ANTES de vir para o Canadá, minha ideia era a de jamais aceitar sem argumentar qualquer tipo de declaração preconceituosa sobre o Brasil e os brasileiros. Também jamais cederia à perspectiva, tão comum no Brasil, de que tudo no "primeiro mundo" é melhor do que em nossa terrinha.
Quanto ao primeiro ponto, tive a boa sorte de estar em um país no qual o multicuturalismo e o respeito à diferença estão enraizados na vida cotidiana. O local do seu nascimento importa muito pouco (com frequência, na imprensa e fora dela, você escuta a expressão "canadian" aplicada aos nascidos no Canadá ou aos que o adotam). É de estranhar que o Canadá tenha milhares de quilômetros de fronteira com o país mais xenófobo do mundo; e mais: que as origens históricas de ambos sejam tão semelhantes. Meu palpite é de que os ingleses adeptos das seitas fanáticas expulsas da Inglaterra foram os que deram origem aos EUA, no qual infelizmente temos nos espelhado, ao invés de aprender um pouco com os vizinhos mais ao norte.
Um exemplo dessa diferença vem desde a época em que Billie Holiday, a diva negra estadounidense, esteve no Canadá e se espantou com a possibilidade de ser servida igualitariamente em um espaço frequentado por negros e brancos. O país recebeu muita população negra dos EUA que veio em busca de uma vida melhor, impossível no vizinho sulista. Confesso ter sentido espanto e vergonha ao constatar que, na York University, bastante elitista (pública, mas paga), haja mais pessoas de pele escura do que na UFG ou na USP (embora no Brasil a população afrodescendente seja bem maior), bem como perceber a quantidade significativa de jovens muçulmanas que circula com os véus de sua religião, sem causar celeuma nos corredores (bem, certamente há tensões religiosas, mas elas são bem mais pontuais do que no EUA e Europa. Cito o caso de um jovem muçulmano que requisitou não fazer trabalhos em grupo com garotas. A permissão foi negada pelo professor, mas a York - pautando-se nas leis de Ontário - recomendou a ele o acolhimento dessa demanda, o que gerou uma chuva de manifestações indignadas de pais de garotas, dizendo que jamais mandariam suas filhas para a York).
Passado o primeiro tópico, vem o segundo, bem mais doloroso. Lentamente, ao longo desses dois meses, admiti: quase tudo aqui é melhor do que no Brasil. Mas essa verdade precisa deixar de ser tratada como jargão - que se ouve tanto da elite que nos governa - pois isso só aprofunda nosso fatalismo e senso de inferioridade. Não nos auxilia a crescer como nação. Se há diferenças qualitativas, é preciso explicá-las com cuidado. Passo a alguns pensamentos aleatórios, pautados nas minhas vivências, sobre um tema crítico: o Canadá é um país do centro do capitalismo - burguês, individualista, laissez faire, correto?
Sim, é uma sociedade individualista e laissez-faire. Por exemplo: as universidades incentivam bastante a competição entre os alunos por meio dos mais diversos prêmios, em todas as áreas do conhecimento. Então, qual é a diferença com relação ao Brasil - individualista, também?
A diferença abissal está em que o individualismo canadense está mergulhado em um senso de comunidade ampliada, e o brasileiro, não. É esse senso de comunidade (de pertencimento a um todo maior, a um país marcado pelo respeito à diferença e pela justiça social), fomentado tanto pela educação básica quanto pela socialização cotidiana, o segredo da tão sonhada 'civilização'. Esse senso faz a alteridade emergir detrás das barreiras da classe social ou origem étnica e impede as pessoas de perturbarem os vizinhos com música alta, discriminar gente mais pobre ou escura, cortar filas, jogar lixo no chão, arrancar até o último centavo do turista que veio conhecer a natureza e a cultura do país. Esse senso de comunidade é em grande medida responsável pelo que, abstratamente, a Veja chama de 'civilização' - como diria Espinosa, um país é forte por ter uma sociedade forte, não pela violência de seu Estado (de fato, o conceito hobesiano de Estado parece se aplicar ao estado brasileiro - a presença do Estado aqui não é ostensiva, mas discreta). O individualismo é arrefecido - e de certa forma, orientado - por um senso de comunidade que as elites e a mídia tupiniquim (tão viajadas, mas tão seletivas nas suas pautas) fingem que não percebem.
Esse senso de comunidade é o contraponto do laissez-faire, contraponto tão indesejável para quem nos governa. A imitação das ideias liberais gestadas no centro do capitalismo pelas elites do Brasil pegou apenas o 'individualismo empreendedor' como referência. E o adaptou ao contexto de uma sociedade que sempre acreditou na inferioridade biológica da sua população mestiça, qualquer que fosse a ideia importada que estivesse na moda. Essa crença organiza as nossas relações sociais e institucionais, fazendo com que muitas pessoas neguem sua própria mestiçagem como modo de se afirmar mais próximas da 'civilização' - civilização essa que (ao menos aqui no Canadá) é mais mestiça do que nunca, e não sofre de uma gota sequer da baixa autoestima do brasileiro.
O nosso Estado é corrupto, predatório? Mas fomos nós o construímos, isso é culpa nossa? E dou uma resposta sartreana: seja a nossa herança igualitária ou não, agora somos responsáveis pelo que fazemos com ela. Nem que, para isso, tenhamos que criar uma revolução e pôr esse Estado abaixo, reconstruindo nossa identidade e o nosso senso de pertencer a um todo maior; em outras palavras: criando um real senso de comunidade. Precisamos fazer isso sem nos refugiarmos na religião como forma de defesa contra o individualismo oportunista, selvagem, agressivo, antissocial - justamente porque desenfreado - que nossas elites criaram e o povo imita. Nada contra as religiões em geral (o Canadá é prova de que é possível a várias delas coexistirem em relativa paz), mas ela se aplica a uma comunidade restrita de pessoas. Para criar outra sociedade, precisamos de algo mais universal.
A reação contra esse individualismo desenfreado (e até sua afirmação; tudo anda tão confuso no Brasil!) talvez esteja na origem da indignação contra o Estado (e na violência) exercida por uma população que não sabe o que ela é, nem para onde pode ir - mas já tem consciência de que as coisas poderiam ser melhores. Está, finalmente, nascendo no Brasil um senso de comunidade e justiça social que as elites nunca trouxeram em suas grandes malas, nas quais só há espaço para uísque, jóias e eletrônicos?
PS: falaciosa a noção de Contardo Calligaris, de que 'o indivíduo burguês transmite aos seus descendentes apenas o compromisso de continuar a busca pelo dinheiro e sucesso'. O autor fala apenas das elites que ele atende (ou talvez sobre a estadounidense), mas não da noção de indivíduo que está arraigada aqui no Canadá, por exemplo. Há que se fazer mais comparação de culturas.
Psicologia, educação, política, literatura, cinema e outras idéias e opiniões que podem não ter conexão entre si. Tipo a Gisela.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Black Venus: a ferida exposta do racismo 'civilizado'
Muitos filmes já me incomodaram. A maioria na juventude, quando a novidade nos apanha facilmente - seja por meio de um final inusitado, do desafio às nossas crenças fundamentais, a sexualidade exposta nos seus aspectos menos compreensíveis e tantos outros mistérios deste mundo opaco que constitui a vida cotidiana. Foi assim com "A lista de Schindler", "Ken Park" e "Os Outros". E talvez, com alguns filmes violentos que não me ocorrem agora. Mas a verdade do cinema certamente transcende o abuso dos artifícios que encantam James Cameron e Mel Gibson, vivendo em paralelo com o velho conceito de Kafka: a verdadeira arte é a que incomoda e faz sofrer. Um sofrimento que não se destina aos adeptos das práticas sexuais de Leopold von Sacher-Masoch; não é para masoquistas que gozam de sua controlada [e portanto, mais ou menos previsível] dor celebrada na alcova. É o sofrimento de uma obra de Kafka, repleta de abusos políticos que exemplificam o sofrimento de um coletivo por meio de certo indivíduo que, espremido entre as muralhas de sua própria identidade, percebe seu futuro comprometido por um nascimento deslocado de tempo e lugar.
Isso talvez torne ainda mais significativo o meu desconforto com "Black Venus" (2010) de Abdellatif Kechiche, o mesmo diretor de "Blue is the Warmest Colour" (2013), vencedor da Palma de Ouro deste ano. Linda história de amor entre duas meninas, este tremendo filme já tinha me posto em desassossego com sua estética realista - queridos leitores, eu sou analfabeta no que se refere à análise técnica do cinema, mas consigo perceber que ali tem alguma coisa estranha, distinta das convenções cinematográficas mais recentes, um catalisador de reações mais extremas do que a média da sétima arte. As cenas de sexo 'de verdade' entre as atrizes são passionais e longas 'demais'. Assim é com as cenas de humilhação 'de verdade' infligidas a Sarah Baartman, personagem de uma história real que se tornou essa história inventada. O que aprofunda a nossa dor é, provavelmente, imaginar que tamanha série de indignidades foram infligidas publicamente a um ser humano no coração de uma civilização - Londres, Paris - tão arrogante na defesa de seus valores e sua supremacia, tão eficiente na arte de nos fazer crer na nossa própria inferioridade e na superioridade do que ela chama de 'cultura erudita' e 'ciência'.
Mais do que um debate pontual sobre direitos humanos, o filme vira de trás-para-diante qualquer debate tradicional sobre cultura, barbárie, civilização, selvageria, ou todas essas categorias falidas da sociologia na qual temos atrelado as desculpas pela nossa incapacidade de imaginar uma melhor sociedade. Afinal, somos e sempre seremos 'atrasados' em um contexto global, mimetizando esse ouro de tolo que é a deferência ao mundo 'branco', 'cultivado' e feliz da metrópole capitalista - psiquicamente herdado pela burguesia que nos parasita há 500 anos, e no qual aprendemos a nos conhecer e nos (des)conhecer. A incapacidade de lidar com o estranho não é, certamente, exclusividade do século XIX.
Sarah é uma jovem negra sul-africana que, aos 25 anos, foi levada pelo seu patrão para Londres, onde (contra a promessa inicial de que ela iria cantar, dançar etc) é exibida em uma jaula, fustigada com um chicote, beliscada na bunda pela plateia puritana do período vitoriano. O espetáculo consiste em tratá-la como um animal adestrado, que, no entanto, continua a oferecer certo grau de perigo. O nosso incômodo talvez venha de que Kechiche nos rebaixe à condição de espectadores impotentes das longas cenas de humilhação da jovem, de cujo rosto jamais escapa um sorriso. Sarah pede para que isso mude, mas sofre violência física e verbal. Chora frente ao público, e é reprochada por deixar vazar o sofrimento que atravessa o seu ser. O artifício de seus exploradores consiste em apresentar-se como vítima da jovem, também 'alugada' para relações sexuais e exibições de seu corpo, amplo e obeso, que causa tanto espanto naquele mundo branco. Após seu protesto inútil, vem a resignação e Sarah afunda no alcoolismo, com o pronto incentivo do patrão - qualquer semelhança com a epidemia de drogas nos bairros negros dos EUA não é mera coincidência: resposta covarde aos movimentos negros que se organizavam nos anos 1970.
O choro de Sarah mobiliza parte da plateia e o caso vai parar num tribunal, no qual, sem abordagem adequada, ela se comporta como quase toda vítima: defende seus agressores. É quando a pequena trupe muda-se para Paris, onde, cinco anos depois, se repetem as cenas - profundamente inquietantes, horrendas na sua banalidade - do 'espetáculo' "Venus Hotentot". Sarah passa quase todo o filme nua ou seminua, para o prazer ou a curiosidade particularmente dos homens, mas também das mulheres, que deixam suas exibições de violino para vê-la urrar como um animal. O aspecto perverso de sua dor talvez consista em que ela não pode ser, por completo, um 'objeto' (esquecendo-se nos vapores do álcool que se tornam seu consolo), mas deve 'encenar', para o prazeroso 'reconhecimento' da plateia. Talvez não custe lembrar que livros de antropologia sobre os 'selvagens' tinham enormes tiragens no século XIX: os civilizados queriam não só explorar, mas ver; ter a certeza de que, em suas colônias tão distantes, eles não faziam nada pior do que já faziam com seus animais, sacrificados para usufruto de um coletivo humano que acreditava sinceramente no caráter 'elevado' de suas ideias e práticas sociais. A maior força do filme de Kechiche talvez esteja em mostrar a cegueira, o auto-engano e a violência dessa cultura que negou a todas as demais o direito à vida e à busca por uma forma própria de metabolismo com a natureza.
Muito bem, depois de sofrer por mais de uma hora, vem à cena o Dr. Georges Cuvier, médico celebradíssimo em sua época. Ele paga ao 'senhor' da Venus Hotentote para poder examiná-la. Sarah é forçada a ir ao luxuoso prédio do ilustre doutor [sim, diz o seu amo, é uma honra que esses homens tão importantes se interessem por você. Sim, meus amigos, é uma honra que a Copa seja sediada no Brasil!], que tira medidas de seu corpo, comprovando, sem sombra de dúvida, que ela se assemelha a um orangotango. Má ciência, má política, má arte: é o retrato de uma Europa perversa que esse maravilhoso filme nos oferece, como uma frágil máscara prontamente quebrada pelo simples encontro com o Estranho.
Esse filme, tão fantástico para uma reflexão nos mais diversos campos das ciências humanas, talvez também mude a sua vida. Depois de vê-lo, depois de tudo que anda acontecendo no Brasil, sei que quero estudar o racismo e também repensar ideias velhas que trazemos na psicologia, sobre o que é a cultura e de que modo uma cultura é também 'metacultura' - ou seja, uma 'cultura sobre a cultura'. Será que não conseguimos nos livrar desse crônico servilismo a ideias racistas que atravessam nossas relações cotidianas e leva nossa juventude negra a ser assassinada ainda hoje? Será que não?
Isso talvez torne ainda mais significativo o meu desconforto com "Black Venus" (2010) de Abdellatif Kechiche, o mesmo diretor de "Blue is the Warmest Colour" (2013), vencedor da Palma de Ouro deste ano. Linda história de amor entre duas meninas, este tremendo filme já tinha me posto em desassossego com sua estética realista - queridos leitores, eu sou analfabeta no que se refere à análise técnica do cinema, mas consigo perceber que ali tem alguma coisa estranha, distinta das convenções cinematográficas mais recentes, um catalisador de reações mais extremas do que a média da sétima arte. As cenas de sexo 'de verdade' entre as atrizes são passionais e longas 'demais'. Assim é com as cenas de humilhação 'de verdade' infligidas a Sarah Baartman, personagem de uma história real que se tornou essa história inventada. O que aprofunda a nossa dor é, provavelmente, imaginar que tamanha série de indignidades foram infligidas publicamente a um ser humano no coração de uma civilização - Londres, Paris - tão arrogante na defesa de seus valores e sua supremacia, tão eficiente na arte de nos fazer crer na nossa própria inferioridade e na superioridade do que ela chama de 'cultura erudita' e 'ciência'.
Mais do que um debate pontual sobre direitos humanos, o filme vira de trás-para-diante qualquer debate tradicional sobre cultura, barbárie, civilização, selvageria, ou todas essas categorias falidas da sociologia na qual temos atrelado as desculpas pela nossa incapacidade de imaginar uma melhor sociedade. Afinal, somos e sempre seremos 'atrasados' em um contexto global, mimetizando esse ouro de tolo que é a deferência ao mundo 'branco', 'cultivado' e feliz da metrópole capitalista - psiquicamente herdado pela burguesia que nos parasita há 500 anos, e no qual aprendemos a nos conhecer e nos (des)conhecer. A incapacidade de lidar com o estranho não é, certamente, exclusividade do século XIX.
Sarah é uma jovem negra sul-africana que, aos 25 anos, foi levada pelo seu patrão para Londres, onde (contra a promessa inicial de que ela iria cantar, dançar etc) é exibida em uma jaula, fustigada com um chicote, beliscada na bunda pela plateia puritana do período vitoriano. O espetáculo consiste em tratá-la como um animal adestrado, que, no entanto, continua a oferecer certo grau de perigo. O nosso incômodo talvez venha de que Kechiche nos rebaixe à condição de espectadores impotentes das longas cenas de humilhação da jovem, de cujo rosto jamais escapa um sorriso. Sarah pede para que isso mude, mas sofre violência física e verbal. Chora frente ao público, e é reprochada por deixar vazar o sofrimento que atravessa o seu ser. O artifício de seus exploradores consiste em apresentar-se como vítima da jovem, também 'alugada' para relações sexuais e exibições de seu corpo, amplo e obeso, que causa tanto espanto naquele mundo branco. Após seu protesto inútil, vem a resignação e Sarah afunda no alcoolismo, com o pronto incentivo do patrão - qualquer semelhança com a epidemia de drogas nos bairros negros dos EUA não é mera coincidência: resposta covarde aos movimentos negros que se organizavam nos anos 1970.
O choro de Sarah mobiliza parte da plateia e o caso vai parar num tribunal, no qual, sem abordagem adequada, ela se comporta como quase toda vítima: defende seus agressores. É quando a pequena trupe muda-se para Paris, onde, cinco anos depois, se repetem as cenas - profundamente inquietantes, horrendas na sua banalidade - do 'espetáculo' "Venus Hotentot". Sarah passa quase todo o filme nua ou seminua, para o prazer ou a curiosidade particularmente dos homens, mas também das mulheres, que deixam suas exibições de violino para vê-la urrar como um animal. O aspecto perverso de sua dor talvez consista em que ela não pode ser, por completo, um 'objeto' (esquecendo-se nos vapores do álcool que se tornam seu consolo), mas deve 'encenar', para o prazeroso 'reconhecimento' da plateia. Talvez não custe lembrar que livros de antropologia sobre os 'selvagens' tinham enormes tiragens no século XIX: os civilizados queriam não só explorar, mas ver; ter a certeza de que, em suas colônias tão distantes, eles não faziam nada pior do que já faziam com seus animais, sacrificados para usufruto de um coletivo humano que acreditava sinceramente no caráter 'elevado' de suas ideias e práticas sociais. A maior força do filme de Kechiche talvez esteja em mostrar a cegueira, o auto-engano e a violência dessa cultura que negou a todas as demais o direito à vida e à busca por uma forma própria de metabolismo com a natureza.
Muito bem, depois de sofrer por mais de uma hora, vem à cena o Dr. Georges Cuvier, médico celebradíssimo em sua época. Ele paga ao 'senhor' da Venus Hotentote para poder examiná-la. Sarah é forçada a ir ao luxuoso prédio do ilustre doutor [sim, diz o seu amo, é uma honra que esses homens tão importantes se interessem por você. Sim, meus amigos, é uma honra que a Copa seja sediada no Brasil!], que tira medidas de seu corpo, comprovando, sem sombra de dúvida, que ela se assemelha a um orangotango. Má ciência, má política, má arte: é o retrato de uma Europa perversa que esse maravilhoso filme nos oferece, como uma frágil máscara prontamente quebrada pelo simples encontro com o Estranho.
Esse filme, tão fantástico para uma reflexão nos mais diversos campos das ciências humanas, talvez também mude a sua vida. Depois de vê-lo, depois de tudo que anda acontecendo no Brasil, sei que quero estudar o racismo e também repensar ideias velhas que trazemos na psicologia, sobre o que é a cultura e de que modo uma cultura é também 'metacultura' - ou seja, uma 'cultura sobre a cultura'. Será que não conseguimos nos livrar desse crônico servilismo a ideias racistas que atravessam nossas relações cotidianas e leva nossa juventude negra a ser assassinada ainda hoje? Será que não?
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Proibido vadiar no metrô
ENTÃO, eu sempre sinto esse desamparo frente aos homeless guys. Artistas ou cientistas; brancos ou pretos; brasileiros ou estrangeiros; amigáveis ou detestáveis; jovens ou velhos, são categorias que, em seus pares contrastivos, são infinitamente mais estranhas pra mim do que a dos sem-teto. Esses sim são meus chaps, já que, por motivos biográficos bastante sem-graça, eu tenho uma média de quatro pesadelos semanais com o mesmo tema: de repente, não tenho mais onde morar.
---
Num sábado, andávamos na Yonge Street e os sem-teto distribuiam-se regularmente, um a cada esquina, com seus bonés, chapéus ou outro objeto estendido sobre a calçada almejando os trocados de quem passasse. Penso que eles dormem no albergue Yonge Street Mission, na rua homônima - a concentração da rapaziada ali é acima da média de Toronto. Quase todos esses sem-teto eram homens, com idade variável, todos com mais de 30 anos - não se vê crianças mendigando ou fazendo bicos no semáforo; as instituições dão mais proteção a elas que no Brasil. Mas eu não sei o que sinto sobre isso - penso que esperava não encontrar gente em situação de rua por aqui. Como diz o Kótchki: são muitos os apelos para redução das taxes (impostos): o neoliberalismo está chegando; lenta, pervasiva e viciosamente, como no Brasil.
Meus chaps traziam pequenas placas pedindo esmolas. Garoava, e nenhum tinha guarda-chuva. A maioria deles mostrava pele branca e olhos azuis, em um contraste racial tão forte com a minha memória dos sem-teto no Brasil que só posso admitir o fato de que venho, sim, de um país racista (o Canadá sem dúvida vive algo mais próximo de uma democracia racial). Por sorte, aqui há mais abrigos e imagino que eles só fiquem a descoberto durante o dia - o outro lado da moeda é terem de enfrentar pelo menos umas 12 horas de frio pesado, sem marquises ou bancos (aqui também a municipalidade tem feito um ótimo trabalho com os assentos curvos em que é impossível se deitar decentemente; a neve cobre os que existem, completando a sua parte nessa tragédia mais social que física). Só as imaginações perversas da Inquisição devem ter conseguido superar, em violência, esse sofrimento de se ver a si mesmo em um dia inteiro de frio, trocados, sujeira, fome; e o pior, falta de perspectiva de sair disso tudo.
Há tantos pontos de doação de agasalhos na cidade, como é possível que se trema de frio e se viva na rua? Os torontonitas são malvados? Evidente que não; são gente amigável e pacífica nos contatos cotidianos, confirmando que a política é o embate de forças no seio do capitalismo e não do caráter dos políticos ou de seus 'representados'. Eu não queria vê-los, mas lá estavam eles, impondo-se ao meu wishful thinking de senso comum como um tapa quente numa cara gelada. Uma cara com expressão de privilegiada que não compreende porque o mundo não foi feito à semelhança de sua mediana imaginação. É ela mesma quem compra imagens da existência de um paraíso em algum lugar distante; geralmente, mais pro Norte.
Quem imagina não fica desamparado, afinal de contas. Consideremos a vantagem significativa de que o Papai Noel mora a um paralelo de Toronto. Na noite de Natal, atolou o saco de presentes com logo do Wal Mart na chaminé da vizinha, e os simpáticos bombeiros torontonitas vieram dar uma força, antes de cantar "It´s raining men" no gay club do Saigong Bankok, bem ali na esquina. É sério, tem mesmo um Saigon Bankon na St. Clair West, depois eu posto uma foto com o Kótchki dando tchauzinho.
---
Pela loirice, eles me lembraram o Kurt Cobain antes do Nirvana, nos seus tempos de tramp (vadio, andarilho). Ou os fantasmas-vivos saídos da Cidade de Vidro, o primeiro conto da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster. Seriam drogadictos, alcoólatras? Por qual história filha-da-puta abandonaram suas cidades pra jazer ali? Senti quase hostilidade por estarem na rua quando eu, sim, vadiava a gosto; e logo atingi certo estado indefinido de angústia aniquiladora de qualquer reflexão, pela pura e simples inutilidade do processo reflexivo. Para lembrar o fatalismo latino-americano, vem a dar na mesma: angustiada ou não, eu compro o meu tablet; o rapaz da Yonge Street treme de frio.
Mas nesta noite, eu não terei pesadelos, pois não hei de dormir.
---
Um deles, o mais parecido com o Kurt, tremia convulsivamente, como certo senhor que eu vira no parque semanas atrás. Caro leitor, peço-lhe que imagine a chuva molhando seu corpo (se cai chuva e não neve, é porque a temperatura tá positiva, obviamente), e depois, com a queda de temperatura no início a noite (às 5 da tarde), imagine a água congelando sobre o seu corpo.
Passou pela minha cabeça perguntar-lhe porque ele não saía dali, embora me desse conta da idiotice embutida na coisa. Não há saída de um céu tão opaco, sob o qual eles precisam ficar da manhã à noite, como o Orwell do "Down and out in Paris and London", esse grande clássico da trampagem, que te coloca junto com o autor-sem-teto em um tempo vazio, cheio de dores intensas o suficiente para aniquilar sua vontade, seu amor-próprio, seu sentido de futuro e sua serena avaliação do passado. E uma pessoa sem vontade, amor-próprio, futuro ou passado já está deixando de ser uma pessoa para se tornar um cadáver.
Lembrei-me do Orwell também por causa dos avisos nos metrôs daqui: algo como "loitering is forbidden" ("proibido vadiagem"). O bonequinho que representa a ação tem os braços cruzados sobre o peito enquanto olha para mim - mas, inocente, ainda não sei quanto tempo de braços cruzados no metrô conta como crime de vadiagem. Por via das dúvidas, ninguém vadia no metrô; você só pode fazê-lo na rua, provavelmente porque o frio já é castigo suficiente - logo, a força policial não se faz necessária. Eu não sei se o flâneur Baudelaire vadiava no inverno, mas acho que em Paris era possível vadiar em qualquer lugar, pois o Orwell sentiu falta de lá quando caiu na severidade do anti-loitering londrino. Ele nunca podia dormir duas noites seguidas no mesmo abrigo - ou seja, não podia parar (como o bonequinho do loitering); tinha que rodar (tramp) na direção do próximo ponto.
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O jovem da Yonge tem a angústia estampada no rosto. Dentro das livrarias, centenas de consumidores circulam; gente entrando, saindo, passando, e ele treme enquanto escrevo todos esses verbos. Vejo também outro homem, mais velho e pobremente vestido, lendo revistas sentado no chão da livraria Indigo. Para quem gosta de Pollyana e quer fazer o jogo do contente, dois pontos: 1) ele sabia ler; 2) ninguém o mandou sair da loja. Mas acho que não há livrarias suficientes em Toronto - mesmo as 50 bibliotecas públicas não vão dar pra receber todos eles. Por sorte, todas as casas têm chaminé, e aí o Papai Noel pode continuar atolando-se à vontade.
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Num sábado, andávamos na Yonge Street e os sem-teto distribuiam-se regularmente, um a cada esquina, com seus bonés, chapéus ou outro objeto estendido sobre a calçada almejando os trocados de quem passasse. Penso que eles dormem no albergue Yonge Street Mission, na rua homônima - a concentração da rapaziada ali é acima da média de Toronto. Quase todos esses sem-teto eram homens, com idade variável, todos com mais de 30 anos - não se vê crianças mendigando ou fazendo bicos no semáforo; as instituições dão mais proteção a elas que no Brasil. Mas eu não sei o que sinto sobre isso - penso que esperava não encontrar gente em situação de rua por aqui. Como diz o Kótchki: são muitos os apelos para redução das taxes (impostos): o neoliberalismo está chegando; lenta, pervasiva e viciosamente, como no Brasil.
Meus chaps traziam pequenas placas pedindo esmolas. Garoava, e nenhum tinha guarda-chuva. A maioria deles mostrava pele branca e olhos azuis, em um contraste racial tão forte com a minha memória dos sem-teto no Brasil que só posso admitir o fato de que venho, sim, de um país racista (o Canadá sem dúvida vive algo mais próximo de uma democracia racial). Por sorte, aqui há mais abrigos e imagino que eles só fiquem a descoberto durante o dia - o outro lado da moeda é terem de enfrentar pelo menos umas 12 horas de frio pesado, sem marquises ou bancos (aqui também a municipalidade tem feito um ótimo trabalho com os assentos curvos em que é impossível se deitar decentemente; a neve cobre os que existem, completando a sua parte nessa tragédia mais social que física). Só as imaginações perversas da Inquisição devem ter conseguido superar, em violência, esse sofrimento de se ver a si mesmo em um dia inteiro de frio, trocados, sujeira, fome; e o pior, falta de perspectiva de sair disso tudo.
Há tantos pontos de doação de agasalhos na cidade, como é possível que se trema de frio e se viva na rua? Os torontonitas são malvados? Evidente que não; são gente amigável e pacífica nos contatos cotidianos, confirmando que a política é o embate de forças no seio do capitalismo e não do caráter dos políticos ou de seus 'representados'. Eu não queria vê-los, mas lá estavam eles, impondo-se ao meu wishful thinking de senso comum como um tapa quente numa cara gelada. Uma cara com expressão de privilegiada que não compreende porque o mundo não foi feito à semelhança de sua mediana imaginação. É ela mesma quem compra imagens da existência de um paraíso em algum lugar distante; geralmente, mais pro Norte.
Quem imagina não fica desamparado, afinal de contas. Consideremos a vantagem significativa de que o Papai Noel mora a um paralelo de Toronto. Na noite de Natal, atolou o saco de presentes com logo do Wal Mart na chaminé da vizinha, e os simpáticos bombeiros torontonitas vieram dar uma força, antes de cantar "It´s raining men" no gay club do Saigong Bankok, bem ali na esquina. É sério, tem mesmo um Saigon Bankon na St. Clair West, depois eu posto uma foto com o Kótchki dando tchauzinho.
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Pela loirice, eles me lembraram o Kurt Cobain antes do Nirvana, nos seus tempos de tramp (vadio, andarilho). Ou os fantasmas-vivos saídos da Cidade de Vidro, o primeiro conto da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster. Seriam drogadictos, alcoólatras? Por qual história filha-da-puta abandonaram suas cidades pra jazer ali? Senti quase hostilidade por estarem na rua quando eu, sim, vadiava a gosto; e logo atingi certo estado indefinido de angústia aniquiladora de qualquer reflexão, pela pura e simples inutilidade do processo reflexivo. Para lembrar o fatalismo latino-americano, vem a dar na mesma: angustiada ou não, eu compro o meu tablet; o rapaz da Yonge Street treme de frio.
Mas nesta noite, eu não terei pesadelos, pois não hei de dormir.
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Um deles, o mais parecido com o Kurt, tremia convulsivamente, como certo senhor que eu vira no parque semanas atrás. Caro leitor, peço-lhe que imagine a chuva molhando seu corpo (se cai chuva e não neve, é porque a temperatura tá positiva, obviamente), e depois, com a queda de temperatura no início a noite (às 5 da tarde), imagine a água congelando sobre o seu corpo.
Passou pela minha cabeça perguntar-lhe porque ele não saía dali, embora me desse conta da idiotice embutida na coisa. Não há saída de um céu tão opaco, sob o qual eles precisam ficar da manhã à noite, como o Orwell do "Down and out in Paris and London", esse grande clássico da trampagem, que te coloca junto com o autor-sem-teto em um tempo vazio, cheio de dores intensas o suficiente para aniquilar sua vontade, seu amor-próprio, seu sentido de futuro e sua serena avaliação do passado. E uma pessoa sem vontade, amor-próprio, futuro ou passado já está deixando de ser uma pessoa para se tornar um cadáver.
Lembrei-me do Orwell também por causa dos avisos nos metrôs daqui: algo como "loitering is forbidden" ("proibido vadiagem"). O bonequinho que representa a ação tem os braços cruzados sobre o peito enquanto olha para mim - mas, inocente, ainda não sei quanto tempo de braços cruzados no metrô conta como crime de vadiagem. Por via das dúvidas, ninguém vadia no metrô; você só pode fazê-lo na rua, provavelmente porque o frio já é castigo suficiente - logo, a força policial não se faz necessária. Eu não sei se o flâneur Baudelaire vadiava no inverno, mas acho que em Paris era possível vadiar em qualquer lugar, pois o Orwell sentiu falta de lá quando caiu na severidade do anti-loitering londrino. Ele nunca podia dormir duas noites seguidas no mesmo abrigo - ou seja, não podia parar (como o bonequinho do loitering); tinha que rodar (tramp) na direção do próximo ponto.
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O jovem da Yonge tem a angústia estampada no rosto. Dentro das livrarias, centenas de consumidores circulam; gente entrando, saindo, passando, e ele treme enquanto escrevo todos esses verbos. Vejo também outro homem, mais velho e pobremente vestido, lendo revistas sentado no chão da livraria Indigo. Para quem gosta de Pollyana e quer fazer o jogo do contente, dois pontos: 1) ele sabia ler; 2) ninguém o mandou sair da loja. Mas acho que não há livrarias suficientes em Toronto - mesmo as 50 bibliotecas públicas não vão dar pra receber todos eles. Por sorte, todas as casas têm chaminé, e aí o Papai Noel pode continuar atolando-se à vontade.
| Essa sou eu, dando tchauzinho dentro do meu abrigo (imaginário?) |
sábado, 30 de novembro de 2013
Costurinhas do Canadá
AGORA parece mais fácil entender a inércia agradável em que alguns - digo 'alguns' porque nunca cheguei a esse 'paraíso' do auto-esquecimento - vivem sua vida cotidiana, e o que significa mudá-la quando se tem uma vida já estruturada. Essa é a terceira vez que (como diria a mãe do Zé, ex-namorado da minha irmã) faço as galinhas juntarem as pernas (ou seja, me mudo) e penso que o nomadismo acabou se instilando no meu modo de ser, como algo natural. Mas, lá no fundo, não gosto de mudar. Vai entender.
Talvez seja um resíduo da época em que meus bisavós chegaram ao Brasil, com uma mão na frente e outra atrás. Talvez, nas minhas entranhas resida o gosto do novo - o desejo de deslocar-me; fazer outra vida por meio de uma nova forma de reconhecimento, negando o desejo parental de, simplesmente, postar-me quieta, comungando das mesmas ideias com as mesmas pessoas. Talvez, a percepção de que, ao ter sido forçada a deixar minha terra natal, é inviável supor que qualquer terra será, de fato, minha. E como poderia, sendo tão óbvio que - para repetir Chris McCandless - as coisas que vc possui acabam te possuindo?
É claro que outros tempos virão - em que eu não tenha que procurar moradia ou roupas - nos quais terei mais do que contatos comerciais e busca de preços para fazer. Mas, no todo, a principal impressão dessa semana é de que o modo-de-vida torontonita é como o brasileiro (se posso colocar nessa conta Bauru/Goiânia/São Paulo): centrado no carro (a extensão territorial da GTA, Zona Metropolitana de Toronto, é imensa, e as linhas de metrô são restritas), na família e nas compras - particularmente, nos eletrônicos. É claro que vemos, nos metrôs e ônibus, pessoas humildes com suas cargas (sempre tive conexão com elas: os pobres e suas sacolinhas misteriosas, já dizia à Eiko anos atrás!), roupas descombinadas, a aparência cansada. Ainda não conhecemos quais são as dores predominantes na cidade, mas as diferenças de origem dos transeuntes são - junto do frio, é claro - o principal contraste para com as demais cidades em que morei. 50% da população residente em Toronto não nasceu aqui - disse-me um canadense que Toronto é tão similar a New York que muitos filmes ambientados em Manhattan, são, de fato, filmados aqui. Um globo terrestre em miniatura.
Suponho que seja essa a realidade das regiões metropolitanas de todos os países ricos - e é fácil de entender: não parece difícil encontrar um emprego qualquer, mesmo se você não fala inglês. Exceto pelo sujeito da agência de empregos (certamente, descendente de imigrantes que não vieram há muito tempo) que foi xenófobo com o Edu, e de uns 3 anúncios malandros no site de aluguéis, o clima geral é de receptividade, honestidade, cordialidade, e até solidariedade (tanto quanto parece ser possível em um país capitalista e bastante caro). Há também muitos negros na cidade, embora, até onde eu saiba, não tenha havido escravidão no Canadá. Subsumidas ao capital, as culturas parecem conviver sem maiores atritos, pelo menos, à primeira vista.
Meu happening de hoje é o da senhora vietnamita, emigrada há 33 anos, vendedora em um outlet no qual comprei algumas coisas. Ela viu que meu casaco estava com a manga descosturada e me disse que já tinha trabalhado numa fábrica no Canadá (saiu porque pagavam muito pouco: depois, foi também camareira), então, me ensinaria a dar uns pontos na manga. A loja estava quase vazia.
O processo era meio complexo. Então, eu disse: "Vc costuraria para mim?". Ela e a gerente deram uma risadinha e foram procurar uma linha da mesma cor (não tinha, foi com preto mesmo). Eu disse que lhe daria uma gorjeta, mas ela pareceu ofendida e logo percebi o furo. Comecei a perguntar sobre a vida dela (ela não sabia dizer quanta gente morreu na Guerra do Vietnã, e, sim, ela gostaria de deixar Toronto no inverno, mas afirmou que a vida lá no Vietnã continua braba; ela já conseguiu comprou uma fazenda por lá e volta de vez em quando; e não, as pessoas lá não mais trabalham na fazendas, e sim em fábricas). Agradeci e deixei meu cartão com a gerentes, pois minha nova amiga vietnamita, em passo ligeiro, já tinha ido atender a outra pessoa. Cuidar das roupas de frio é algo que te toma um extra em tempo e atenção - vc tem de vestir e tirar roupas o tempo todo, para não congelar na rua e não fritar dentro dos ambientes, que são todos aquecidos. Bem, "Dressing and undressing is kind of distressing", refrão da nossa recém-batizada 'dança do esquimó'.
Também o frio é uma experiência nova e meio-que subjetiva - impossível, car@s amig@s, descrever o que é sentir algo como -11 graus e um bocado de vento. O Edu sempre se queixa de frio nas orelhas, e eu, nas mãos - se fico sem luvas, parece que meus dedos vão cair. Como cheguei com luvas de verão, tive que sair correndo pra comprar umas novas, super grossas, e mesmo assim sinto frio. Fiquei com uma zona arroxeada no dedo indicador que se parece com uma pequena queimadura. No dia em que chegamos, meus dedos assumiram uma cor púrpura meio cadavérica, me assustei um pouco, mas agora estão ok.
Destaque para os passes do TTC (o transporte público de Toronto), diabolicamente pequenos. Perdemos um punhado nos bolsos até eu me resolver a comprar o Daily Pass (um cartão-passe diário). Começamos a tentar imaginar um sistema alternativo em que um Tolstói valeria por uns 100 Tolk[i]ens, e 50 Rushdies. Quem sabe, em futuro efetivamente multicultural?
Talvez seja um resíduo da época em que meus bisavós chegaram ao Brasil, com uma mão na frente e outra atrás. Talvez, nas minhas entranhas resida o gosto do novo - o desejo de deslocar-me; fazer outra vida por meio de uma nova forma de reconhecimento, negando o desejo parental de, simplesmente, postar-me quieta, comungando das mesmas ideias com as mesmas pessoas. Talvez, a percepção de que, ao ter sido forçada a deixar minha terra natal, é inviável supor que qualquer terra será, de fato, minha. E como poderia, sendo tão óbvio que - para repetir Chris McCandless - as coisas que vc possui acabam te possuindo?
É claro que outros tempos virão - em que eu não tenha que procurar moradia ou roupas - nos quais terei mais do que contatos comerciais e busca de preços para fazer. Mas, no todo, a principal impressão dessa semana é de que o modo-de-vida torontonita é como o brasileiro (se posso colocar nessa conta Bauru/Goiânia/São Paulo): centrado no carro (a extensão territorial da GTA, Zona Metropolitana de Toronto, é imensa, e as linhas de metrô são restritas), na família e nas compras - particularmente, nos eletrônicos. É claro que vemos, nos metrôs e ônibus, pessoas humildes com suas cargas (sempre tive conexão com elas: os pobres e suas sacolinhas misteriosas, já dizia à Eiko anos atrás!), roupas descombinadas, a aparência cansada. Ainda não conhecemos quais são as dores predominantes na cidade, mas as diferenças de origem dos transeuntes são - junto do frio, é claro - o principal contraste para com as demais cidades em que morei. 50% da população residente em Toronto não nasceu aqui - disse-me um canadense que Toronto é tão similar a New York que muitos filmes ambientados em Manhattan, são, de fato, filmados aqui. Um globo terrestre em miniatura.
Suponho que seja essa a realidade das regiões metropolitanas de todos os países ricos - e é fácil de entender: não parece difícil encontrar um emprego qualquer, mesmo se você não fala inglês. Exceto pelo sujeito da agência de empregos (certamente, descendente de imigrantes que não vieram há muito tempo) que foi xenófobo com o Edu, e de uns 3 anúncios malandros no site de aluguéis, o clima geral é de receptividade, honestidade, cordialidade, e até solidariedade (tanto quanto parece ser possível em um país capitalista e bastante caro). Há também muitos negros na cidade, embora, até onde eu saiba, não tenha havido escravidão no Canadá. Subsumidas ao capital, as culturas parecem conviver sem maiores atritos, pelo menos, à primeira vista.
Meu happening de hoje é o da senhora vietnamita, emigrada há 33 anos, vendedora em um outlet no qual comprei algumas coisas. Ela viu que meu casaco estava com a manga descosturada e me disse que já tinha trabalhado numa fábrica no Canadá (saiu porque pagavam muito pouco: depois, foi também camareira), então, me ensinaria a dar uns pontos na manga. A loja estava quase vazia.
O processo era meio complexo. Então, eu disse: "Vc costuraria para mim?". Ela e a gerente deram uma risadinha e foram procurar uma linha da mesma cor (não tinha, foi com preto mesmo). Eu disse que lhe daria uma gorjeta, mas ela pareceu ofendida e logo percebi o furo. Comecei a perguntar sobre a vida dela (ela não sabia dizer quanta gente morreu na Guerra do Vietnã, e, sim, ela gostaria de deixar Toronto no inverno, mas afirmou que a vida lá no Vietnã continua braba; ela já conseguiu comprou uma fazenda por lá e volta de vez em quando; e não, as pessoas lá não mais trabalham na fazendas, e sim em fábricas). Agradeci e deixei meu cartão com a gerentes, pois minha nova amiga vietnamita, em passo ligeiro, já tinha ido atender a outra pessoa. Cuidar das roupas de frio é algo que te toma um extra em tempo e atenção - vc tem de vestir e tirar roupas o tempo todo, para não congelar na rua e não fritar dentro dos ambientes, que são todos aquecidos. Bem, "Dressing and undressing is kind of distressing", refrão da nossa recém-batizada 'dança do esquimó'.
Também o frio é uma experiência nova e meio-que subjetiva - impossível, car@s amig@s, descrever o que é sentir algo como -11 graus e um bocado de vento. O Edu sempre se queixa de frio nas orelhas, e eu, nas mãos - se fico sem luvas, parece que meus dedos vão cair. Como cheguei com luvas de verão, tive que sair correndo pra comprar umas novas, super grossas, e mesmo assim sinto frio. Fiquei com uma zona arroxeada no dedo indicador que se parece com uma pequena queimadura. No dia em que chegamos, meus dedos assumiram uma cor púrpura meio cadavérica, me assustei um pouco, mas agora estão ok.
Destaque para os passes do TTC (o transporte público de Toronto), diabolicamente pequenos. Perdemos um punhado nos bolsos até eu me resolver a comprar o Daily Pass (um cartão-passe diário). Começamos a tentar imaginar um sistema alternativo em que um Tolstói valeria por uns 100 Tolk[i]ens, e 50 Rushdies. Quem sabe, em futuro efetivamente multicultural?
sábado, 14 de setembro de 2013
Muleta [amargura]
Cárdia acima, alcança a língua:
qual tênia imaginária
Suspende-se no esôfago
desnudando-se em meio-gorfo,
De resultado quase amorfo.
À mente, acode-me:
O nome "Re-ssentimento".
E pronto, descarto:
Demasiado delicado!
Só atinge ao estômago
Ulcerando uns pontos.
Emoção perdida
Como poltrona puída
É raiva repetida -
cultivada, abstraída
Vibrato maldito
de tenor fodido
Decana parasita
Que vai da boca à tripa.
Qual restos de comida
Jamais digerida.
Bile amarela e preta
Das horas de dor, gameta
Esboçando uma careta
Ao arquitetar vendeta
Sombria ilusão!
Caminhada de perneta!
Dos dias, solidão
Das noites, enxaqueca
Que tipo de reação
Que a amargura derreta
Levará meu coração
A dispensar essa muleta?
---
Obs: está bem.... nessa trovinha, usei um dicionário de rimas.
qual tênia imaginária
Suspende-se no esôfago
desnudando-se em meio-gorfo,
De resultado quase amorfo.
À mente, acode-me:
O nome "Re-ssentimento".
E pronto, descarto:
Demasiado delicado!
Só atinge ao estômago
Ulcerando uns pontos.
Emoção perdida
Como poltrona puída
É raiva repetida -
cultivada, abstraída
Vibrato maldito
de tenor fodido
Decana parasita
Que vai da boca à tripa.
Qual restos de comida
Jamais digerida.
Bile amarela e preta
Das horas de dor, gameta
Esboçando uma careta
Ao arquitetar vendeta
Sombria ilusão!
Caminhada de perneta!
Dos dias, solidão
Das noites, enxaqueca
Que tipo de reação
Que a amargura derreta
Levará meu coração
A dispensar essa muleta?
---
Obs: está bem.... nessa trovinha, usei um dicionário de rimas.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
“Prezado
Theo,
Tirei
algumas radiografias de clientes esta semana – em minha opinião, excelentes.
Mostrei-as a Degas, que não gostou. Disse que a composição estava péssima, e
que todas as cáries estavam amontoadas no canto inferior esquerdo.
Expliquei-lhe que a boca da Sra. Slotkin era assim mesmo, mas não quis nem
saber. Criticou também a moldura, muito pesada para aquele estilo. Quando ele
saiu, rasguei as radiografias em pedacinhos! Como se não bastasse, tentei
trabalhar no canal da Sra. Wilma Zardis, mas, a meio caminho desinteressei-me.
Descobri que o tratamento de canal não é o que eu quero fazer. Aquilo me deixou
afogueado e zonzo. Saí correndo do consultório para tomar um pouco de ar, mas
devo ter desmaiado porque acordei na praia vários dias depois. Quando voltei ao
consultório, a Sra. Zardis ainda estava na cadeira, de boca aberta. Completei o
tratamento a contragosto, mas não tive vontade de assiná-lo” (Se os impressionistas tivessem sido dentistas,
p.246)
ALLEN,
W. Sem plumas. Porto Alegre:
L&PM, 1980.
domingo, 25 de agosto de 2013
Desejar Tudo
Talvez não se aplique o querer coisas.
Elas nunca podem ser nossas
(sobretudo, quando pessoas).
Talvez importem formas
Um estilo
Uma cor.
Ou um som.
Ver rosas
Desejar Tudo?
Ou alguém por inteiro?
Não, isso é de crianças
Que temem o incompreendido...
Deixe-me aqui um instante
agora que descobri o erro fundamental...
O erro de esperar o Absoluto.
E o oposto:
o de prometer suportar
erros alheios.
Quando Eles são Fossa das Filipinas
Em versão animal.
Sugando-nos com sua bocarra assassina.
Ser heróico! Ser romântico!
Ou ser melhor ou bom.
Quando a irritação é mero efeito
da exposição excessiva...
Mesmo aos que se ama.
Podemos nos irritar e ter alergias
Mesmo das coisas mais deliciosas
E elas podem nos entediar.
E não digo só por dizer...
Já tive coisas deliciosas, e as olho
Às vezes.
E elas me tocam
E sou apenas mais uma
E me convenço que a tristeza é posicional
E a novidade é nula.
E uma tristeza solitária é simplesmente honesta
No seu ser triste.
Tanto mais quando voluntária
Quando ao invés de olhar
Estilos, cores e sons
Olha para o mesmo
E entende que também ele
Merece uma lágrima
E um cumprimento.
E um desejo
de olhar mais.
Mas não sei se compreendo a noite
Ela é velha
E cai sem lhe pedirmos.
E parte sem mais explicações
Apenas para cumprimentarmo-nos
Enquanto adormecemos insatisfeitos
Esperando que a luz do dia liberte
Da competição consigo
De obter mais do que ontem
Do desejo de ser alguém.
Não morrerá a língua dos nossos versos?
e o planeta no qual foram escritos?
Até os dele, o sublime Campos da Tabacaria!
Queria a salvação da noite
Mas ela chega e vai
E aqui fico, silente.
Desejando Tudo.
(Publicado em 01/01/2009, na minha antiga "Cidade dos Sonhos")
Elas nunca podem ser nossas
(sobretudo, quando pessoas).
Talvez importem formas
Um estilo
Uma cor.
Ou um som.
Ver rosas
Desejar Tudo?
Ou alguém por inteiro?
Não, isso é de crianças
Que temem o incompreendido...
Deixe-me aqui um instante
agora que descobri o erro fundamental...
O erro de esperar o Absoluto.
E o oposto:
o de prometer suportar
erros alheios.
Quando Eles são Fossa das Filipinas
Em versão animal.
Sugando-nos com sua bocarra assassina.
Ser heróico! Ser romântico!
Ou ser melhor ou bom.
Quando a irritação é mero efeito
da exposição excessiva...
Mesmo aos que se ama.
Podemos nos irritar e ter alergias
Mesmo das coisas mais deliciosas
E elas podem nos entediar.
E não digo só por dizer...
Já tive coisas deliciosas, e as olho
Às vezes.
E elas me tocam
E sou apenas mais uma
E me convenço que a tristeza é posicional
E a novidade é nula.
E uma tristeza solitária é simplesmente honesta
No seu ser triste.
Tanto mais quando voluntária
Quando ao invés de olhar
Estilos, cores e sons
Olha para o mesmo
E entende que também ele
Merece uma lágrima
E um cumprimento.
E um desejo
de olhar mais.
Mas não sei se compreendo a noite
Ela é velha
E cai sem lhe pedirmos.
E parte sem mais explicações
Apenas para cumprimentarmo-nos
Enquanto adormecemos insatisfeitos
Esperando que a luz do dia liberte
Da competição consigo
De obter mais do que ontem
Do desejo de ser alguém.
Não morrerá a língua dos nossos versos?
e o planeta no qual foram escritos?
Até os dele, o sublime Campos da Tabacaria!
Queria a salvação da noite
Mas ela chega e vai
E aqui fico, silente.
Desejando Tudo.
(Publicado em 01/01/2009, na minha antiga "Cidade dos Sonhos")
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
A infecção da tristeza
Hoje eu vi:
a tristeza infecciona.
Põe seu bacilo no corpo e na mente...
E suga força, vontade, beleza...
Até que olhes no espelho e, surpresa
Veja a ti no que é ela.
Ser mergulhado no vazio
Túnel negro de dissabores
Atração irresistível do olhar
onde cada movimento externo
dá em aborrecimento interno
E em cada gesto há uma crosta
posta em rostos e corpos...
a refazer o solitário percurso do esquecimento.
Absurda caveira ambulante, de
cadáver vivo que procria (ou não)
à força de seres sós
que, pálidos e tristes,
em belos apartamentos
dançam o tango da vida.
como Requiem da morte
Estou aqui, ó vil companhia!
Tua cara hoje é outra
Mas sob tua carne louca
Enxergo a vida pulsando
assim mesmo:
pulsando.
a tristeza infecciona.
Põe seu bacilo no corpo e na mente...
E suga força, vontade, beleza...
Até que olhes no espelho e, surpresa
Veja a ti no que é ela.
Ser mergulhado no vazio
Túnel negro de dissabores
Atração irresistível do olhar
onde cada movimento externo
dá em aborrecimento interno
E em cada gesto há uma crosta
posta em rostos e corpos...
a refazer o solitário percurso do esquecimento.
Absurda caveira ambulante, de
cadáver vivo que procria (ou não)
à força de seres sós
que, pálidos e tristes,
em belos apartamentos
dançam o tango da vida.
como Requiem da morte
Estou aqui, ó vil companhia!
Tua cara hoje é outra
Mas sob tua carne louca
Enxergo a vida pulsando
assim mesmo:
pulsando.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
O Limbo
Não há nada:
exceto vultos na bruma verde,
vivendo espera cansada.
Aqui não há filmes
Nem livros
Nem papos
Nem Sol.
Não há amor nem ódio
- há mortos, mas não a Morte.
Desaparece a Vista
Mas não se dorme.
Não há sono,
mas há fome.
Come-se: mas não se dorme.
Traído pela luz (a fornicar com a bruma)
O Tempo matou-se.
E o relógio espanca, implacável
ouvidos zumbis.
exceto vultos na bruma verde,
vivendo espera cansada.
Aqui não há filmes
Nem livros
Nem papos
Nem Sol.
Não há amor nem ódio
- há mortos, mas não a Morte.
Desaparece a Vista
Mas não se dorme.
Não há sono,
mas há fome.
Come-se: mas não se dorme.
Traído pela luz (a fornicar com a bruma)
O Tempo matou-se.
E o relógio espanca, implacável
ouvidos zumbis.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Amorzinho...
Antes da sombra estúpida
a Luz Gloriosa
Antes da chama fugaz
O amor contínuo.
Antes da desolada relva
Leito de folhas brancas
Antes da incerteza grosseira
Um amor Masculino.
Antes de uma desordem nova...
Uma ordem antiga...
Antes do Lixo
Pixo:
Sua letra só...
No muro do Amor...
E da Consolação.
a Luz Gloriosa
Antes da chama fugaz
O amor contínuo.
Antes da desolada relva
Leito de folhas brancas
Antes da incerteza grosseira
Um amor Masculino.
Antes de uma desordem nova...
Uma ordem antiga...
Antes do Lixo
Pixo:
Sua letra só...
No muro do Amor...
E da Consolação.
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