Olá, pessoal!
Como parte das atividades de Psicologia da Educação II na UFG, dois grupos de meus alunos estão mantendo blogs sobre ensino de ciências, com posts, links e outros materiais.
"Bloco F" é o da Química, http://oblocof.blogspot.com/ e "Dinpa", o das Ciências Biológicas, http://dinpa.blogspot.com/.
Psicologia, educação, política, literatura, cinema e outras idéias e opiniões que podem não ter conexão entre si. Tipo a Gisela.
sábado, 26 de novembro de 2011
sábado, 19 de novembro de 2011
Uma grunge na colônia
Então, estive nesse Congresso. De um ponto de vista antropológico, sempre me interessou essa ordem social composta por professor@s de pós-graduação e seus grupos de pesquisa, alun@s que, como abelhinhas, esvoaçam ao seu redor, ansiando por agradar. Sessões de comunicação com um público variando de 15 a 30 pessoas, grupos rivais bastante territoriais. Certa pessoa da platéia demonstra preferência por autor rival, e ess@s alun@s imediatamente declaram a preferência por seu próprio autor e, tal crianças frente à figura de apego, olham imediatamente para a líder em busca de aprovação.
O fator sobrevivência, em muitos casos, é o que mais pesa. Em áreas de pobre empregabilidade, tornar-se professor universitário é bastante sedutor. Muit@s enfrentam anos de longas viagens, com bolsas ou empregos que @s mantêm nos estritos limites da sobrevivência, chegando a misturar a jornada de chefes de família, trabalhadores e pós-graduandos. E, ainda por cima, são obrigados a inserir os nomes de seus orientadores em pesquisas nas quais eles não contribuem.
Muit@s orientador@s não tomam conhecimento desse cotidiano dos pós-graduandos, sequios@s por multiplicar seu poder de estilo colonial, tão longe da democracia quanto a USP está hoje - a principal universidade brasileira ´está vergonhosamente escorchada pelo seu próprio reitor, forte indício de como nosso Estado, e consequentemente, a produção de conhecimento, organiza-se.
Nesse Congresso, chamou-me a atenção o tom de voz áspero e grosseiro de uma orientadora em particular, sua ansiedade por satisfazer os pesquisadores estrangeiros e demonstrar seu domínio intelectual sobre um pequeno grupo de orientandos que variava da vulnerabilidade a uma silenciosa resignação. No cúmulo da loucura, tem-se uma preocupação obsessiva com a ortofonia e a ortoteoria: como se pronuncia tal nome? O que tal autor realmente quis dizer? E que tem lá seu fundamento, pois se faz em um contexto no qual - cientes do fato de que são poucos os que dominam idiomas herméticos (como russo e alemão) - muitos intérpretes alteram o pensamento dos mestres estrangeiros a seu bel-prazer. Malefícios da Universidade pensada fundamentalmente como local de tradução e interpretação, na qual os recursos para pesquisa são invariavelmente escassos.
Essa coisa toda é meio colonialista e me chama a atenção para o fato de que o tamanho dos grupos varia proporcionalmente à simpatia do orientador, e os indivíduos realmente sociáveis e humanos constituem grupos amplos, plateias que acabam devotando-lhes verdadeira adoração, elemento que ocasionalmente serve a quebrar os muros Universidade-sociedade e servir a boas causas.
Mas, falando no geral, ess@s orientador@s, restritos ao seguro ambiente acadêmico, marcam-se por uma notável falta de realismo. Ressalto o momento no qual estava em pé dentro do ônibus que levaria os congressistas para o centro da cidade, quando entra uma figura importante da psicologia nacional - a qual não me conhecia - entra e diz, com um tom de quem há muito tempo não ouve uma frase negativa: "vão indo!".
Mas não dava. A Universidade brasileira é mesmo um busão lotado, mas com ar condicionado.
---
Intelectualmente, vejo problemas nessa organização. Lembro-me de um Manifesto do Miguel Nicolelis, em que ele critica a hierarquização da universidade brasileira, comentando que no exterior você tem o dever de defender teses originais e criar conceitos. Pensar de modo criativo demanda cooperação e liberdade. O amor às hierarquias acabou gerando certa estagnação na produção intelectual, pois os grupos preocupam-se muito mais em não ofender mutuamente seus orientadores, que por sua vez preocupam-se em ser nutridos por seus contatos internacionais e em não romper (ou não azedar por completo) as alianças com grupos nacionais.
Também eu, é claro, carrego em minha consciência nossa história de colonização. Mas tive a boa sorte de que minha primeira camada 'metropolina' tenha sido feita de Nirvana, gestada nos terríveis subúrbios de Aberdeen e não nas fulgurantes luzes de New York. E quando me lembro daquele pequeno grupo da orientadora de tom áspero, se me evoca esse grande clássico de Kurt Cobain, desejando mais do que nunca ter tido a chance de me acabar em uma plateia grunge, perante o meu verdadeiro ídolo de adolescência tardia. Quiçá possa alcançar a integridade, a verve e o amor pela verdade que muitos nunca lhe reconheceram, confundidos pelos caracteres acidentais da heroína e do suicídio:
O fator sobrevivência, em muitos casos, é o que mais pesa. Em áreas de pobre empregabilidade, tornar-se professor universitário é bastante sedutor. Muit@s enfrentam anos de longas viagens, com bolsas ou empregos que @s mantêm nos estritos limites da sobrevivência, chegando a misturar a jornada de chefes de família, trabalhadores e pós-graduandos. E, ainda por cima, são obrigados a inserir os nomes de seus orientadores em pesquisas nas quais eles não contribuem.
Muit@s orientador@s não tomam conhecimento desse cotidiano dos pós-graduandos, sequios@s por multiplicar seu poder de estilo colonial, tão longe da democracia quanto a USP está hoje - a principal universidade brasileira ´está vergonhosamente escorchada pelo seu próprio reitor, forte indício de como nosso Estado, e consequentemente, a produção de conhecimento, organiza-se.
Nesse Congresso, chamou-me a atenção o tom de voz áspero e grosseiro de uma orientadora em particular, sua ansiedade por satisfazer os pesquisadores estrangeiros e demonstrar seu domínio intelectual sobre um pequeno grupo de orientandos que variava da vulnerabilidade a uma silenciosa resignação. No cúmulo da loucura, tem-se uma preocupação obsessiva com a ortofonia e a ortoteoria: como se pronuncia tal nome? O que tal autor realmente quis dizer? E que tem lá seu fundamento, pois se faz em um contexto no qual - cientes do fato de que são poucos os que dominam idiomas herméticos (como russo e alemão) - muitos intérpretes alteram o pensamento dos mestres estrangeiros a seu bel-prazer. Malefícios da Universidade pensada fundamentalmente como local de tradução e interpretação, na qual os recursos para pesquisa são invariavelmente escassos.
Essa coisa toda é meio colonialista e me chama a atenção para o fato de que o tamanho dos grupos varia proporcionalmente à simpatia do orientador, e os indivíduos realmente sociáveis e humanos constituem grupos amplos, plateias que acabam devotando-lhes verdadeira adoração, elemento que ocasionalmente serve a quebrar os muros Universidade-sociedade e servir a boas causas.
Mas, falando no geral, ess@s orientador@s, restritos ao seguro ambiente acadêmico, marcam-se por uma notável falta de realismo. Ressalto o momento no qual estava em pé dentro do ônibus que levaria os congressistas para o centro da cidade, quando entra uma figura importante da psicologia nacional - a qual não me conhecia - entra e diz, com um tom de quem há muito tempo não ouve uma frase negativa: "vão indo!".
Mas não dava. A Universidade brasileira é mesmo um busão lotado, mas com ar condicionado.
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Intelectualmente, vejo problemas nessa organização. Lembro-me de um Manifesto do Miguel Nicolelis, em que ele critica a hierarquização da universidade brasileira, comentando que no exterior você tem o dever de defender teses originais e criar conceitos. Pensar de modo criativo demanda cooperação e liberdade. O amor às hierarquias acabou gerando certa estagnação na produção intelectual, pois os grupos preocupam-se muito mais em não ofender mutuamente seus orientadores, que por sua vez preocupam-se em ser nutridos por seus contatos internacionais e em não romper (ou não azedar por completo) as alianças com grupos nacionais.
Também eu, é claro, carrego em minha consciência nossa história de colonização. Mas tive a boa sorte de que minha primeira camada 'metropolina' tenha sido feita de Nirvana, gestada nos terríveis subúrbios de Aberdeen e não nas fulgurantes luzes de New York. E quando me lembro daquele pequeno grupo da orientadora de tom áspero, se me evoca esse grande clássico de Kurt Cobain, desejando mais do que nunca ter tido a chance de me acabar em uma plateia grunge, perante o meu verdadeiro ídolo de adolescência tardia. Quiçá possa alcançar a integridade, a verve e o amor pela verdade que muitos nunca lhe reconheceram, confundidos pelos caracteres acidentais da heroína e do suicídio:
Nirvana, Serve the servants, MTV [Live]
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Relatório da pesquisa: "Breve análise de orçamento para crianças e adolescentes no Estado de São Paulo"
"1. Introdução
Para conferir o relatório completo desta pesquisa, realizada entre 2008-2009, clique aqui.
A LDO 2008, Art. 2, estabelece como metas e prioridades da ação estatal a “I - redução das desigualdades sociais e melhoria da qualidade de vida da população; II - geração de emprego e renda e preservação dos recursos naturais; III - garantia da segurança pública e promoção dos direitos humanos.” (ESTADO DE SÃO PAULO, 2007a, p.5).
Mas será que essas resoluções têm sido realmente cumpridas? Podemos começar um esboço de resposta a esta indagação pela análise do orçamento estadual dirigido à criança e ao adolescente. E pensar nele como um importante termômetro das políticas de promoção da igualdade e justiça social no Estado...
O orçamento dos Estados é regulado por três leis: PPA (Plano Plurianual – de 4 anos, atualmente: 2008-2011); LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias – Anual) e LOA (Lei Orçamentária Anual, que integra os outros dois documentos, PPA e LDO). Este texto visa a analisar o principal dispositivo orçamentário, cujo papel é integrar e detalhar os outros dois, completando o ciclo orçamentário: a LOA/2008, publicada em dezembro de 2007 (Estado de São Paulo, 2007b). A lei é de importância visceral, embora sua análise conte com uma bibliografia, mesmo eletrônica, surpreendentemente escassa."
Para conferir o relatório completo desta pesquisa, realizada entre 2008-2009, clique aqui.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Contra a criminalização do movimento estudantil!
Assine a petição: Contra a ocupação militar no campus da USP.
Caros alunos e colegas da UFG:
O que ocorreu essa madrugada na USP foi um terrível ato de barbárie: a PM não tem que estar no campus, e o convênio reitoria-PM expressa bastante bem a completa falta de democracia existente na USP desde a ditadura. O reitor Rodas não foi eleito pela maioria da comunidade universitária, não gozando de nenhuma legitimidade política para suas ações. Com que, então, a PM entrou para "proteger" a todos e, de repente, prende 70 estudantes? Observadores no interior da universidade percebem que havia lá uma busca ativa por usuários de maconha, coisa que a PM paulista não faz em lugar algum. Esse convênio é um ato político de repressão, e não uma ação de segurança.
Estudei na USP na graduação e doutorado, visitei a ocupação de 2007 e fiquei comovida ao constatar o cuidado com que os alunos zelaram pelo bem público, bem como sua coragem de resistir por mais de um mês.
A agressão perpetrada pela PM é um ato que fere não só a comunidade USP, mas também todo o movimento estudantil e, por extensão, outros movimentos sociais - já tão duramente golpeados nos últimos tempos. É hora de desencadear manifestações de apoio aos estudantes da USP e mostrar que estamos mais vivos do que pensa o stablishment.
Gostaria de recomendar a vocês visita às páginas: http://www.facebook.com/DCEdaUSP e http://www.adusp.org.br/# , http://ler-qi.org/, pois, pesquisando na internet, fiquei profundamente impressionada com a tendenciosidade dessa imprensa que aí está. Não nos deixemos enganar, protestemos!
Caros alunos e colegas da UFG:
O que ocorreu essa madrugada na USP foi um terrível ato de barbárie: a PM não tem que estar no campus, e o convênio reitoria-PM expressa bastante bem a completa falta de democracia existente na USP desde a ditadura. O reitor Rodas não foi eleito pela maioria da comunidade universitária, não gozando de nenhuma legitimidade política para suas ações. Com que, então, a PM entrou para "proteger" a todos e, de repente, prende 70 estudantes? Observadores no interior da universidade percebem que havia lá uma busca ativa por usuários de maconha, coisa que a PM paulista não faz em lugar algum. Esse convênio é um ato político de repressão, e não uma ação de segurança.
Estudei na USP na graduação e doutorado, visitei a ocupação de 2007 e fiquei comovida ao constatar o cuidado com que os alunos zelaram pelo bem público, bem como sua coragem de resistir por mais de um mês.
A agressão perpetrada pela PM é um ato que fere não só a comunidade USP, mas também todo o movimento estudantil e, por extensão, outros movimentos sociais - já tão duramente golpeados nos últimos tempos. É hora de desencadear manifestações de apoio aos estudantes da USP e mostrar que estamos mais vivos do que pensa o stablishment.
Gostaria de recomendar a vocês visita às páginas: http://www.facebook.com/DCEdaUSP e http://www.adusp.org.br/# , http://ler-qi.org/, pois, pesquisando na internet, fiquei profundamente impressionada com a tendenciosidade dessa imprensa que aí está. Não nos deixemos enganar, protestemos!
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Lançamento de meu livro: 6º Congresso de Psicologia UFG/ VIII CBPD
O lançamento ocorrerá nos eventos:
VI Congresso de Psicologia da UFG: 03/11, às 19h00, Faculdade de Educação, Goiânia, GO.
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento, Brasília, 14/11 (às 20h00) - no Saguão das Livrarias.
Conto com a presença dos amigos, colegas, alunos, ex-alunos e toda a população mundial que não se enquadre nas categorias anteriores.
Abraço,
Gisele
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SINOPSE DO LIVRO
Acaba de sair de gráfica mais um lançamento da Papirus Editora: Emoções e vivências em Vigotski, de Gisele Toassa.
Desde a década de 1950 as produções do bielorrusso Lev Semionovich Vigotski (1896-1934) vêm se tornando conhecidas no debate sobre pensamento, linguagem, desenvolvimento e aprendizagem escolar. Mais recentemente viu-se crescer também o interesse por outras dimensões de sua psicologia, como o estudo das emoções e vivências humanas, conceitos explorados aqui como partes da formação da personalidade e da consciência.
Filosofia, psicologia do desenvolvimento, psicologia da arte e neurociências são alguns dos campos de pesquisa abordados, por meio de reflexões sobre a obra do autor - desde A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, seu primeiro livro, até Pensamento e linguagem, publicado no ano de sua morte.
Buscando respeitar a diversidade e a riqueza da concepção de Vigostski, este livro será de interesse a psicólogos, educadores, artistas, linguistas e outros simpatizantes do legado desse autor.
Emoções e vivências em Vigotski
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Desde a década de 1950 as produções do bielorrusso Lev Semionovich Vigotski (1896-1934) vêm se tornando conhecidas no debate sobre pensamento, linguagem, desenvolvimento e aprendizagem escolar. Mais recentemente viu-se crescer também o interesse por outras dimensões de sua psicologia, como o estudo das emoções e vivências humanas, conceitos explorados aqui como partes da formação da personalidade e da consciência.Filosofia, psicologia do desenvolvimento, psicologia da arte e neurociências são alguns dos campos de pesquisa abordados, por meio de reflexões sobre a obra do autor - desde A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, seu primeiro livro, até Pensamento e linguagem, publicado no ano de sua morte.
Buscando respeitar a diversidade e a riqueza da concepção de Vigostski, este livro será de interesse a psicólogos, educadores, artistas, linguistas e outros simpatizantes do legado desse autor.
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288 pp.
R$ 59,90
Abraço,
Gisele
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"Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que adquirir aliança de amizade com homens que amem sinceramente a verdade" (Espinosa)
sábado, 8 de outubro de 2011
II Encontro Nacional de Licenciaturas - 28 a 30/11/2011
Inscrições de trabalhos até 20/10.
Inscrições para o evento: até 11/11.
Acesse aqui a página do evento.
Inscrições para o evento: até 11/11.
Acesse aqui a página do evento.
domingo, 2 de outubro de 2011
Um fascista consequente? Sobre "Tropa de Elite II"
Obs1: se você não tiver visto o filme, não leia esse post.
Obs2: é sério.
---
Assisti ao Tropa de Elite II (um ano depois de todo mundo, seus novidadeiros escravizados!) e senti um gosto-desgosto parecido com o do Tropa de Elite I. Um aluno me abriu os olhos para o aspecto blockbuster do filme - aquele hip rock da trilha sonora, enquanto Nascimento atravessa os pavilhões de Bangu I, certamente era dispensável. Fora as fotos tétricas, que mais te lembram uma porcaria qualquer do Schwarzenegger. Nada mais tosco; e o Padilha bem que poderia ter tido um pouco mais de cautela com a fácil leitura reacionária do filme. Mas ainda penso que a película é mais arte que indústria cultural, na proporção de 70 para 30%.
Por enquanto, vou morar no meu gosto-desgosto sem esperar resolvê-lo, enquanto tratar do filme como obra de arte. É claro, como tese sociológica, a coisa muda e falarei disso mais adiante. Lembra um pouco o Orwell, só que menos inteligente (ou livre). Cumprimentos ao diretor José Padilha: somente o equivalente cinematográfico de um Baruch de Espinosa ou Antonio Gramsci, para meter a colher em um tema desses.
Minha simpatia pelo Capitão Nascimento - promovido a coronel - não aumentou. Torci por ele, de fato, pois o enredo te leva a isso, mas encaro com frieza esse mote americanófilo do herói-pistoleiro-solitário, a versão moderna de Kant, o homem que se entrega completamente ao cumprimento de seu dever. Continuo a identificar no Nascimento o que o Lênin, se vivo estivesse, talvez chamasse de "um fascista consequente", se é que dois adjetivos tão incongruentes podem coexistir em uma única frase sem ulcerar as pupilas de quem lê.
Entre atos: a gramática é amoral.
Meu pacifismo se apazigua ao perceber que Nascimento perdeu a mulher para um defensor dos direitos humanos, que deixa o enteado ver programas anti-Nascimento. Workaholic, este protagonista não tem sequer um cãozinho a esperá-lo em casa. Em seu terno preto e expressão fechada, envelhece em uma ostra; e, mesmo parecendo não se lamentar por isso, dá poucos sinais de alegria ao longo do filme. Parece viver em uma espécie de anestesia administrada pelo cumprimento do dever, trazendo um rosto que oscila entre as paixões tristes e a inexpressividade treinada dos que cumprem ordens sem dar opinião. Ao fim e ao cabo, meio desiludido, desesperançado, mas ainda aferrado à doutrina. Efeitos cumulativos de tanta violência? O Tropa de Elite I é sua jornada em busca de um substituto, mas ele não o consegue, por quê? Não temos explicações.
Para Nascimento, o homicídio é secundário. O centro de sua existência é a obsessão com um ideal, o das qualidades militares. Ele acredita na Corporação (o Bope) como todo fascista acreditava no corpo social da Pátria de Mussolini. Acredita no amigo, o André Matias, como homem obediente, que combina força e decência, espelho das qualidades do seu mestre. O ideal não é criativo, mas funciona: um dia depois do outro, protege milhares de zelosos agentes da lei das dúvidas aflitivas, que prejudicariam seu ganha-pão. Nesse meio social, o excesso de palavrões parece encobrir uma certa escassez de criatividade, de idéias, de entendimento mais complexo do mundo em que vivem. Não sei.
Vai ver que ele só me desperta certa compaixão justamente porque, no fundo, acredita naquilo que é tão difícil de fazer meus alunos desconfiarem, porque tem mil e uma utilidades: o mito da ordem e da disciplina, fundador da República brasileira. Se essa Musa dos incautos tiver despida a túnica desse mito, revela-se tão injusta, cínica, excludente, que muitos de nós talvez se revoltassem ou se deprimissem, ou coisa pior. Mas Nascimento não é bobo. Demora, mas ele percebe que não adianta matar e espancar, porque a natureza humana é anarquista, desdenha do Estado, da ordem, acumula tolos desejos de riqueza e vingança, e ele é impotente para generalizar seu modelo espartano de vida. A milícias do Tropa de Elite formam um pseudo-anarquismo parasitário do Estado, feito por homens acima de suspeita que nos fazem sentir saudades dos traficantes do Tropa I. E Nascimento também se pergunta, ao fim: por que matei tanto? Para dar nisso aí?
A morte do amigo e colega de BOPE é realmente um golpe em seu rígido senso de responsabilidade para com os subordinados, em sua ilusão na capacidade de protegê-los, e outras qualidades necessárias para sobrevivência do ofício. Esse herói deve ter agradado menos a média do público que o do Tropa I; agora ele se tornou mais complexo. No fim do filme, percebemos que o sentido psicológico de sua missão, a convicção de que o BOPE "sanitizará" o Rio com a soda cáustica da ordem e da disciplina, arruína-se por completo. Frente ao teste de realidade, Nascimento alcança uma compreensão mais profunda do funcionamento do "sistema".
---
E agora, analiso o filme como tese sociológica. Um pouco de Gandhi, Tolstói, Thoreau e da contracultura já apontaria a inefetividade de se recorrer a meios violentos para criar uma sociedade não-violenta. Não somos computadores com botão de deletar - "aí, cidadãos, esqueçam a maldade do BOPE e tenham uma vida feliz!".
No fundo, não é mesmo o apaziguamento que está em causa. O filme consegue criticar bastante bem a tese simplista de que basta aniquilar os traficantes e a favela será um local bacana - e esse recado fica claro mesmo para os espectadores mais ingênuos. Ora, a violência na favela insere-se em um sistema. E no fim, Padilha volta suas lentes para o lugar onde os piores bandidos se concentram, i.e., Brasília.
Que tal, então, extinguir Brasília, já que é o verdadeiro centro da corrupção e da violência? Talvez pense assim o espectador ingênuo. E o filme anda em círculos, não chega a uma análise mais profunda do Estado, do narcotráfico (dificilmente o faria com a rede de patrocinadores que tem); não analisa o potencial impacto da descriminalização das drogas, não analisa o processo pelo qual um menino se torna traficante (o próprio MV Bill foi muito mais longe nesse ponto), traumatizado, violentado e sem alternativas para ganhar o seu pão. Somente um ingênuo poderia acreditar que o Estado brasileiro, com seu imenso poder econômico, não seria capaz de derrotar bandos de homens com armas do Exército, mas sem treinamento militar e comando central. Sim, parceiros, o BOPE tomou os morros, e daí? O abstrato "sistema" é capitalista, e aí entra outro ponto que me incomodou profundamente - ao se manter a guerra no nível do círculo tráfico-milícia-Estado, a fonte primeira de nossa organização social, o Grande Capital, escapou incólume. E é dele que vêm as armas, os vícios, o darwinismo social a que nos acostumamos quase como segunda pele.
Ora, vamos. Ninguém estranhou o patrocínio do filme pela Claro? Meus parabéns por abrir os olhos dos ingênuos, Padilha, mas sua frágil noção de sistema deixou de lado o elo principal da corrente, esse, que os moradores de tantos cortiços do mundo enfrentam todos os dias, a fonte primária da violência do Estado. O BOPE, mais do que resgatar sua população para direitos historicamente negados, é uma máquina de guerra para o grande capital acessar a favela sem ter de pagar propina para um lado ou outro.
E soltar esse filme meses antes da história da ocupação das favelas e instauração das UPPs?! Pode ser coincidência, mas...
Obs2: é sério.
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Assisti ao Tropa de Elite II (um ano depois de todo mundo, seus novidadeiros escravizados!) e senti um gosto-desgosto parecido com o do Tropa de Elite I. Um aluno me abriu os olhos para o aspecto blockbuster do filme - aquele hip rock da trilha sonora, enquanto Nascimento atravessa os pavilhões de Bangu I, certamente era dispensável. Fora as fotos tétricas, que mais te lembram uma porcaria qualquer do Schwarzenegger. Nada mais tosco; e o Padilha bem que poderia ter tido um pouco mais de cautela com a fácil leitura reacionária do filme. Mas ainda penso que a película é mais arte que indústria cultural, na proporção de 70 para 30%.
Por enquanto, vou morar no meu gosto-desgosto sem esperar resolvê-lo, enquanto tratar do filme como obra de arte. É claro, como tese sociológica, a coisa muda e falarei disso mais adiante. Lembra um pouco o Orwell, só que menos inteligente (ou livre). Cumprimentos ao diretor José Padilha: somente o equivalente cinematográfico de um Baruch de Espinosa ou Antonio Gramsci, para meter a colher em um tema desses.
Minha simpatia pelo Capitão Nascimento - promovido a coronel - não aumentou. Torci por ele, de fato, pois o enredo te leva a isso, mas encaro com frieza esse mote americanófilo do herói-pistoleiro-solitário, a versão moderna de Kant, o homem que se entrega completamente ao cumprimento de seu dever. Continuo a identificar no Nascimento o que o Lênin, se vivo estivesse, talvez chamasse de "um fascista consequente", se é que dois adjetivos tão incongruentes podem coexistir em uma única frase sem ulcerar as pupilas de quem lê.
Entre atos: a gramática é amoral.
Meu pacifismo se apazigua ao perceber que Nascimento perdeu a mulher para um defensor dos direitos humanos, que deixa o enteado ver programas anti-Nascimento. Workaholic, este protagonista não tem sequer um cãozinho a esperá-lo em casa. Em seu terno preto e expressão fechada, envelhece em uma ostra; e, mesmo parecendo não se lamentar por isso, dá poucos sinais de alegria ao longo do filme. Parece viver em uma espécie de anestesia administrada pelo cumprimento do dever, trazendo um rosto que oscila entre as paixões tristes e a inexpressividade treinada dos que cumprem ordens sem dar opinião. Ao fim e ao cabo, meio desiludido, desesperançado, mas ainda aferrado à doutrina. Efeitos cumulativos de tanta violência? O Tropa de Elite I é sua jornada em busca de um substituto, mas ele não o consegue, por quê? Não temos explicações.
Para Nascimento, o homicídio é secundário. O centro de sua existência é a obsessão com um ideal, o das qualidades militares. Ele acredita na Corporação (o Bope) como todo fascista acreditava no corpo social da Pátria de Mussolini. Acredita no amigo, o André Matias, como homem obediente, que combina força e decência, espelho das qualidades do seu mestre. O ideal não é criativo, mas funciona: um dia depois do outro, protege milhares de zelosos agentes da lei das dúvidas aflitivas, que prejudicariam seu ganha-pão. Nesse meio social, o excesso de palavrões parece encobrir uma certa escassez de criatividade, de idéias, de entendimento mais complexo do mundo em que vivem. Não sei.
Vai ver que ele só me desperta certa compaixão justamente porque, no fundo, acredita naquilo que é tão difícil de fazer meus alunos desconfiarem, porque tem mil e uma utilidades: o mito da ordem e da disciplina, fundador da República brasileira. Se essa Musa dos incautos tiver despida a túnica desse mito, revela-se tão injusta, cínica, excludente, que muitos de nós talvez se revoltassem ou se deprimissem, ou coisa pior. Mas Nascimento não é bobo. Demora, mas ele percebe que não adianta matar e espancar, porque a natureza humana é anarquista, desdenha do Estado, da ordem, acumula tolos desejos de riqueza e vingança, e ele é impotente para generalizar seu modelo espartano de vida. A milícias do Tropa de Elite formam um pseudo-anarquismo parasitário do Estado, feito por homens acima de suspeita que nos fazem sentir saudades dos traficantes do Tropa I. E Nascimento também se pergunta, ao fim: por que matei tanto? Para dar nisso aí?
A morte do amigo e colega de BOPE é realmente um golpe em seu rígido senso de responsabilidade para com os subordinados, em sua ilusão na capacidade de protegê-los, e outras qualidades necessárias para sobrevivência do ofício. Esse herói deve ter agradado menos a média do público que o do Tropa I; agora ele se tornou mais complexo. No fim do filme, percebemos que o sentido psicológico de sua missão, a convicção de que o BOPE "sanitizará" o Rio com a soda cáustica da ordem e da disciplina, arruína-se por completo. Frente ao teste de realidade, Nascimento alcança uma compreensão mais profunda do funcionamento do "sistema".
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E agora, analiso o filme como tese sociológica. Um pouco de Gandhi, Tolstói, Thoreau e da contracultura já apontaria a inefetividade de se recorrer a meios violentos para criar uma sociedade não-violenta. Não somos computadores com botão de deletar - "aí, cidadãos, esqueçam a maldade do BOPE e tenham uma vida feliz!".
No fundo, não é mesmo o apaziguamento que está em causa. O filme consegue criticar bastante bem a tese simplista de que basta aniquilar os traficantes e a favela será um local bacana - e esse recado fica claro mesmo para os espectadores mais ingênuos. Ora, a violência na favela insere-se em um sistema. E no fim, Padilha volta suas lentes para o lugar onde os piores bandidos se concentram, i.e., Brasília.
Que tal, então, extinguir Brasília, já que é o verdadeiro centro da corrupção e da violência? Talvez pense assim o espectador ingênuo. E o filme anda em círculos, não chega a uma análise mais profunda do Estado, do narcotráfico (dificilmente o faria com a rede de patrocinadores que tem); não analisa o potencial impacto da descriminalização das drogas, não analisa o processo pelo qual um menino se torna traficante (o próprio MV Bill foi muito mais longe nesse ponto), traumatizado, violentado e sem alternativas para ganhar o seu pão. Somente um ingênuo poderia acreditar que o Estado brasileiro, com seu imenso poder econômico, não seria capaz de derrotar bandos de homens com armas do Exército, mas sem treinamento militar e comando central. Sim, parceiros, o BOPE tomou os morros, e daí? O abstrato "sistema" é capitalista, e aí entra outro ponto que me incomodou profundamente - ao se manter a guerra no nível do círculo tráfico-milícia-Estado, a fonte primeira de nossa organização social, o Grande Capital, escapou incólume. E é dele que vêm as armas, os vícios, o darwinismo social a que nos acostumamos quase como segunda pele.
Ora, vamos. Ninguém estranhou o patrocínio do filme pela Claro? Meus parabéns por abrir os olhos dos ingênuos, Padilha, mas sua frágil noção de sistema deixou de lado o elo principal da corrente, esse, que os moradores de tantos cortiços do mundo enfrentam todos os dias, a fonte primária da violência do Estado. O BOPE, mais do que resgatar sua população para direitos historicamente negados, é uma máquina de guerra para o grande capital acessar a favela sem ter de pagar propina para um lado ou outro.
E soltar esse filme meses antes da história da ocupação das favelas e instauração das UPPs?! Pode ser coincidência, mas...
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Sonhos padronizados

Descobri o cinema de Darren Aronofsky e não consigo mais parar. Tomemos “Requiem for a dream” ["A vida não é um sonho"] (2000). Sara Goldfarb, mulher solitária, simpática, prendada, imagina-se na TV, vestida com seu vestido favorito - o que usara na formatura do filho, Harry. Em sua fantasia, ela está penteada, maquiada e magra, falando animadamente sobre sua amada família para um alegre apresentador de programa de auditório; nela vemos nossas mães e as mães de toda a gente. Seu sonho, tão popular, é alimentado por uma cartinha da emissora de televisão que a convida a participar do programa.
Sara captura nossa estima tão rapidamente como a frágil personagem de Mia Farrow em a “Rosa Púrpura do Cairo”. A montagem de Aronofsky é intensa como a de Eisenstein. O resultado induz um pânico difícil de sanar; como diria Vigotski: ao invés do simples contágio, produz uma ferida.
Faz sentido. Harry é usuário de heroína. Em suas enormes pupilas, sonhamos com ele, repetidamente. O que sonha? Sonha caminhar em um lindo píer na direção de sua amada Marion. Marion, seminua, olha-se no espelho, embriagada por alguma sensação de poder sem contradições, uma ilusão que é ela própria, em certa medida. Tyrone, o terceiro amigo, sonha ser importante. E todos ignoram que a Fortuna encaminhava-os muito mal. Marca-se tal sucessão de cenas kafkianas que só fazem nos mergulhar no lado B de um mundo semidesconhecido, cujo muro entre psicotrópicos legais e ilegais é fundamentalmente a hipocrisia.
Sara fantasia o sonho americano: casa asseada, com cada coisa em seu lugar. A dona, em seu centro, pode exibir à platéia a sua feliz e comportada família, em que drogas e álcool não têm voz nem vez. Mas, que azar! Pela porta dos fundos entram medicamentos. A fim de parecer mais magra na TV, Sara torna-se dependente de anfetaminas. O filme está para nossa cultura medicalizada tal qual os dramas de Ibsen estavam para os tempos revolucionários da burguesia: a verdade sobre uma sociedade em crise, na qual nenhuma ilusão parece se sustentar sem o apelo a poderosos narcóticos ou técnicas médicas, infiltra-se por nossos olhos como as agulhas através do putrefato braço de Harry. Essa verdade genial do filme é a demonstração de que não o desvio, mas sim a forçada normalidade dos personagens - todos, alimentados por este ou aquele sonho americano - é a fonte inexorável de seu horror e destruição, da obsessão sancionada que muitos chamariam de padronização.
Já dizia Espinosa: mais vale multiplicar os desejos para que nosso corpo/mente não se torne refém de uma só paixão. Mais valem os bons encontros que as idéias imaginativas. E um mundo em que as categorias mais desejadas são também as mais vazias de espírito público - dinheiro, riqueza, beleza - essas personagens não podem se gabar de seus bons encontros, nem da atividade de seu corpo, nem de participar da difícil invenção do bem comum, que alguns larápios oportunistas chamaram de política. Os personagens de Aronofsky vagam em um mundo que fabricou a relação entre crime e castigo, a noção de que o vício induz seu próprio fim, e se não induzir, manicômios ou prisões farão o serviço. Penso que essa "higienização" é feita no filme ao alcançar a visibilidade da vida pública, antes de que as velhinhas, amigas de Sara, fiéis companheiras de cadeiras de jardim e torta de maçã, desconfiem do estofo cruel e violento oculto em seus inofensivos programas de auditório - ou, tal como ela, tentem tornar mais real o sonho narcótico que eles veiculam.
sábado, 3 de setembro de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Velhinhas e motoristas
Estava metida em minha vida.
Foi quando dei aquela olhadinha nas notícias do Yahoo:
Bem, então: motoristas temem mais as multas do que abalroar as velhinhas. Estas, lentas e trôpegas, já não correm como os jovens de um homicídio aleatório. O resultado é mera poça de sangue, e lava-se; mas não os rombos na carteira.
Os outros 36% arriscam a carteira.
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