Antes da sombra estúpida
a Luz Gloriosa
Antes da chama fugaz
O amor contínuo.
Antes da desolada relva
Leito de folhas brancas
Antes da incerteza grosseira
Um amor Masculino.
Antes de uma desordem nova...
Uma ordem antiga...
Antes do Lixo
Pixo:
Sua letra só...
No muro do Amor...
E da Consolação.
Psicologia, educação, política, literatura, cinema e outras idéias e opiniões que podem não ter conexão entre si. Tipo a Gisela.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Veneno Antiausteridade
* Minha declaração de amor a Paul Auster e suas "Loucuras do Brooklyn" *
Obs: amor = alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.
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| Paul Auster, foto n(d)o Globe Times. |
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| Mistério. Para tremer - e ao fundo, uma "Cidade de Vidro" - foto do WGBH News |
"I WAS looking for a quiet place to die. Someone recommended Brooklyn, and so the next morning I traveled down there" (p.1) ["Eu procurava por um lugar quieto pra morrer. Alguém recomendou o Brooklyn, e então na manhã seguinte eu viajei lá pra baixo"]. Assim começam "The Brooklyn Follies" (tradução aqui), narrado e protagonizado por Nathan, um corretor de seguros aposentado que rumina a concreta, recente e dura luta contra um câncer de pulmão.
Divorciado, sem amigos próximos, já de início tretado com a única filha, mas com alguma grana para se manter; a viva imagem de um sessentão "fracassado". Para onde ir, quando o mundo parece ter aberto mão de ti - e tu do mundo?
Não ouvirás uma voz consoladora atrás de uma sarça. Não terás otimismo nenhum. A m. em que o anti-herói começa o livro não chega a ser eliminada "na Real", como diria Lacan (devidamente adaptado à língua dos meus alunos). Mas Nathan é a encarnação escrita de um Paul Auster supreendentemente bem-humorado.
Humor negro, é claro, mas qual outro humor é possível em nossos tempos? Esperando uma história deprês de lamúrias sobre a finitude, estouramos de rir já na segunda página. Rachel diz a seu pai que esboce novo projeto de vida - conselho pra-lá de razoável - e o que lemos?
"I explained that I was probably going to be dead before the year was out, and I didn´t give a flying fuck about projects." (p.2, grifo meu) ["Eu expliquei que provavelmente estaria morto antes do fim do ano, e eu não dava uma mísera trepada para projetos"]O.k. Não dá para traduzir. "Flying fuck" (perde-se a aliteração de "F F"). Talvez "tímida trepada".
Quase sem descanso, vem a gargalhada da página seguinte: "To hear Rachel tell it, I wasn´t much in the parent department either" (p.3, grifo meu) ["Pelo que a Rachel dizia, eu não era muita coisa no departamento de pais também"]. Imaginei o antiaustero velhinho atrás da mesa em uma sala com divisórias, num desses sufocantes escritórios terroristas (ops: tayloristas), com uma furada apólice de seguro para filhos, encarando a própria filha desfeita em prantos e reclamando seu passado de volta.
O livro está repleto dessas saborosas expressõezinhas luminosas que devem causar enxaqueca nos tradutores. Dir-se-ia uma espécie de Woody Allen mais profundo (exceto pelo Allen mais próximo de Bergman, como em "Crimes e Pecados", "Interiores", "A outra", "A rosa púrpura do Cairo"), e também mais chulo, com termos que colam na sua memória e das suas sinapses fazem casas, como se sempre tivessem estado lá.
Vejam os "Rascals believe in life" [canalhas crêem na vida], "everyone was subject to black moods", "Dombowski kicked the bucket three years ago. He was ninety-one, and he died of a stroke" (p.55), "intellectuals suck, Nathan. They´re the most boring people in the world" (p.93), "he´d always had the hots for Edith" (114), "every idiot got his turf to defend" (188), "I find it a perfect book for an aging fart like me" (192), "I´m not even sure he gives a rat´s ass about religion" (p.263), "our smart, energetic, wise-cracking child had turned herself into a royal pain in the ass" (283).
Se a voz popular orienta-nos que há sempre um chinelo velho para um pé inchado, Nathan encontrou o seu logo no início da história. Ele tromba Tom, seu amado sobrinho, que não via há anos, atendendo ao balcão em um sebo. O.k., um ótimo sebo. Mas foi decepcionante para o tio Nat, que tinha grande admiração por aquele ex-jovem estudioso de literatura, com a mente vivaz que o fascinara com a sua ideia de que desejava escrever: "A study of the inner refuge, a map of the place a man goes to when life in the real world is no longer possible" (p.15). Ou, traçando um paralelo entre Edgar Allan Poe e Henry Thoreau: "As a place to read, write, and think. It´s a vault of contemplation, a noiseless sanctuary where the soul can at last find a measure of peace." (p.16)["É um cofre de contemplação, um quieto santuário onde a alma pode, por fim, encontrar uma quota de paz"]. E desse mundo desdobra-se a utopia austeriana, não de uma comuna, mas de uma comunidade.
Tom é um "fracasso escolar" do doutorado. E, sob alguns aspectos, lembrei-me de mim mesma no doutorado, às sextas-feiras, quando rolava a tela do PC com aquele indescritível sentimento de autodesapontamento, após cada semana de trabalho duro. Tom é o fantasma de todos os que decidem - ou são levados a - escrever uma tese, e por cobrir essa zona silente da vida de tantos, já é um personagem inesquecível.
Para encerrar, citação que me encoraja a continuar tentando o mundo da escrita:
"There were no rules when it came to writing, he said. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jube of exceptions. Take a close look at the lives of poets and novelists, and what you wound up with was unalloyed chaos, an infinite jumble of exceptions. That was because writing was a disease, Tom continued, what you might call an infection or influenza of the spirit, and therefore it could strike anyone at any time. The young and the old, the strong and the weak, the drunk and the sober, the sane and the insane. Scan the roster of the giants and semi-giants, and you would discover writers who embraced every sexual proclivity, every political bent, and every human attribute - from the loftiest idealism to the most insidious corruption." ["Não havia regras no que se referia à escrita, ele disse. Olhe de perto as vidas de poetas e novelistas, e você se choca com o puro caos, a infinita galeria de exceções. Isso porque escrever é uma doença, continuou Tom, o que você pode chamar uma infecção ou gripe do espírito, e portanto poderia atacar qualquer um a qualquer momento. O jovem e o velho, o forte e o fraco, o bêbado e o sóbrio, o são e o insano. Vasculhe a lista de gigantes e semi-gigantes, e você descobriria escritores que abraçaram toda orientação sexual, toda tendência política, todo atributo humano - do mais elevado idealismo à mais insidiosa corrupção"] (Paul Auster, 'The Brooklin Folllies", London: Faber and Faber, p.148)Um louvor à aceitação. Ao pegar o que vem, e, no caso de Auster, apanhar uma mosca para sair voando - ou seja, acompanhar Nathan em seu vôo na direção da finitude mais interessante - e mais completa - que já se viu. A fly for flying.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Sobre guerra e reconhecimento
UMA guerra, ao que parece, só é possível quando se apaga a individualidade do inimigo, convertido em imagem do mais puro Mal. Desde que, em 1830, surgiu a ideia de nação, tem sido assim. Sábio Voltaire! Já percebeu que ela traz muito narcisismo: trata-se de catapulta imaterial pelo qual todos os cidadãos de certo país jogam lama nos seus vizinhos.
"Full Metal Jacket (Nascido para Matar, direção de Stanley Kubrick)" mostra soldados que nem sequer acreditam que os gooks (vietnamitas) mereçam ser mortos. A imagem do soldado americano ao lado do inimigo morto, vestido de marine, é melancólica. E ele diz, chocado consigo mesmo: "Não poderia ter sido meu amigo? E o aniquilei... talvez quando voltarmos para casa não haverá mais guerras, pois não haverá quem valha a pena matar".
Isso me lembrou um trecho do conto "Deutsches Requiem", do Jorge Luis Borges. Nesse conto, mesclam-se melancolia e violência na voz de um narrador schopenhaueriano que observa seu mundo marchar para o Nada sem hesitação. Ele diz:
"Full Metal Jacket (Nascido para Matar, direção de Stanley Kubrick)" mostra soldados que nem sequer acreditam que os gooks (vietnamitas) mereçam ser mortos. A imagem do soldado americano ao lado do inimigo morto, vestido de marine, é melancólica. E ele diz, chocado consigo mesmo: "Não poderia ter sido meu amigo? E o aniquilei... talvez quando voltarmos para casa não haverá mais guerras, pois não haverá quem valha a pena matar".
Isso me lembrou um trecho do conto "Deutsches Requiem", do Jorge Luis Borges. Nesse conto, mesclam-se melancolia e violência na voz de um narrador schopenhaueriano que observa seu mundo marchar para o Nada sem hesitação. Ele diz:
"Ameaça agora o mundo uma época implacável. Nós a forjamos, nós que já somos sua vítima. Que importa que a Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, não as servis timidezes cristãs. Se a vitória e a injustiça e a felicidade não são para a Alemanha, que sejam para as outras nações. Que o céu exista, mesmo que nosso lugar seja no inferno.
Olho meu rosto no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu não." (Borges, Jorge Luis. “Deutsches Requiem”. In: O Aleph. São Paulo: Globo, 2001, p. 96)
***
Não há equilíbrio para o soldado americano. Seus inimigos? Todos os que se põem a atravessar um mito, a ideia de um mundo à imagem e semelhança da América, mas aquém dela na escala evolutiva (para ser irônica...), de modo a não lhe constituir ameaça. Como homens prostrados, eles aferram-se às possibilidades de prazer sem expor objeção. Sua própria individualidade, como a dos gooks, desaparece sob a farda. Revigorar o aceite de uma fé que se perde em meio aos destroços parece (e é) franco absurdo.
***
A guerra floresce na distância. Ao vizinho, permitem-se no máximo uns saques - como os pogroms. Por isso, Hitler tirou os judeus dos grandes centros, de sob os olhos do contribuinte alemão, antes de matá-los. Esquartejar o sujeito que se senta ao seu lado todos os dias, na hora do cafezinho, seria vilania incomensurável. Acho que é assim.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
melancolia (rascunho)
Sem filia
ou melodia:
o corpo sofria.
A mente?
Padecia.
Mas só de séria:
Melancolia.
Em mim, desconforto
Miséria e o desejo louco
de destruir o mundo
no qual não sofro pouco.
domingo, 31 de março de 2013
Gênero, polícia e espaço público: o mau uso das praças e parques em Goiânia
Criada na periferia de Bauru, São Paulo, o conceito de praça da minha adolescência reduzia-se à rodela de grama do Jd. Godoy, com seus bancos quebrados e um Sol impiedoso batendo no coco.
Mas, praça ou não praça, apropriávamo-nos da rua estendendo redes de vôlei que sempre se dava um jeito de emprestar. Talvez a proporção de garotos e garotas fosse de uns 60 para 40%, ou, no máximo, 70 para 30%.
Em São Paulo, capital, a coisa talvez fosse pior: perifa não tem nada, só camburão do IML com seus gritos de morte a romper as vielas. Na rica região do Parque da Água Branca, eu tinha que desviar de muitos ambulantes - o Parque estava se tornando uma espécie de shopping a céu aberto: nada de linhas retas para caminhada, e uma baita poluição sonora. Paradoxalmente, os velhinhos seresteiros que se reuniam ali com seus razoáveis violões tomaram um bilhete azul do Governo do Estado. Prédios da Assistência Social e da Agropecuária distribuíam-se ao longo do parque, que fechava cedo demais pela importância que tinha para os moradores da região. Veja mais aqui.
Em Goiânia os espaços públicos são maiores e melhores. Mas, diferente da Bauru da minha adolescência, há uma tremenda discriminação de gênero em sua ocupação. Se você vai a parques como Areião, dos Flamboyants ou dos Buritis, encontrará famílias, jovens em reuniões evangélicas, namorados (inclusive GLBTT) e mesmo pares ou grupos em passeios fotográficos. Próximos de bairros bem cotados, estes são parques para a classe privilegiada, embora muita gente humilde os frequentem - particularmente, os Buritis.
A coisa muda totalmente de figura na Praça Universitária ou no Parque do Botafogo. Ontem eu era a única pessoa do sexo feminino caminhando pelo Parque, com espaços de prática esportiva tomado por jovens em atitude agressiva - inclusive alguns motociclistas que buzinavam ao passar, totalmente indiferentes à necessária multiplicidade de uso do espaço. Poucos idosos transitavam ali.
Diferentemente dos demais, ali há uma quadra e um campo de futebol. A mensagem é clara: em Goiânia, esporte é coisa de macho. E essa brutalidade na ocupação do espaço revela-se também na produção de ruído alto, afugentando os que buscam contemplação.
Alguns diriam que é a própria atitude ostensiva dos grupinhos masculinos que as mulheres temem, razão para não se aproximarem. Mas não será necessária uma atitude afirmativa das mulheres? Por que as garotas estão presas em casa? Estaremos condenadas a ficar no recesso do lar, vendo programas de tevê em que os outros se divertem, enquanto nos entendiamos, nos deprimimos e engordamos? Ou a bater pernas em shoppings, espaço tão vazio, antidemocrático e emburrecedor quanto uma sala-de-estar com televisão e sem livros? Por que a única biblioteca pública de Goiânia tem um acervo que rivaliza, em antiguidade, com a cidade, e em diversidade, com as livrarias evangélicas da Rua 4?!
Mas agora falo da Praça Universitária. Ali, quem mais perturba é a polícia - que tara ela tem pelos jovens frequentadores! Sem sombra de dúvida, é o espaço com mais policiamento de todos os que eu citei. Meu fado de andarilha insatisfeita completa-se com as inúteis sirenes que contribuem tanto para a poluição sonora do local. Cheguei a ver duas viaturas do choque rodando por ali simultaneamente, com o entusiasmo de quem iria reprimir a Al-Qaeda ou o Fernandinho Beira-mar. Garotos jogando bola nas imediações da Praça também são - falo como testemunha ocular - uma ameaça digna de atenção dessa instituição historicamente estúpida e repressora em nosso país.
Vi muitas vezes os policiais passarem uma descompostura nos garotos da Praça, quase sempre, nos de aparência humilde e pele mais escura. Mas a juventude resiste e continua por ali - particularmente, os skatistas, que devem ser alvo da polícia (embora não os brancos), pois o cheiro de maconha é frequente perto deles.
Provando a inefetividade da repressão, a praça virou o lugar mais pichado de todos os que eu mencionei neste post. Não mais um local em que seja agradável estar, e tampouco um espaço plural: é um espaço de tensão institucional. Lugar predominantemente frequentado por garotos, especialmente nos feriados, os quais também produzem uma poluição sonora considerável, participando de uma degradação do espaço público similar à que encontrei no rico Parque do Areião há alguns meses atrás.
Eu conto: ao tentar pedir a um grupelho de bêbados que churrasqueava ao lado de seu potente carrão, estacionado na pista de corrida[!], para desligar seu altíssimo CD Player, fui sumariamente xingada. Está claro que promoção de educação ambiental e cidadania não é tarefa para indivíduos isolados. Penso que esse episódio é emblemático da apropriação autoritária do espaço público: forçar estranhos a ouvir algo que eles não escolheram, desconsiderar por completo a possibilidade de prejudicar espécies do parque com lixo e ruído, organizar grupinhos com postura intimidatória para evitar a divisão do que, por direito, é de todos. Penso que algumas coisas precisam ser feitas:
1) Mais educação ambiental para todos - por que só guardas e polícia são vistos como interessantes? Por que não colocar agentes de educação ambiental ao invés de policiais nesses espaços?;
2) Ampliação da presença das mulheres nesses espaços, particularmente nos dedicados ao esporte - se necessário, com administração de horários exclusivos para elas, até que tal presença se consolide;
3) Construção de mais espaços de lazer e cultura, com a integração dos jovens, adultos e idosos na sua gestão.
Mas, praça ou não praça, apropriávamo-nos da rua estendendo redes de vôlei que sempre se dava um jeito de emprestar. Talvez a proporção de garotos e garotas fosse de uns 60 para 40%, ou, no máximo, 70 para 30%.
Em São Paulo, capital, a coisa talvez fosse pior: perifa não tem nada, só camburão do IML com seus gritos de morte a romper as vielas. Na rica região do Parque da Água Branca, eu tinha que desviar de muitos ambulantes - o Parque estava se tornando uma espécie de shopping a céu aberto: nada de linhas retas para caminhada, e uma baita poluição sonora. Paradoxalmente, os velhinhos seresteiros que se reuniam ali com seus razoáveis violões tomaram um bilhete azul do Governo do Estado. Prédios da Assistência Social e da Agropecuária distribuíam-se ao longo do parque, que fechava cedo demais pela importância que tinha para os moradores da região. Veja mais aqui.
Em Goiânia os espaços públicos são maiores e melhores. Mas, diferente da Bauru da minha adolescência, há uma tremenda discriminação de gênero em sua ocupação. Se você vai a parques como Areião, dos Flamboyants ou dos Buritis, encontrará famílias, jovens em reuniões evangélicas, namorados (inclusive GLBTT) e mesmo pares ou grupos em passeios fotográficos. Próximos de bairros bem cotados, estes são parques para a classe privilegiada, embora muita gente humilde os frequentem - particularmente, os Buritis.
A coisa muda totalmente de figura na Praça Universitária ou no Parque do Botafogo. Ontem eu era a única pessoa do sexo feminino caminhando pelo Parque, com espaços de prática esportiva tomado por jovens em atitude agressiva - inclusive alguns motociclistas que buzinavam ao passar, totalmente indiferentes à necessária multiplicidade de uso do espaço. Poucos idosos transitavam ali.
Diferentemente dos demais, ali há uma quadra e um campo de futebol. A mensagem é clara: em Goiânia, esporte é coisa de macho. E essa brutalidade na ocupação do espaço revela-se também na produção de ruído alto, afugentando os que buscam contemplação.
Alguns diriam que é a própria atitude ostensiva dos grupinhos masculinos que as mulheres temem, razão para não se aproximarem. Mas não será necessária uma atitude afirmativa das mulheres? Por que as garotas estão presas em casa? Estaremos condenadas a ficar no recesso do lar, vendo programas de tevê em que os outros se divertem, enquanto nos entendiamos, nos deprimimos e engordamos? Ou a bater pernas em shoppings, espaço tão vazio, antidemocrático e emburrecedor quanto uma sala-de-estar com televisão e sem livros? Por que a única biblioteca pública de Goiânia tem um acervo que rivaliza, em antiguidade, com a cidade, e em diversidade, com as livrarias evangélicas da Rua 4?!
Mas agora falo da Praça Universitária. Ali, quem mais perturba é a polícia - que tara ela tem pelos jovens frequentadores! Sem sombra de dúvida, é o espaço com mais policiamento de todos os que eu citei. Meu fado de andarilha insatisfeita completa-se com as inúteis sirenes que contribuem tanto para a poluição sonora do local. Cheguei a ver duas viaturas do choque rodando por ali simultaneamente, com o entusiasmo de quem iria reprimir a Al-Qaeda ou o Fernandinho Beira-mar. Garotos jogando bola nas imediações da Praça também são - falo como testemunha ocular - uma ameaça digna de atenção dessa instituição historicamente estúpida e repressora em nosso país.
Vi muitas vezes os policiais passarem uma descompostura nos garotos da Praça, quase sempre, nos de aparência humilde e pele mais escura. Mas a juventude resiste e continua por ali - particularmente, os skatistas, que devem ser alvo da polícia (embora não os brancos), pois o cheiro de maconha é frequente perto deles.
Provando a inefetividade da repressão, a praça virou o lugar mais pichado de todos os que eu mencionei neste post. Não mais um local em que seja agradável estar, e tampouco um espaço plural: é um espaço de tensão institucional. Lugar predominantemente frequentado por garotos, especialmente nos feriados, os quais também produzem uma poluição sonora considerável, participando de uma degradação do espaço público similar à que encontrei no rico Parque do Areião há alguns meses atrás.
Eu conto: ao tentar pedir a um grupelho de bêbados que churrasqueava ao lado de seu potente carrão, estacionado na pista de corrida[!], para desligar seu altíssimo CD Player, fui sumariamente xingada. Está claro que promoção de educação ambiental e cidadania não é tarefa para indivíduos isolados. Penso que esse episódio é emblemático da apropriação autoritária do espaço público: forçar estranhos a ouvir algo que eles não escolheram, desconsiderar por completo a possibilidade de prejudicar espécies do parque com lixo e ruído, organizar grupinhos com postura intimidatória para evitar a divisão do que, por direito, é de todos. Penso que algumas coisas precisam ser feitas:
1) Mais educação ambiental para todos - por que só guardas e polícia são vistos como interessantes? Por que não colocar agentes de educação ambiental ao invés de policiais nesses espaços?;
2) Ampliação da presença das mulheres nesses espaços, particularmente nos dedicados ao esporte - se necessário, com administração de horários exclusivos para elas, até que tal presença se consolide;
3) Construção de mais espaços de lazer e cultura, com a integração dos jovens, adultos e idosos na sua gestão.
quinta-feira, 14 de março de 2013
O Vingador da Sarjeta, ou Again, Cobain (Capítulo I - Contradições e Medicalizações)
04/03/2013
Notas pequenininhas sobre "Mais pesado que o céu", biografia de Charles Cross sobre Kurt Cobain
![]() |
| Capa da biografia de Kurt Cobain |
Esse olhar
incrivelmente terno, doce, contrasta com a do artista vagabundo que roubava estátuas
em cemitérios. Nossa perspectiva sobre o líder do Nirvana muda drasticamente ao
saber que, dadas as devidas proporções, os 27 anos de Kurt significaram uns 90
de uma pessoa qualquer - com um enorme bocado de sofrimento. Com muitas entrevistas, Charles
Cross traça um biografia descontínua de Kurt, desde seus anos de perturbação
mental e vida de tramp (dormiu no
próprio carro durante muito tempo e, ao que tudo indica, nos seus últimos dias
de vida). Você presencia imaginariamente uma escalada de dependência química que
termina em tragédia; vivencia o sentimento de desamparo e intromissão do mundo
exterior que nada, nem a heroína, acaba mitigando. “Ele era quieto” foi a
descrição de Kurt que Cross ouviu com maior freqüência. E nesse ritmo, acabou sendo o Cristo da dependência química, que usurpou a pungente humanidade de sua história.
Filho de Don,
um pobre mecânico que gostava de esportes e era duro com seu filho – mas apenas
antes do divórcio – e Wendy, a dona-de-casa que, inesperadamente, dá fim ao seu
casamento convencional, sofreu as dores de não conseguir reparar as dores do divórcio.
Sujeitos crentes no mito da ‘família estruturada’ diriam que o divórcio é um
problema – mas, caros patriotas, mesmo os mais ardorosos defensores das tradições admitiriam que não são freqüentes os divórcios sanguinolentos
como esse. No interior de um perpétuo conflito identitário, Kurt desenhava e
compunha, em parte, para perturbar – desde a adolescência – e vomitar sua
própria, indelével, terrível, perturbação. Kurt não foi simplesmente rejeitado; tal como o bebê sob o fio da
espada de Salomão, ele literalmente dividiu-se em Kurt e seu alter-ego Kurdt
(que no final, é só Kurt grafado errado, é o filho de Don e Wendy afirmando seu
distanciamento com relação ao nome que lhe deram). O primeiro é depressivo,
auto-isolado, auto-destrutivo, de baixa auto-estima. O segundo, é o punk que mostra o dedo para os
compradores de Nevermind, na capa
interna do disco. E que não tem pudor em buscar o estrelato - mas quer ter o estrelato para mostrar seus ideais punks.
Kurt foi sempre
um sujeito contraditório: “ele dirigia como uma velhinha”, conta Kris
Novoselic. Antes da heroína, tinha tanto medo de agulhas que nem mesmo fazia exame de sangue. Cross ilustra esse fato assistindo a cenas em filmes de família que
o mostram brincando afetuosamente com a filha, com uma seringa ao fundo, pendurada
no armário de escovas. Pobre, wasted,
Kurt! Sua trajetória também coloca em questão a precariedade dos serviços de
saúde mental nos Estados Unidos, pois é incrível que tenha atravessado tantos
anos de sofrimento antes de poder pagar por auxílio. Registra-se que apenas um
psicólogo o atendeu por muito pouco tempo, no período de separação, e nada
mais.
À criança
inquieta e criativa que criou um amigo imaginário aos dois anos de vida –
Boddah, o destinatário de uma de suas cartas de suicídio – cedo se deu uma
saída medicalizante:
“Quando Kurt
estava na segunda série, seus pais e professora decidiram que sua incansável
energia podia ter uma origem médica mais ampla. O pediatra de Kurt foi
consultado e o corante alimentar vermelho foi retirado da sua dieta. Quando não
houve melhora nenhuma, seus pais limitaram sua ingestão de açúcar. Finalmente o
medido receitou Ritalin, que Kurt tomou por um período de três meses. ‘Ele era
hiperativo’, lembrou Kim [irmã de Kurt]. ‘ Ficava saltando pelas paredes,
principalmente se lhe fosse dado algum açúcar.’
Outros parentes
sugerem que Kurt pode ter sofrido de deficiência de atenção por hiperatividade.
Mari [tia materna] se lembrava de uma visita à casa dos Cobain em que encontrou
Kurt correndo pelo bairro, batendo num tambor de parada e gritando a plenos
pulmões. Mari entrou e perguntou a sua irmã: ‘Mas que diabo ele está fazendo?’.
‘Não sei’, foi a resposta de Wendy. ‘Não sei o que fazer para conseguir que ele
pare – já tentei tudo.’ Na época, Wendy supunha que era o modo de Kurt queimar
seu excesso de energia de menino.
A decisão de
dar Ritalin a Kurt era, já em 1974, uma decisão controversa, com alguns
cientistas argumentando que isto cria uma resposta pavloviana nas crianças e
aumenta a probabilidade de comportamentos de dependência química mais tarde na
vida; outros acreditam que se as crianças não recebem tratamento para
hiperatividade, podem mais tarde se automedicar com drogas ilegais. Cada membro
da família de Cobain tinha uma opinião diferente sobre o diagnóstico de Kurt e
sobre se o breve curso de tratamento o ajudou ou prejudicou, mas, na opinião do
próprio Kurt, tal como ele mais tarde contou para Courtney Love, a droga foi
importante. Courtney, a quem o Ritalin também foi receitado na infância, disse
que os dois frequentemente discutiam esta questão. “Quando você é criança é
toma esta droga que o faz sentir-se desse jeito, para onde mais você vai se
voltar quando for adulto?’, perguntou Courtney. ‘Era uma euforia quando você
era criança – essa memória não vai ficar com você’?”. (Cross, Charles R. Mais
pesado que o céu. São Paulo: Globo, 2013, p.36)
Em algumas de
suas várias internações entre 1991 e 1994, Kurt saiu limpo. Mas era nítido que
a desintoxicação não removia os problemas de fundo. Como descobriu Reginaldo
Teixeira Mendonça em uma pesquisa com voluntários de variadas classes sociais,
“o uso dessas drogas [psicoativas] tem, inicialmente, a finalidade de auxiliar
nos confrontos emocionais, mas acaba impossibilitando o diálogo, fazendo com
que os conflitos sejam ignorados – em vez de resolvidos. ‘As relações sociais
são pautadas pelos medicamentos, e essa tendência pode ser produtora de um
silêncio que impede a pessoa de encarar qualquer mudança em relação a sua vida’,
afirma. Entre os homens, observou-se que essas drogas são usadas principalmente
para superar os limites do corpo (dormir menos, trabalhar mais), na tentativa
de se manterem como provedores da família. A pesquisa recebeu o Prêmio Nacional
de Incentivo à Promoção do Uso Racional de Medicamentos de 2009, concedido pelo
Ministério da Saúde.” (Viver Mente&Cérebro)
As dores, o
sofrimento físico; a angústia, a divisão interna; a predileção por escatologia
(era muito sensível a cheiros), excreções, sofrimentos, passam pelo seu maldito
estômago de macho habituado a junk food
(uma das sempre alegadas razões para o consumo de heroína), ou pelos seus
braços que, pelo fim da vida, granjeavam abscessos. Kurt não apenas escreveu
sobre vômitos, mas realizou o ato sem-número de vezes – com freqüência, o
resultado vinha cheio de sangue. Como canta em uma de suas músicas mais admiráveis:
Things have never been
so swell
And I have never failed to feel
Pain
Pain
Pain
I would never bother you
I would never promise to
I will never follow you
I will never bother you
Never say a word again
I will crawl away for good
I will move away from here
You won't be afraid of fear
No thought was put into this
I always knew it would come to this
Things have never been so swell
And I have never failed to feel
Pain
Pain
Pain
You know you're right
You know you're right
You know you're right
Clip de "You Know You´re Right" - Youtube
Quantas coisas
fantásticas ele fez em estado de pura fissão nuclear! Minutos antes de fazer o maior dos Acústicos MTV (bem, nem tão Acústico assim, afinal), ele estava literalmente estraçalhado, jogado no sofá com sintomas de abstinência (não sei se heroína é o psicotrópico ilegal que mais dá barato, mas estou convencida de que deve ser o que traz a pior abstinência), até que alguém lhe trouxe um benzodiazepínico para controlar isso. [...]
domingo, 10 de março de 2013
A Álvaro de Campos II
Entre noites insones
E raparigas inglesas
E escravos do mundo
Entre navios construídos
E consciência desterrada
De aldeão instruído
vicejam as angústias maiores.
E menores.
Não é que não tivesse sonhos,
desejos no ventre
Ou medo nas pernas
Mas nos sonhos, no desejo e no temor:
brotam larvas de consciência
futuras moscas de uma vontade dilacerada.
E de ti, herdo esse costume
De procurar em mim umas larvas...
Postas no tronco húmido de orgias cognitivas
Nas quais o amor é parasitose metafísica
E a morte, anseio inútil de noites eternas
E raparigas inglesas
E escravos do mundo
Entre navios construídos
E consciência desterrada
De aldeão instruído
vicejam as angústias maiores.
E menores.
Não é que não tivesse sonhos,
desejos no ventre
Ou medo nas pernas
Mas nos sonhos, no desejo e no temor:
brotam larvas de consciência
futuras moscas de uma vontade dilacerada.
E de ti, herdo esse costume
De procurar em mim umas larvas...
Postas no tronco húmido de orgias cognitivas
Nas quais o amor é parasitose metafísica
E a morte, anseio inútil de noites eternas
domingo, 24 de fevereiro de 2013
!E os latinos levam!
***Este texto contém spoilers ***
Tenho um fraco pelas malditas séries. Pior que sardinha, quando adolescente entrava em qualquer enlatado, desde as "Sessões de Sábado" na Globo, até o "Chaves". Mas quanto ao Chaves, tudo bem, eu acho.
Viúva de X-Files e Seinfeld, virei addicta em "Breaking Bad" (criada justamente por Vince Gilligan, um dos roteiristas eXcers), a série da AMC que gira em torno de Walter White. Walt é um professor de química com câncer, que começa a fabricar metanfetamina para deixar alguma herança à família. Walt não tem nada a perder, e no entanto, vê destruir-se a vida que ele julgava ser o tesouro pelo qual vivervale a pena. No pequeno laboratório do deserto em que Walt abre a série, correndo de cuecas pela primeira vez, ele é apenas um cook sem eira nem beira, acompanhado pelo fiel escudeiro, o tolo e junkie pobretão Jesse Pinkman, o vendedor que trabalha nas esquinas erradas. Essa oposição entre o 'gênio' e o 'tolo' é base da primeira temporada, mas vai se modificando de modo muito interessante nas seguintes. Humor, drama e ação se mesclam enquanto Walt "Breaks bad", ou seja, vira um sujeito do crime. E Jesse, solitário e infeliz, palmilha todos e mais alguns dos infernos éticos de um grupo social para o qual dor e drogas (legais, ilegais) se balanceiam como água e álcool.
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| Do link: http://www.esquire.com/features/esquire-100/cranston1007 |
É difícil não nos identificarmos com Walt, que do estreito e repetitivo mundo intraescolar consegue se sair muito bem tanto entre traficantes violentos e brainless - como Tuco Salamanca - e o manager Gus Fring, sujeito tranquilo, bem-educado, rico e cheio dos 'discurso corporativo', mano. É fato: quase todos nós poderíamos percorrer o Walt Way of Life, caminho que vai de um desejo legítimo por saúde para si e segurança para a família a uma disputa de poder orgulhosa na qual o fundamental é ser mais esperto que o oponente; um verdadeiro "Velho Oeste" no qual a violência continua sendo protagonista (a escolha de Albuquerque, Novo México, como a cidade-sede da série é bem significativa). Nesse caminho, já disse Vince Gilligan, a ideia é mostrar o estranhamento entre a ação e suas consequências - o modo como cada 'legítimo' ato de sobrevivência de Walt acaba desencadeando horrores nunca antes imaginados.
À parte Jesse, figuras assustadoras de dependentes químicos com o rosto escarificado transitam pela série, mas Walt não lhes dedica nenhum frase, nenhum pensamento: "worthless junkies", é o que todos dizem, inteiramente à mercê do "produto" White e outros. Não são as substâncias de alto poder aditivo a garantia de uma freguesia cativa? White fabrica a morte, mas ela lhe garante a vida. Walt pratica regularmente o autoengano, no qual aparece sempre como vítima das circunstâncias; Jesse, elétron que circula no orbital White, e ele próprio, gênio cujo trabalho gira um capital gigantesco. Na interpretação magistral de Bryan Cranston, Walt começa a série inseguro. Olhos baixos, voz trêmula, recorrentes cenas correndo de cuecas sem rumo certo (Walt de cuecas - cuecas mesmo, brancas e sem graça, nem sungas nem boxers - é símbolo que remete à sua desorientação e fragilidade), e vai aplicando sua esperta careca química a bolar uma enorme diversidade de astuciosas armadilhas para seus inimigos. No grande trabalho vocal do ator, Walt começa a falar forte e grosso - olhar reto, postura desafiadora. Com direito a cenas engraçadíssimas como essa foto ao lado do trailer, no 1º Episódio. Como diz Hank no mesmo episódio, Walt segura uma arma como Keith Richards segura um copo de leite.
***
Algo que me incomoda desde o início da série é a representação dos hispânicos - em particular, os do cartel com que Walt guerreia. Hoje, vimos um episódio da 4a temporada na qual Gus leva Jesse para fabricar speed para o cartel. Esse junkie americano que encarna a estupidez no seriado tromba os químicos titulados do cartel e os vence. Também Walt leva a melhor sobre todos os latinos que encontra. Gus representa o bem-sucedido 'empresário' - estrangeiro, mas totalmente integrado ao mundo do Tio Sam - conseguindo sobrepujar o cartel mesmo com golpes toscos. Entre personagens absurdos brandindo machados e químicos tontos que escutam as ofensas de Jesse sem reação, os latinos são de uma estupidez absurda, estereotipada, de uma maldade e de uma violência sempre grotescas. Espanta que, nos nossos tempos, ainda se consinta com essa Doutrina Monroe via enlatados, que, como eu já disse, desde cedo me acostumaram ao seu ritmo. A moral da história é que os latinos sempre levam.Sobre isso, agora um pouco triste, só consigo me lembrar da frase de Emiliano Zapata (que falou em espanhol, mas aqui vai): "Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos". Infelizmente, aqui estão as séries que nos aproximam do Tio Sam. E eu talvez precise deixar de ser uma sardinha (mas acho que só depois do fim de Breaking Bad, falow?).
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Carta a J.L.B.
"Às vezes, não somos fáceis e sabemos
disso. Por que teria de ser diferente? Por mais que o tempo passe, não há
perspectiva de que uma nódoa na carne deixe de ser uma nódoa na carne. Quisera
saber de ti, quanto tempo mais resta para que eu pudesse deixar um presente
para você, algo realmente para carregar vida afora; algo que dure e não desbote
com o tempo e as minhas dificuldades, mas fico aqui, sentada, sem poder me
mexer com algo que não seja distração e desatenção para o mundo fora deste
lugar, deste quarto, do elevador e da garagem, e o pequeno apêndice que há fora
disso, aquele que vai entre o trabalho e a praça de todos os dias.
Uma coisa que você me ensinou a
perceber é a perenidade em mim. Se alguém irascível pode tornar-se um pouco
mais controlado, é que a coisa era só incidental, casual, não necessária. Mas se
alguma insociabilidade se associa a um pouco de auto-estima; se à pessoa é
possível evitar ser irascível, mas não deixa de ser cheia de si, então, é que
ou a relação ou a pessoa são irrecuperáveis – e esse defeito não é defeito, é
algo que te constitui, é uma perna, um pulmão, um coração, mas está em algum
lugar menos palpável, essa fortaleza em ruínas que é a minha mente.
E o mundo lá fora, aquele depois
que o carro sai da garagem, que o porteiro fecha o acesso, e as paisagens
começam lentamente a se modificar, está aqui dentro, e talvez seja só inútil perder
o sono para imaginar novos meios de isolar-se, isolar-se, isolar-se... quando
teremos de tirar o lixo ao menos uma vez por semana.
Acho que ser, de algum jeito, um
objeto do nosso tempo é a verdadeira solidão". (B. Viterbo)
sábado, 9 de fevereiro de 2013
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