal adestrado, que, no entanto, continua a oferecer certo grau de perigo. O nosso incômodo talvez venha de que Kechiche nos rebaixe à condição de espectadores impotentes das longas cenas de humilhação da jovem, de cujo rosto jamais escapa um sorriso. Sarah pede para que isso mude, mas sofre violência física e verbal. Chora frente ao público, e é reprochada por deixar vazar o sofrimento que atravessa o seu ser. O artifício de seus exploradores consiste em apresentar-se como vítima da jovem, também 'alugada' para relações sexuais e exibições de seu corpo, amplo e obeso, que causa tanto espanto naquele mundo branco. Após seu protesto inútil, vem a resignação e Sarah afunda no alcoolismo, com o pronto incentivo do patrão - qualquer semelhança com a epidemia de drogas nos bairros negros dos EUA não é mera coincidência: resposta covarde aos movimentos negros que se organizavam nos anos 1970.

O choro de Sarah mobiliza parte da plateia e o caso vai parar num tribunal, no qual, sem abordagem adequada, ela se comporta como quase toda vítima: defende seus agressores. É quando a pequena trupe muda-se para Paris, onde, cinco anos depois, se repetem as cenas - profundamente inquietantes, horrendas na sua banalidade - do 'espetáculo' "Venus Hotentot". Sarah passa quase todo o filme nua ou seminua, para o prazer ou a curiosidade particularmente dos homens, mas também das mulheres, que deixam suas exibições de violino para vê-la urrar como um animal. O aspecto perverso de sua dor talvez consista em que ela não pode ser, por completo, um 'objeto' (esquecendo-se nos vapores do álcool que se tornam seu consolo), mas deve 'encenar', para o prazeroso 'reconhecimento' da plateia. Talvez não custe lembrar que livros de antropologia sobre os 'selvagens' tinham enormes tiragens no século XIX: os civilizados queriam não só explorar, mas ver; ter a certeza de que, em suas colônias tão distantes, eles não faziam nada pior do que já faziam com seus animais, sacrificados para usufruto de um coletivo humano que acreditava sinceramente no caráter 'elevado' de suas ideias e práticas sociais. A maior força do filme de Kechiche talvez esteja em mostrar a cegueira, o auto-engano e a violência dessa cultura que negou a todas as demais o direito à vida e à busca por uma forma própria de metabolismo com a natureza.

Muito bem, depois de sofrer por mais de uma hora, vem à cena o Dr. Georges Cuvier, médico celebradíssimo em sua época. Ele paga ao 'senhor' da Venus Hotentote para poder examiná-la. Sarah é forçada a ir ao luxuoso prédio do ilustre doutor [sim, diz o seu amo, é uma honra que esses homens tão importantes se interessem por você. Sim, meus amigos, é uma honra que a Copa seja sediada no Brasil!], que tira medidas de seu corpo, comprovando, sem sombra de dúvida, que ela se assemelha a um orangotango. Má ciência, má política, má arte: é o retrato de uma Europa perversa que esse maravilhoso filme nos oferece, como uma frágil máscara prontamente quebrada pelo simples encontro com o Estranho.

Esse filme, tão fantástico para uma reflexão nos mais diversos campos das ciências humanas, talvez também mude a sua vida. Depois de vê-lo, depois de tudo que anda acontecendo no Brasil, sei que quero estudar o racismo e também repensar ideias velhas que trazemos na psicologia, sobre o que é a cultura e de que modo uma cultura é também 'metacultura' - ou seja, uma 'cultura sobre a cultura'. Será que não conseguimos nos livrar desse crônico servilismo a ideias racistas que atravessam nossas relações cotidianas e leva nossa juventude negra a ser assassinada ainda hoje? Será que não?




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Proibido vadiar no metrô

ENTÃO, eu sempre sinto esse desamparo frente aos homeless guys. Artistas ou cientistas; brancos ou pretos; brasileiros ou estrangeiros; amigáveis ou detestáveis; jovens ou velhos, são categorias que, em seus pares contrastivos, são infinitamente mais estranhas pra mim do que a dos sem-tetoEsses sim são meus chaps, já que, por motivos biográficos bastante sem-graça, eu tenho uma média de quatro pesadelos semanais com o mesmo tema: de repente, não tenho mais onde morar.
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Num sábado, andávamos na Yonge Street e os sem-teto distribuiam-se regularmente, um a cada esquina, com seus bonés, chapéus ou outro objeto estendido sobre a calçada almejando os trocados de quem passasse. Penso que eles dormem no albergue Yonge Street Mission, na rua homônima - a concentração da rapaziada ali é acima da média de Toronto. Quase todos esses sem-teto eram homens, com idade variável, todos com mais de 30 anos - não se vê crianças mendigando ou fazendo bicos no semáforo; as instituições dão mais proteção a elas que no Brasil. Mas eu não sei o que sinto sobre isso - penso que esperava não encontrar gente em situação de rua por aqui. Como diz o Kótchki: são muitos os apelos para redução das taxes (impostos): o neoliberalismo está chegando; lenta, pervasiva e viciosamente, como no Brasil.

Meus chaps traziam pequenas placas pedindo esmolas. Garoava, e nenhum tinha guarda-chuva. A maioria deles mostrava pele branca e olhos azuis, em um contraste racial tão forte com a minha memória dos sem-teto no Brasil que só posso admitir o fato de que venho, sim, de um país racista (o Canadá sem dúvida vive algo mais próximo de uma democracia racial). Por sorte, aqui há mais abrigos e imagino que eles só fiquem a descoberto durante o dia - o outro lado da moeda é terem de enfrentar pelo menos umas 12 horas de frio pesado, sem marquises ou bancos (aqui também a municipalidade tem feito um ótimo trabalho com os assentos curvos em que é impossível se deitar decentemente; a neve cobre os que existem, completando a sua parte nessa tragédia mais social que física). Só as imaginações perversas da Inquisição devem ter conseguido superar, em violência, esse sofrimento de se ver a si mesmo em um dia inteiro de frio, trocados, sujeira, fome; e o pior, falta de perspectiva de sair disso tudo.

Há tantos pontos de doação de agasalhos na cidade, como é possível que se trema de frio e se viva na rua? Os torontonitas são malvados? Evidente que não; são gente amigável e pacífica nos contatos cotidianos, confirmando que a política é o embate de forças no seio do capitalismo e não do caráter dos políticos ou de seus 'representados'. Eu não queria vê-los, mas lá estavam eles, impondo-se ao meu wishful thinking de senso comum como um tapa quente numa cara gelada. Uma cara com expressão de privilegiada que não compreende porque o mundo não foi feito à semelhança de sua mediana imaginação. É ela mesma quem compra imagens da existência de um paraíso em algum lugar distante; geralmente, mais pro Norte.

Quem imagina não fica desamparado, afinal de contas. Consideremos a vantagem significativa de que o Papai Noel mora a um paralelo de Toronto. Na noite de Natal, atolou o saco de presentes com logo do Wal Mart na chaminé da vizinha, e os simpáticos bombeiros torontonitas vieram dar uma força, antes de cantar "It´s raining men" no gay club do Saigong Bankok, bem ali na esquina. É sério, tem mesmo um Saigon Bankon na St. Clair West, depois eu posto uma foto com o Kótchki dando tchauzinho.
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Pela loirice, eles me lembraram o Kurt Cobain antes do Nirvana, nos seus tempos de tramp (vadio, andarilho). Ou os fantasmas-vivos saídos da Cidade de Vidro, o primeiro conto da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster. Seriam drogadictos, alcoólatras? Por qual história filha-da-puta abandonaram suas cidades pra jazer ali? Senti quase hostilidade por estarem na rua quando eu, sim, vadiava a gosto; e logo atingi certo estado indefinido de angústia aniquiladora de qualquer reflexão, pela pura e simples inutilidade do processo reflexivo. Para lembrar o fatalismo latino-americano, vem a dar na mesma: angustiada ou não, eu compro o meu tablet; o rapaz da Yonge Street treme de frio.

Mas nesta noite, eu não terei pesadelos, pois não hei de dormir.
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Um deles, o mais parecido com o Kurt, tremia convulsivamente, como certo senhor que eu vira no parque semanas atrás. Caro leitor, peço-lhe que imagine a chuva molhando seu corpo (se cai chuva e não neve, é porque a temperatura tá positiva, obviamente), e depois, com a queda de temperatura no início a noite (às 5 da tarde), imagine a água congelando sobre o seu corpo.

Passou pela minha cabeça perguntar-lhe porque ele não saía dali, embora me desse conta da idiotice embutida na coisa. Não há saída de um céu tão opaco, sob o qual eles precisam ficar da manhã à noite, como o Orwell do "Down and out in Paris and London", esse grande clássico da trampagem, que te coloca junto com o autor-sem-teto em um tempo vazio, cheio de dores intensas o suficiente para aniquilar sua vontade, seu amor-próprio, seu sentido de futuro e sua serena avaliação do passado. E uma pessoa sem vontade, amor-próprio, futuro ou passado já está deixando de ser uma pessoa para se tornar um cadáver.

Lembrei-me do Orwell também por causa dos avisos nos metrôs daqui: algo como "loitering is forbidden" ("proibido vadiagem"). O bonequinho que representa a ação tem os braços cruzados sobre o peito enquanto olha para mim - mas, inocente, ainda não sei quanto tempo de braços cruzados no metrô conta como crime de vadiagem. Por via das dúvidas, ninguém vadia no metrô; você só pode fazê-lo na rua, provavelmente porque o frio já é castigo suficiente - logo, a força policial não se faz necessária. Eu não sei se o flâneur Baudelaire vadiava no inverno, mas acho que em Paris era possível vadiar em qualquer lugar, pois o Orwell sentiu falta de lá quando caiu na severidade do anti-loitering londrino. Ele nunca podia dormir duas noites seguidas no mesmo abrigo - ou seja, não podia parar (como o bonequinho do loitering); tinha que rodar (tramp) na direção do próximo ponto.
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O jovem da Yonge tem a angústia estampada no rosto. Dentro das livrarias, centenas de consumidores circulam; gente entrando, saindo, passando, e ele treme enquanto escrevo todos esses verbos. Vejo também outro homem, mais velho e pobremente vestido, lendo revistas sentado no chão da livraria Indigo. Para quem gosta de Pollyana e quer fazer o jogo do contente, dois pontos: 1) ele sabia ler; 2) ninguém o mandou sair da loja. Mas acho que não há livrarias suficientes em Toronto - mesmo as 50 bibliotecas públicas não vão dar pra receber todos eles. Por sorte, todas as casas têm chaminé, e aí o Papai Noel pode continuar atolando-se à vontade.

Essa sou eu, dando tchauzinho dentro do meu abrigo (imaginário?)


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